Descrição de chapéu Eleições 2020

Russomanno minimiza queda, mantém aposta em Bolsonaro e embates com 'Bruno-Doria'

À frente numericamente, equipe de tucano avalia manter estratégia de não responder aos ataques

São Paulo

A queda de sete pontos na pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira (22), de 27% para 20%, foi minimizada pela campanha de Celso Russomanno (Republicanos), que pretende seguir com a estratégia de alinhamento ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e de combate ao adversário agora nomeado de "Bruno-Doria" —em referência ao prefeito Bruno Covas (PSDB) e ao governador João Doria (PSDB).

Em empate técnico com Russomanno, mas numericamente à frente na pesquisa (com 23%), Covas também vai manter o tom. Segundo seus estrategistas, a campanha não vai responder aos ataques de Russomanno, vai ignorar a nacionalização e seguir mostrando a biografia e as medidas do prefeito.

Celso Russomanno (Republicanos) experimenta frutas do Ceagesp em campanha para a Prefeitura de São Paulo - Phillipe Guedes/Globo News

Os tucanos acreditavam que Russomanno cairia sozinho e que, portanto, a campanha de Covas não precisava mirá-lo. Para eles, a pesquisa mostrou que a avaliação era correta. Os aliados do prefeito trabalham com a certeza de que ele estará no segundo turno —contra Russomanno ou Guilherme Boulos (PSOL) ou Márcio França (PSB).

Em sua terceira campanha consecutiva à Prefeitura de São Paulo, Russomanno revive a queda que marcou as eleições de 2012 e 2016, quando largou em primeiro e terminou em terceiro. O slogan “Agora é a nossa vez” foi ancorado na perspectiva de que Bolsonaro o levaria à vitória, enquanto a leitura de adversários é a de que foi justamente o presidente que o empurrou ladeira abaixo.

Como mostrou a Folha, Russomanno vinha “bolsonarizando” seu discurso, da minimização da pandemia à negação da ditadura militar, ao mesmo tempo em que auxiliares do presidente, como Fabio Wajngarten, embarcavam na campanha.

Desde que assumiu o padrinho, Russomanno viu sua rejeição disparar. Em um mês (de 21 de setembro a 20 de outubro), cresceu de 21% para 38% —a intenção de votos foi de 29% para 20%. O Datafolha já mostrou que 46% dos paulistanos rejeita Bolsonaro.

A pouco mais de três semanas do primeiro turno, como agora, Russomanno perdia 5 pontos em 2016 e 3 pontos em 2012 em relação a pesquisas anteriores —dessa vez foram 7. Em 2016, do início de setembro ao início de outubro, ele perdeu 12 pontos –8 na última semana. Em 2012, também foram 12 pontos perdidos entre o início de setembro e a pesquisa de véspera da eleição.

Segundo membros do Republicanos, a queda desta quinta foi sentida como uma pancada. Ao mesmo tempo, os aliados de Russomanno preferiram se agarrar a outras pesquisas que ainda o mostram à frente.

O próprio candidato se manifestou nesse sentido em rede social. “A manipulação da margem de erro pelo Datafolha em sua última pesquisa é óbvia e já contestada pela pesquisa da XP, que enfatiza a solidez de minha candidatura. Isso mostra o desespero da Folha. Sigo tranquilo, pois conheço seu modus operandi e sei que os fatos sempre a desmentem”, tuitou.

Segundo o marqueteiro Elsinho Mouco, as pesquisas recentes, inclusive o Datafolha, foram comemoradas pois contemplam o objetivo de estar no segundo turno. Em vez de falar para todos os eleitores, a estratégia é imitar a mobilização eleitoral de Bolsonaro e pregar para convertidos, no caso as classes C, D e E e os eleitores bolsonaristas.

Mouco quer manter a base da campanha em Bolsonaro, até porque as propostas de Russomanno, como o auxílio paulistano, estão amarradas nele. “Sem o governo federal não conseguimos reconstruir São Paulo”, resume.

O marqueteiro diz ainda que a impopularidade de Bolsonaro estava precificada no aumento da rejeição de Russomanno de 21% para 29%, entre o fim de setembro e o início de outubro. E que o novo baque se deve não ao presidente, mas a ataques de adversários que exploram posições políticas e investigações passadas.

Mesmo com a orientação de manter o tom bolsonarista, houve alguma modulação no discurso. Se na quarta (21) Russomanno soou como Bolsonaro e disse que a Covid-19 “não dizimou ninguém”, nesta sexta (23), em entrevista à rádio Eldorado, ele discordou do presidente ao defender que a vacina chinesa Sinovac deve ser adotada se tiver a comprovação científica.

Disse ainda, à revista Veja, que concorda com seu padrinho em algumas coisas, mas em outras tem opinião própria. Apesar de minimizar a pandemia, Russomanno tem dito que não é negacionista.

Logo após as entrevistas, num sinal de que Bolsonaro segue como fiador do candidato, Wajngarten participou de um almoço de Russomanno com cerca de 40 empresários. A ideia é acenar também para a classe A.

A coordenação política da campanha também foi reforçada com uma reunião, na terça, de 11 deputados estaduais do Republicanos, PTB e PSL, que se comprometeram a fazer campanha em suas bases e sair às ruas em busca de votos.

Enquanto Bolsonaro e Doria rivalizam na questão da vacina, Russomanno volta seus ataques nas redes ao governador e a Covas. Sua campanha foi abraçada pelo Planalto na tentativa de frear as ambições presidenciais de Doria para 2022.

Ao contrário de Russomanno, Covas ainda não assumiu o padrinho no horário eleitoral –Doria é rejeitado por 39% dos paulistanos. Membros da campanha afirmam que o governador já gravou peças e que será mostrado para exaltar parcerias em obras e convênios.

Os tucanos esperam que a rejeição a Covas não suba, pois avaliam que ele já está mais do que associado a Doria na visão do eleitor.

Sua propaganda que mira realizações, superação do câncer e exalta o avô Mário Covas fez sua rejeição cair de 31% para 25%, mas a intenção de votos subiu apenas de 20% para 23%, o que foi comemorado por adversários.

Tucanos avaliam que a campanha agora deve ser neutra e apenas no segundo turno se moldar conforme o oponente, que não necessariamente será Russomanno. Já Mouco vê seu candidato no segundo turno contra o PSDB e, nessa segunda etapa, planeja criar o que chama de “frente de libertação” contra "Bruno-Doria".

Nas campanhas de Boulos, França e Jilmar Tatto (PT), a queda de Russomanno foi vista como uma abertura de espaço para crescimento. Os dois primeiros estão empatados na margem de erro em terceiro lugar com 14% e 10%. Com 4%, o petista empata em quarto lugar com Arthur do Val (Patriota).

Boulos manterá a estratégia de se associar à figura da vice, Luiza Erundina (PSOL), e conta com o aumento de exposição para se tornar mais conhecido (57% o conhecem) e conseguir avançar entre o eleitorado de periferia, onde está em desvantagem na comparação com Tatto.

Boulos já vê o rival na esquerda se aproximar em alguns estratos, como o dos eleitores que se declaram petistas. Nesse grupo, o representante do PSOL tem 23%, enquanto o do PT alcança 20%.

No entorno de França, a avaliação é a de que os próximos dias podem ser decisivos, com a consolidação dos efeitos da campanha de TV, na qual o candidato tem a vantagem de possuir o segundo maior tempo.

Conhecido por 79% do eleitorado, ele passou a explorar nos comerciais a informação de que foi governador do estado, o que aumenta sua chance de voto segundo pesquisas internas.

O PT, que viu Tatto passar de 1% para 4%, esperava um crescimento maior. Membros da campanha avaliam, porém, que a mobilização nas ruas e nas redes e o horário de TV começaram há poucos dias e, por isso, a subida ainda virá. Um prejuízo com voto útil a Boulos é descartado neste momento.

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