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Eleições 2020 datafolha

Ambiente volátil joga definições da disputa eleitoral para os momentos finais, indica Datafolha

Três das quatro cidades monitoradas pelo instituto projetam incertezas quanto aos resultados das eleições municipais

Alessandro Janoni

Diretor de Pesquisas do Datafolha

Com quase um terço dos eleitores cogitando mudar o voto até 15 de novembro, três das quatro cidades monitoradas pelo Datafolha projetam incertezas quanto aos resultados das eleições municipais.

Com exceção de Belo Horizonte, onde, caso não aconteça algo muito grave, Alexandre Kalil (PSD) deve se reeleger no primeiro turno, as demais —São Paulo, Rio de Janeiro e Recife— apresentam quadros de indefinição que devem perdurar até o pleito.

Na capital mineira, mesmo se todos os que acenam com a possibilidade de abandonar o prefeito de fato o fizessem, ele ainda teria a maioria dos votos válidos. Apesar da variável de cristalização do voto estar sujeita a mudanças da opinião pública, eleições anteriores revelam que o fenômeno é bastante improvável em espaço de tempo tão curto.

A história mostra também que taxas elevadas de volatilidade, como as observadas nas outras praças, podem significar potencial de variações.

Em São Paulo, em 2016, por exemplo, em período equivalente, 34% descartavam fidelidade ao candidato que citavam na pesquisa. Naquela eleição, João Doria (PSDB) foi o mais beneficiado e cresceu oito pontos até a véspera, numa evolução que continuou até o dia do pleito, conquistado no primeiro turno.

Hoje, na capital paulista, 32% dos que citam uma opção dizem que podem mudar de ideia e o atual prefeito Bruno Covas (PSDB) tem um percentual de apoio numericamente superior ao de Doria há quatro anos.

Como o tucano é um dos mais citados como segunda opção de voto, não há como descartar a continuidade de sua ascensão. No entanto, a baixa taxa de entrevistados que pretendem votar em branco, anular o voto ou que se mostram indecisos não permite projetar grande probabilidade de vitória no primeiro turno, apesar de a hipótese existir.

O prefeito cresceu nove pontos percentuais em 15 dias, especialmente em segmentos mais atingidos pela pandemia —mulheres, menos escolarizados e pessoas de menor renda familiar, perfis com alta participação na composição do eleitorado.

O dado corrobora a tese de que a campanha de Covas tem conseguido converter sua aprovação no combate à Covid em intenções de voto, ao herdar a maior parte dos eleitores que abandonam Celso Russomanno (Republicanos).

O apoio do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) ao deputado reforça o contraste de discursos diante da doença, e pode gerar ruído para sua candidatura. Em um dos epicentros da pandemia no país, onde o auxílio emergencial, comparativamente, não tem o mesmo apelo de onde ele figura como única fonte de renda, a “guerra das vacinas” na capital pode pesar mais.

Russomanno fica pela primeira vez numericamente atrás de Guilherme Boulos (PSOL), que, por sua atuação nas redes sociais, intensifica a liderança em estratos mais jovens e escolarizados, que, apesar de serem segmentos de baixa participação no eleitorado, mostram-se suficientes para que o candidato do PSOL tenha pequena vantagem na disputa pelo segundo lugar.

A migração de votos entre simpatizantes do PT para Boulos (nove pontos percentuais em uma semana) sugere prática de voto útil de tendência à esquerda diante da dificuldade de evolução da candidatura de Jilmar Tatto (PT). Interessante notar que, mesmo nesse estrato, historicamente anti-tucano, Covas tem bom desempenho e aparece empatado com o candidato do PSOL, ambos acima do petista.

Boulos já consegue, com seu índice de apoio, performance equivalente à do ex-prefeito Fernando Haddad (PT) nas urnas em 2016 —o petista ficou com 14% do total de votos na última eleição. Para passar para o segundo turno, precisa alcançar estratos de maior peso no eleitorado e buscar frear a migração de eleitores de Russomanno e França para Covas, segmentos onde o prefeito se destaca como segunda opção.

No Rio de Janeiro, a situação é parecida —liderança de Eduardo Paes (DEM) com 34% das intenções de voto e a disputa pelo segundo lugar indefinida entre o prefeito Marcello Crivella (Republicanos), delegada Martha Rocha (PDT) e Benedita da Silva (PT).

As oscilações positivas de Paes, apesar de não tão expressivas como as de Covas em São Paulo, garantem ao ex-prefeito do Rio uma taxa de votos válidos maior do que a do tucano na capital paulista (41% contra 36% do tucano). Isso porque no Rio o índice dos que não têm candidato é sete pontos superior à verificada em São Paulo (17% contra 10%).

Nesta pesquisa, Paes oscila positivamente em segmentos do eleitorado onde Martha Rocha variou negativamente, como entre os homens e os de menor renda. Benedita da Silva cresce entre os jovens, estrato onde Crivella (Republicanos) perde apoio. A resiliência do atual prefeito mantém correlação com o segmento evangélico, onde alcança 30% das intenções de voto.

No Recife, oscilações dentro da margem de erro mantêm o quadro inalterado. João Campos (PSB) continua na liderança com o apoio de cerca de um terço do eleitorado, e a disputa pelo segundo lugar ainda está incerta, entre Marília Arraes (PT) e Mendonça Filho (DEM).

Campos perde apoio entre mais jovens, segmento onde Marília cresceu 14 pontos percentuais na última semana. Uma variação positiva de Mendonça Filho entre os de menor renda garante sua vantagem numérica sobre a outra candidata da oposição, delegada Patrícia Domingos (Podemos) que, ao conseguir a declaração de apoio do presidente Jair Bolsonaro, oscila positivamente entre os homens, mas vê sua rejeição aumentar ainda mais entre as mulheres.

Na última semana, a eleição americana ofuscou a cobertura das disputas municipais nas grandes cidades brasileiras, o que retarda ainda mais a decisão do eleitor e joga para os últimos lances a definição da corrida.

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