Descrição de chapéu Eleições 2020

Bolsonaro é jogado no 2º turno de SP, e Covas e Boulos se ajeitam com aliados incômodos

Tucano diz que apoio de Russomanno ajuda, e candidato do PSOL soma Ciro e Marina a frente que já tem Lula

São Paulo

Após a derrota de seu candidato no primeiro turno da eleição para a Prefeitura de São Paulo, o presidente Jair Bolsonaro ganhou espaço nesta quarta-feira (18) em falas de Bruno Covas (PSDB) e Guilherme Boulos (PSOL), que disputam o segundo turno.

O tucano, que busca a reeleição, tentou se desvincular do presidente após receber apoio de Celso Russomanno (Republicanos), que teve Bolsonaro como garoto-propaganda e terminou em quarto lugar. O titular do Planalto é adversário do governador João Doria (PSDB), avalista de Covas.

O líder de movimentos de moradia, por sua vez, usou a aliança para atacar o rival, dizendo que a parceria entre Covas e Russomanno é uma repetição da dobradinha "BolsoDoria", usada pelo governador na eleição estadual de 2018.

O candidato Guilherme Boulos (PSOL) faz caminhada pelo centro acompanhado de Jilmar Tatto (PT) e Orlando Silva (PC do B) - Foto Marlene Bergamo/Folhapress

Ao mesmo tempo em que ataca o aliado do tucano, Boulos vem sendo questionado por apoios que conquistou no segundo turno, sobretudo o do ex-presidente Lula (PT). Nesta quarta, sua campanha também recebeu as adesões do PDT e da Rede Sustentabilidade.

Em ato de campanha no Jardim Ângela (zona sul), Covas reagiu às críticas de que estaria se aproximando de Bolsonaro. Nos últimos dias, fotos dele ao lado do presidente circularam em redes sociais difundidas por apoiadores de Boulos.

As imagens têm sido usadas para desconstruir a imagem de moderado que Covas busca vender. Já a campanha do PSDB tenta colar no candidato do PSOL a pecha de radical, explorando sua atuação em movimentos sociais e a relação com Lula.

"Não sou biruta de aeroporto para mudar conforme a orientação de vento", disse o tucano. "Sou o mesmo Bruno fora da campanha, no primeiro turno, no segundo turno. Anulei meu voto na eleição presidencial de 2018 por não ver no Bolsonaro nenhum discurso que agregasse valores democráticos na campanha dele."

Covas afirmou ter se posicionado contra ações do presidente em vários momentos, como quando disse que vetaria mudanças em livros didáticos que significassem revisionismo da ditadura militar no Brasil (1964-1985).

Bruno Covas (PSDB) durante visita ao comércio do Jardim Ranieri, na zona sul - Zanone Fraissat/Folhapress

Russomanno, que fez duras críticas à gestão Covas durante o primeiro turno e chegou a fazer uma insinuação sobre a saúde do prefeito, que tem câncer, chegou a ser cogitado para a vaga de vice do postulante à reeleição, mas decidiu lançar candidatura após o incentivo de Bolsonaro.

"O apoio do Russomanno ajuda, não há a menor dúvida. Dele e do Republicanos. Ele teve 10% dos votos aqui", declarou Covas, negando desconforto. "Não há nenhum problema em agregar apoios nesse segundo turno."

O tucano também se envolveu em uma discussão no Twitter com o youtuber Felipe Neto, na terça-feira (17), para rechaçar o rótulo de bolsonarista sugerido pelo influenciador digital em uma publicação.

"Admiro seu trabalho, mas acho que você não conhece minha trajetória. Não votei no Bolsonaro. Convido você a conhecer meu programa de governo para ver nossas propostas que priorizam o combate às desigualdades, o respeito à diversidade e a defesa dos direitos humanos", escreveu o prefeito.

Felipe Neto, que mora no Rio de Janeiro e declarou apoio a Boulos, rebateu: "Pra cima de mim, Covas? Você e Doria podem dar as mãos e desaparecer da política brasileira. Não farão absolutamente nenhuma falta".

Boulos, em caminhada com apoiadores no centro, disse que a adesão de Russomanno à campanha do PSDB "não foi nenhuma surpresa". Opositor do governo federal, ele tem repetido a narrativa de que a derrota do bolsonarismo começará por São Paulo, com sua vitória.

"É o BolsoDoria versão 2020. Essa aliança, em que estavam um pouco separados por projetos eleitorais e questões pessoais, se refez. O Bruno Covas é o João Doria, e o Russomanno é o Bolsonaro, deixou isso muito claro no primeiro turno", discursou. Em um carro de som, falou que os dois lados "se merecem".

O candidato estava acompanhado de dois candidatos derrotados no primeiro turno que agora o apoiam, Jilmar Tatto (PT) e Orlando Silva (PC do B). Ambos também fizeram ataques aos governos Bolsonaro, Doria e Covas.

Além dos dois partidos, o PSOL, que trabalha pela formação de uma frente de esquerda, obteve nesta quarta a declaração de apoio dos diretórios municipais do PDT, partido que compôs a coligação de Márcio França (PSB), e da Rede, que lançou a candidatura a prefeita da deputada estadual Marina Helou.

O presidente nacional do PSOL, Juliano Medeiros, selou a parceria com o PDT em encontro na capital com Antonio Neto, que foi vice de França.

O representante do PSB deve anunciar nesta quinta-feira (19) seu posicionamento. A direção nacional da legenda impõe obstáculos à dobradinha com o PSOL em São Paulo, mas o deixou livre para resolver. França disse à Folha que só se decidirá após ouvir os dirigentes e governadores da sigla.

A adesão de mais líderes nacionais também é esperada. O ex-presidenciável Ciro Gomes (PDT) já disse que apoia Boulos, mas aguarda um posicionamento do PSB, do qual é aliado, para oficializar o embarque.

A ex-presidenciável Marina Silva (Rede), endossou nas redes sociais o apoio de seu partido ao candidato, mencionando valores como democracia e combate à desigualdade.

A estratégia do PSOL é dar um peso semelhante a todos os endossos, para evitar que Boulos seja prejudicado eleitoralmente por algum dos apoiadores, sobretudo Lula. A campanha do PSDB já utiliza sua amizade com o ex-presidente para desgastá-lo e sugerir que o PT voltará ao poder caso ele vença.

"Eu não escondo nenhum tipo de apoiador, nenhum tipo de aliado", disse Boulos em sabatina do jornal O Estado de S. Paulo.

Segundo pesquisa Datafolha de outubro, 54% dos paulistanos disseram não votar em um candidato apoiado pelo petista.

Boulos fez críticas ao governo Lula durante sua gestão, mas os dois se aproximaram sobretudo nas mobilizações contra a prisão do ex-presidente, em 2018. O petista colocou o líder do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto) no palanque, com mais destaque até do que alguns de seus correligionários.

Lula encorajou o partido a tentar convencer Tatto a abrir mão de sua candidatura em favor de Boulos, que aparecia mais competitivo. O ex-presidente, no domingo (15), responsabilizou Tatto pela decisão de manter a candidatura, o que foi visto como gesto de ingratidão.

Com o PDT entre os participantes da frente, Boulos terá que engolir as críticas que fez ao líder mais expressivo da legenda, Ciro Gomes. Após a eleição de 2018, derrotado nas urnas, ele viajou para a Europa e não fez campanha para Fernando Haddad (PT) contra Bolsonaro.

“Não existe neutralidade diante do horror. Neutralidade diante do horror é cumplicidade”, disse Boulos em entrevista à Jovem Pan na época.

O eventual apoio de Márcio França também tem potencial para causar saia justa, já que, ao longo do primeiro turno, o representante do PSOL buscou pintar o ex-governador como alguém de direita, lembrando o fato de ele ter sido vice de Geraldo Alckmin (PSDB) no Palácio dos Bandeirantes.

Outro apoio que pode trazer problemas para Boulos está na coligação com o PCB (Partido Comunista Brasileiro) e UP (Unidade Popular). Na briga contra Covas, ele vem tentando desconstruir a imagem de extremista, mas as agremiações aliadas se assumem como radicais e defendem pautas de uma revolução socialista.

Do lado de Covas, o cabo eleitoral mais incômodo é Doria. O candidato à reeleição só virou prefeito porque entrou em uma chapa como vice de Doria, que, pouco mais de um ano depois, renunciou ao cargo depois de eleito para disputar a eleição para governador.

Segundo pesquisa Datafolha, 39% dos paulistanos rejeitam o governador. Por isso, Covas escondeu o padrinho político durante todo o primeiro turno.

Os adversários se aproveitaram disso e tentaram em debates e entrevistas associar as duas figuras, com direito a chamar o candidato de "BrunoDoria".

Covas se defendia dizendo que Doria não poderia largar a funções de governador para entrar na campanha. Sua equipe afirmava ainda que a imagem dos dois já é suficientemente ligada, com o prefeito participando de coletivas todas as semanas na sede do governo.

Em resposta às críticas por ter escondido o padrinho, entretanto, Covas fez o primeiro discurso após o resultado de domingo ao lado de Doria.

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LIGAÇÕES INCÔMODAS

BRUNO COVAS

  • JOÃO DORIA
  • Padrinho político, Covas foi seu vice
  • Tem alta rejeição depois que abandonou a prefeitura; 60% dos moradores de SP não votariam em candidato apoiado por ele
  • Foi apagado da propaganda eleitoral no 1º turno
  • JAIR BOLSONARO
  • Covas postou fotos nas redes com o presidente
  • Doria, seu padrinho político, foi eleito com ‘BolsoDoria’
  • Prefeito hoje diz fazer oposição ao presidente e afirma que votou nulo em 2018
  • CELSO RUSSOMANNO
  • Candidato viu rejeição crescer, chegando a 49%
  • Russomanno fez críticas duras a Covas durante o primeiro turno para agradar a base bolsonarista
  • Partido dele, o Republicanos, tem membros suspeitos de ligação com o PCC e de irregularidades no poder público

GUILHERME BOULOS

  • LULA
  • Boulos e o petista ficaram próximos nos protestos contra a prisão do ex-presidente
  • Petista foi a favor de que Tatto desistisse da candidatura em favor de Boulos
  • 54% dos moradores de São Paulo não votariam em candidato apoiado por ele
  • PDT E CIRO GOMES
  • Apoiou Márcio França (PDB), que foi vice de Alckmin (PSDB) e acenou para Bolsonaro
  • Boulos chamou Ciro de conivente com Bolsonaro por não embarcar na campanha de Haddad em 2018
  • Ciro e Lula rivalizam a respeito de unidade da esquerda e hegemonia petista
  • PCB e UP
  • Fazem parte da coligação do PSOL
  • Se dizem radicais, título do qual Boulos tenta se desvencilhar
  • Defendem pautas de uma revolução socialista, como controle dos meios de produção de setores estratégicos

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