Frente contra bolsonaristas avança em Fortaleza e no Rio, mas empaca em Belém

Candidatos com apoio público do presidente Bolsonaro ficam isolados no segundo turno

Salvador

A construção de frentes amplas para enfrentar candidatos ligados ao presidente Jair Bolsonaro no segundo turno das eleições municipais avançou em capitais como Fortaleza e Rio de Janeiro, mas empacou em Belém.

Nestas três capitais, o segundo turno terá candidatos apoiados publicamente por Bolsonaro. Os candidatos Marcelo Crivella (Republicanos), no Rio, e Capitão Wagner (Pros), em Fortaleza, receberam o apoio do presidente ainda no primeiro turno.

Nesta semana, Bolsonaro estendeu seu apoio ao candidato Eguchi (Patriota), delegado da Polícia Federal que superou nomes tradicionais da política paraense e também chegou à fase final da disputa.

Eduardo Paes após votar no primeiro turno, no Rio de Janeiro - Sergio Moraes - 15.nov.2020/Reuters

As alianças e apoios críticos foram anunciados no segundo turno em algumas capitais com o objetivo frear candidaturas alinhadas a Bolsonaro, sobretudo dos candidatos que adotam um perfil antipolítica.

Em Fortaleza, a segunda etapa da eleição vai opor Capitão Wagner a José Sarto (PDT), candidato apoiado pelo prefeito Roberto Cláudio (PDT), pelo governador Camilo Santana (PT) e pelos irmãos Cid e Ciro Gomes (PDT).

Disputando a prefeitura da capital cearense pela segunda vez seguida, Wagner é deputado federal e ficou conhecido por liderar um motim de policiais no estado.

Na campanha, apesar de ter recebido o apoio de Bolsonaro, o candidato do Pros tem evitado associar sua candidatura ao presidente.

No primeiro turno, Wagner teve o apoio de nove partidos, incluindo legendas do campo conservador como o Podemos e o PSC. Desde o último domingo (15), contudo, não conseguiu ampliar o seu arco de alianças.

Nem mesmo o PSL, partido que cresceu no estado em 2018 impulsionado por Bolsonaro, endossou a candidatura de Capitão Wagner. O deputado federal Heitor Freire, que disputou o primeiro turno em Fortaleza e terminou em sétimo lugar, declarou neutralidade.

“Mantenho minha independência por não enxergar em nenhuma das candidaturas a defesa autêntica dos valores de direita e conservadores que acredito”, afirmou Freire em nota.

No caminho contrário, Sarto Nogueira (PDT) recebeu o apoio de todos os demais candidatos derrotados no primeiro turno, incluindo Luizianne Lins (PT), Heitor Férrer (Solidariedade) e Renato Roseno (PSOL).

Com isso, o candidato do PDT está agora amparado por um amplo arco de apoios que vai de partidos de centro-direita, como DEM ou PSDB, até partidos de esquerda, como PSOL e UP.

Ao anunciar seu apoio a Sarto, o candidato derrotado Célio Studart (PV) afirmou que não poderia se acovardar e deixar de se posicionar. “O outro projeto representa o avanço do bolsonarismo. Bolsonaro ganhar em Fortaleza é fazer daqui um palanque para sua reeleição.”

No Rio, o presidente apoia o prefeito e candidato à reeleição Marcelo Crivella, bispo licenciado da Igreja Universal. Ele enfrentará nas urnas no próximo dia 29 o ex-prefeito Eduardo Paes (DEM).

Neste segundio turno turno, Crivella não teve sua candidatura endossada por nenhum partido na primeira etapa do pleito. Paes obteve o apoio crítico do PT de Benedita da Silva e do PSOL de Renata Souza.

O candidato derrotado Paulo Messina (MDB) não apoiou Paes, mas recomendou voto contra Crivella. O PSB foi na mesma linha.

“No Rio, o importante agora é derrotar Crivella: além de ser o pior prefeito que o Rio já teve, é o candidato de Bolsonaro. Primeiro turno é voto, segundo turno é veto: Crivella não”, afirmou o deputado federal Alessandro Molon (PSB).

O PDT, que disputou o segundo turno com a Delegada Martha Rocha, anunciou neutralidade. O presidente do partido, Carlos Lupi, justificou a decisão alegando que não apoiaria o “fundamentalismo religioso” de Crivella nem o “desrespeito e o jogo baixo” de Paes.

O candidato Luiz Lima (PSL), cuja campanha no primeiro turno atraiu uma parcela dos eleitores bolsonaristas, também declarou neutralidade.

Em Belém, onde o segundo turno vai opor o ex-prefeito e deputado federal Edmílson Rodrigues (PSOL) e o Delegado Eguchi (Patriota), a tentativa de formar uma frente ampla contra o candidato bolsonarista não tem surtido resultado.

Eguchi foi uma das principais surpresas no primeiro turno nas capitais. Disputando sua primeira eleição para um cargo do Executivo e com pouco tempo de TV, ele conseguiu superar adversários como José Priante (MDB) e Thiago Araújo (Cidadania).

Neste segundo turno, o terceiro colocado Priante declarou neutralidade. Já Thiago Araújo, apoiado prefeito Zenaldo Coutinho (PSDB), não se posicionou.

Eguchi segue linha parecida com a de Bolsonaro em 2018. Na campanha, prometeu uma gestão “sem viés ideológico”, um secretariado composto por técnicos, disse não fazer parte da “velha política” e tem como principal bandeira o combate à corrupção.

Edmilson, que foi prefeito da capital paraenses entre 1997 e 2004, quando era do PT, tem destacado sua experiência e reiterado um discurso de que a cidade não deve embarcar em uma aventura.

Com o apoio de partidos como o PT e PDT desde o primeiro turno, ele dever receber o apoio do PSB, mas ainda não conseguiu um respaldo de partidos ou candidatos derrotados do campo da centro-direita.

Em outras duas capitais, Vitória e Cuiabá, o segundo turno tem candidatos alinhados com as ideias de Bolsonaro, mas que não receberam uma sinalização pública de apoio do presidente.

Na capital capixaba, o deputado estadual Delegado Pazolini (Republicanos), surpreendeu os favoritos e disputa o segundo turno contra o ex-prefeito João Coser (PT).

“É uma campanha com dois candidatos de perfis que são inconfundíveis em seu histórico e na formação política. Estou otimista”, afirma Coser, que terminou o primeiro turno com 21,8%, contra 30,9% de Pazolini.

De perfil moderado, Coser recebeu o apoio do PSOL e do PC do B, e negocia o apoio do PSB do governador do Espírito Santo, Renato Casagrande. O Cidadania, partido do prefeito Luciano Rezende, ainda não sinalizou quem apoiará.

Pazolini ganhou notoriedade na defesa de pautas de costumes e ficou conhecido ao entrar em um hospital para tratamento de Covid-19 um dia depois de Bolsonaro ter estimulado a população a filmar oferta de leitos.

Na campanha, contudo, tem buscado se mostrar ponderado e procurou não se associar ao presidente. Neste segundo turno, recebeu o apoio da candidata derrotada Neuzinha de Oliveira (PSDB).

Em Cuiabá, o candidato bolsonarista Abílio Júnior (Podemos) enfrenta o prefeito Emanoel Pinheiro (MDB) e recebeu apoio do governador Mauro Mendes (DEM) e do ex-prefeito Roberto França (Patriota), que ficou em quarto colocado na disputa.

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