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Silveira é culpado útil para centrão mostrar poder na aliança com Bolsonaro

Enquanto presidente se cala sobre aliado, grupo aproveita e manda recado até para o Supremo

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São Paulo

A imolação de Daniel Silveira no altar do centrão foi o preço a pagar por Jair Bolsonaro para manter o arranjo de poder com o qual quer tentar se reeleger em 2022, mas mostra toda a fragilidade do arcabouço.

O deputado bolsonarista do PSL-RJ foi o culpado ideal. Fosse um deputado do PP ou do PL do Centro-Oeste o preso a ser mantido na cadeia, a discussão aqui estaria sendo feita sobre a enésima prova do corporativismo da Câmara dos Deputados por terem livrado a cara de mais um dos seus.

 O deputado Daniel Silveira, preso após publicar vídeo com ofensas a ministros do Supremo
O deputado Daniel Silveira, preso após publicar vídeo com ofensas a ministros do Supremo - Maryanna Oliveira 13.out.2020/Câmara dos Deputados

Deputados do centrão podem ser usualmente protagonistas de acusações cabeludas, mas não são primários como os bolsonaristas. Fosse feita uma enquete secreta, boa parte da Casa diria concordar com a essência dos comentários grotescos de Silveira, se não com a forma.

Não foi casual, assim, a colocação de advertências e linhas vermelhas para os ministros do Supremo no relatório encomendado à deputada Magda Moffato (PL-GO) —nem a desistência de Carlos Sampaio (PSDB-SP) de topar a pantomima.

Na véspera, dois presidentes de partidos do centrão afirmavam que seria necessário "dar um basta", aspas obrigatórias, ao que chama de "abusos da corte".

A Operação Lava Jato, outro calo no pé da maioria dos deputados, já foi morta e enterrada. Casos pontuais seguirão ocorrendo, mas o clima de tensão permanente desanuviou. Agora é a vez do Supremo, onde os malfeitos de parlamentares são apreciados.

Só que esse pessoal não sai por aí gravando vídeos aos quais possam ser imputados crimes. Silveira vira assim o mártir involuntário de uma causa que não é a do bolsonarismo radical, esse bastante enfraquecido no episódio, mas sim da genuflexão obrigatória do presidente ao poder do centrão.

Ao longo da grave crise do primeiro semestre de 2020, Bolsonaro flertou abertamente com o golpismo mais estridente dessa sua base de apoio —os tais 10% a 15% do eleitorado de núcleo duro, ideológico, que o segue.

Deu errado e ele refluiu para os braços do centrão, de cujas matas mais remotas emergiu. Naturalmente, é um processo que joga contra o DNA do presidente, que sempre busca o confronto institucional.

Não é o caso de apostar, portanto, em um cenário de expurgo do radicalismo do entorno presidencial, e sim de uma acomodação pouco estável.

É possível também argumentar que não há discernimento desses fiéis bolsonaristas acerca do que significa jogar Silveira aos leões, mas qualquer franja mais conservadora que apoie o presidente fora disso perceberá a contradição em termos.

Não parece ser isso, de todo modo, o maior problema de Bolsonaro. Ele teme ser impedido pelo desgoverno da pandemia, e quer ter uma base para chamar de sua na organização da eleição de 2022.

O fez de forma meio torta. Bolsonaro e seus lugares-tenentes tentam convencer seus interlocutores que foram eles que deram as vitórias a Arthur Lira (PP-AL) na Câmara e a Rodrigo Pacheco (DEM-MG) no Senado.

Houve, claro, as tradicionais liberações de verbas para emendas parlamentares. Mas o cerne da eleição no Congresso foi uma vitória das forças mais intestinas do Parlamento, que buscam adaptar-se a qualquer governo, desde que tendo seus desígnios servidos.

O caso Silveira provou-se educativo dessa lógica. O ultraje causado pelo bolsonarista foi enorme, servindo para o centrão tentar colocar de vez uma coleira nos elementos mais radicais do grupo. Se já estava difícil para pautas do grupo no Parlamento, agora o caldo entornou.

A Bolsonaro coube a resignação, assim como a seus vocais filhos. O vereador carioca Carlos até ensaiou um queixume na quarta-feira (17), mas calou-se.

Se isso mantém o centrão firmemente arraigado nas áreas conquistadas e a abocanhar do governo, também mostra que a fidelidade do grupo é aquela de um cão com fome. Se o provedor fraquejar, será devorado —Dilma Rousseff (PT) que o diga.

A tese era conhecida. O caso Silveira apenas a comprovou, com meras duas semanas e meia de exercício do poder do centrão na Câmara.

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