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COB saiu da velha política e pode evoluir mais, diz Paulo Wanderley

Candidato à reeleição tenta se equilibrar entre trunfos e desgastes do mandato

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São Paulo

Alçado à presidência do Comitê Olímpico Brasil (COB) em 2017, depois da prisão e renúncia de Carlos Arthur Nuzman, o ex-vice-presidente Paulo Wanderley Teixeira, 70, busca a reeleição com discurso parecido ao que adotou ao assumir a entidade.

O potiguar radicado no Espírito Santo concorre ao lado do seu atual vice, o ex-dirigente da confederação de triatlo Marco La Porta.

O pleito, primeiro com mais de uma chapa inscrita desde 1979, será realizado na próxima quarta-feira (7), em um hotel na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. O presidente da Confederação Brasileira de Tênis, Rafael Westrupp, e o da Confederação Brasileira de Pentatlo Moderno, Helio Meirelles, são os concorrentes.

Paulo Wanderley, atual presidente do COB, tenta se reeleger - Wander Roberto/COB

Ex-presidente da Confederação Brasileira de Judô, Paulo Wanderley buscou desde o início de sua gestão criar elementos que afastassem a presença incômoda de Nuzman da entidade e indicassem ruptura com o que chamou de "velha política". Para isso, demitiu aliados do ex-presidente e conduziu mudanças no estatuto do COB.

Uma delas ampliou de 1 para 12 o número de representantes da Comissão de Atletas nas assembleias da entidade. Outra alteração foi a de que uma chapa passou a precisar do aval de três confederações, não mais de dez, para ser inscrita no pleito.

"Quem escolher nossa chapa é porque considera que fizemos um bom trabalho nestes três anos e que temos condições de fazer o COB evoluir ainda mais", ele afirma em entrevista por email à Folha.

Curiosamente, uma nova tentativa de mexer no estatuto foi o principal fator para que a oposição à sua gestão se ampliasse entre atletas e algumas confederações.

No fim de 2019, Paulo Wanderley articulou uma assembleia-geral extraordinária, criticada por ter sido convocada às pressas e pelas mudanças propostas, que entre outras coisas enfraqueceriam o trabalho de apuração de denúncias pelo conselho de ética da entidade. Esses pontos acabaram barrados pelo colegiado, mas a desconfiança permaneceu.

Também vieram à tona suspeitas de fraude nas contratações de serviços de assistência médica e de tecnologia. Paulo Wanderley nega qualquer irregularidade.

Em meio à crise econômica e à paralisação do esporte pela pandemia, o COB recentemente colocou a mão no bolso para ajudar confederações, maior parte do colégio eleitoral. “Liberamos um total de R$ 6,8 milhões às 34 confederações esportivas que aceitaram receber recursos", diz o candidato.

Além dos 12 atletas, votam 35 representantes das confederações olímpicas, além dos dois integrantes brasileiros do Comitê Olímpico Internacional (COI) —o ex-jogador de vôlei Bernard Rajzman e Andrew Parsons, presidente do Comitê Paralímpico Internacional.

O pleito poderá ter até dois turnos para confirmar o vencedor, que precisará chegar à maioria dos 49 votos.

*

Quais sabores e dissabores a presidência do COB lhe proporcionou até aqui? Talvez o maior dissabor tenha sido ver interrompido o grande trabalho de preparação para os Jogos Olímpicos de Tóquio, por conta da pandemia. Por outro lado, no âmbito esportivo, o resultado obtido nos Jogos Pan-americanos de Lima, o melhor da história do esporte brasileiro, muito me orgulhou.

Antes de chegar ao COB, o senhor presidiu a confederação de judô por 16 anos. Acredita que os longos mandatos contribuem para o esporte? Em 16 anos, conquistamos 12 medalhas olímpicas, um recorde, e elevamos o judô à categoria das modalidades que mais geram pódios ao esporte brasileiro. Só em Mundiais, foram 30 medalhas, também um recorde. Do ponto de vista da gestão, a CBJ se tornou referência entre as confederações, conquistando a autossuficiência financeira.

Qual é a contribuição do Carlos Arthur Nuzman para o COB? Estamos escrevendo uma nova história do esporte olímpico brasileiro. É preciso olhar para frente.

Como é, hoje, a sua relação com Nuzman? Não temos qualquer tipo de relação, não nos falamos desde o seu afastamento do COB. Fui seu vice-presidente pelo trabalho que fiz à frente do judô, mas tive pouca participação em sua gestão.

Quando assumiu, o senhor disse que um dos objetivos era tirar o comitê da "velha política". Acredita que atingiu este objetivo? Acredito que sim. Como disse, é um momento histórico para o COB, de democracia. Torço para que as fake news e os ataques pessoais não proliferem e que haja uma séria e profunda discussão sobre projetos para o desenvolvimento do esporte nos próximos anos.

Como consegue se dissociar da velha política ao longo de 19 anos como dirigente? A “velha política” tem a ver com práticas, não com o tempo de permanência como presidente. Nunca abri mão de valores éticos e democráticos em minha trajetória. Não troco voto por cargo. Quem escolher nossa chapa é porque considera que fizemos um bom trabalho nestes três anos e que temos condições de fazer o COB evoluir ainda mais.

O COB, em 106 anos, teve oito presidentes. Não seria melhor fomentar a alternância de poder nas confederações? O fato de o COB realizar uma eleição para presidente depois de 40 anos é a prova de que os valores democráticos são fundamentais para mim. Não fosse assim, continuariam as amarras para que alguém pudesse se candidatar. Antes, uma chapa só era inscrita com quase um terço do colégio eleitoral. Hoje, são necessárias três assinaturas entre 49 eleitores. Acho saudável a troca de gestores, como também acho que bons gestores devem seguir. O esporte, por sua natureza, requer planejamento a longo prazo para que os resultados sejam visíveis.

Antes da crise pelo coronavírus, algumas modalidades já sofriam com a falta de recursos. Como o COB deve ajudar essas entidades? O COB não fugiu de sua responsabilidade de fomentar o esporte brasileiro durante a crise. Liberamos um total de R$ 6,8 milhões às 34 confederações esportivas que aceitaram receber recursos. O valor tinha que ser utilizado para a manutenção das atividades e era vedado para pagar salários de dirigentes, por exemplo. Viabilizamos a Missão Europa, em Portugal, para que os atletas não fossem prejudicados. Mas é evidente que o COB não é imune à crise econômica que atinge o Brasil mesmo antes da epidemia. Estamos conversando com o mercado para buscar alternativas, mas é fato que houve retração.

Essa é a primeira corrida eleitoral do COB em mais de 40 anos e teve muitos embates entre os concorrentes. Isso poderá tornar a relação entre o COB e as demais confederações conflituosa após o pleito? Não acredito nisso. Será uma relação baseada no respeito e na isonomia, independentemente de votos e do processo político. O esporte precisa dar exemplo e não seguir os erros cometidos nos embates da política brasileira.

O esporte deixou de ser ministério, no governo de Jair Bolsonaro, e passou a ser uma secretaria subordinada ao Ministério da Cidadania. Houve corte de investimentos e manobra no pagamento do Bolsa Atleta. É um governo que coloca em risco o futuro dos esportes olímpicos? A nossa preocupação é a mesma de todos os setores do esporte, e por isso temos buscado o diálogo com o governo federal, relatando os problemas que julgamos impactantes no sistema esportivo e apresentando soluções. A secretaria tem sido sensível a essas questões.

Paulo Wanderley e o seu vice Marco La Porta buscam reeleição no COB - COB/Divulgação

PAULO WANDERLEY

Paulo Wanderley Teixeira, também chamado de PW, 70, nasceu na cidade de Caicó (RN) e ainda criança se mudou com a família para Vitória, capital do Espírito Santo, onde começou a treinar judô. Graduado em educação física, foi técnico da seleção brasileira e de Rogério Sampaio na conquista do ouro nos Jogos de Barcelona-1992. Presidiu a federação de judô do Espírito Santo e, por 16 anos, a Confederação Brasileira da modalidade (2001 até 2017). Em outubro de 2016, assumiu a vice-presidência do COB. Um ano depois, com a prisão e a renúncia de Nuzman, foi empossado presidente do comitê

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