Descrição de chapéu Festival Fartura

Ex-marinheiro comanda restaurante no Rio onde o cliente paga o que quiser

Criado no Andaraí, o chef João Diamante também tem projeto social que ensina gastronomia cidadã

Ivan Finotti
Rio de Janeiro

É uma casa muito engraçada, só tem cozinha, não tem mais nada. Mas a ideia do chef João Diamante, 28, é essa mesma: receber convidados na cozinha de uma casa brasileira, no Rio. 

A ideia deu tão certo que, após três meses de funcionamento, o Na Minha Casa ostenta o primeiríssimo lugar entre os mais de 13 mil restaurantes da cidade, segundo a lista do site de viagens e gastronomia TripAdvisor (são 125 resenhas até agora, sendo que 122 delas deram cinco estrelas para o local).

A receita para esse sucesso tem diversos ingredientes:

1) O pequeno restaurante tem uma grande mesa compartilhada que acomoda 12 pessoas e serve até 25, em minimesas laterais;

2) Cada um paga o que quiser, apesar de uma lousa trazer um preço sugerido para o café da manhã (R$ 30) de bolos, pães, geleias, ovos, café coado na mesa etc., e para o almoço (R$ 58), com entrada e sobremesa;

3) Quanto às bebidas, a mesma coisa: vinho, cerveja, suco, café e até a dose de uísque têm preços sugeridos, mas o cliente decide o valor final;

4) João Diamante recebe e abraça cada cliente, para depois contar um pouco da história de sua vida e do seu restaurante para o grupo;

5) Os pratos são, segundo ele, contemporâneos e de todo o mundo, mas com ingredientes brasileiros.
“Chamar isso aqui de restaurante é até falta de respeito”, diz Diamante. “Mas é algo que nunca tive em casa, pois minha mãe sempre saía para trabalhar cedo.”

É uma comida confortável, digamos assim: lasanha com queijo do Araxá, ossobuco com polenta e agrião e por aí vai. Rabada ou feijoada aparecem de vez em quando. Não há um cardápio fixo, mas a lousa indica: “Quer saber o que tem pra comer? Pergunte!”. Diamante sempre quer saber se a pessoa tem restrições alimentares e dá um jeito para que ninguém passe fome.

O Na Minha Casa funciona em uma sobreloja no Mercado Municipal do Rio, mais conhecido como Cadeg (Centro de Abastecimento do Estado da Guanabara), em Benfica, zona norte da cidade, próximo ao estádio do Maracanã.

Lá dentro, é difícil encontrar o restaurante de João Diamante. Não há placa, apenas uma lousa em frente a uma loja de utensílios domésticos chamada Espaço Maranguape, na rua 15 do Mercadão.

Mas é ali mesmo, basta entrar e subir os degraus para o segundo andar. Atenção com os horários, pois, além de não servir jantar, o restaurante-cozinha funciona apenas de sexta a domingo, das 8h às 17h, sendo que o café da manhã vai até as 11h, o almoço até as 15h e depois há drinques e petiscos.

Para o Festival Fartura, onde estará no Espaço Chefs e Restaurantes, Diamante bolou, a exemplo do que serve no Na Minha Casa, uma mistura de técnica de outro país com matéria-prima nacional: serão duas tortillas de milho, uma recheada com ragu de frango, vinagrete de quiabo e creme de milho, e a segunda com caponata de berinjela, abobrinha, pimentão e cogumelos paris.

“São tacos nordestinos”, diz ele, que chegou ao Rio vindo de Salvador, na Bahia, com menos de um ano de idade, no colo da mãe. Foram morar na comunidade Nova Divineia, na zona norte do Rio, e lá vivem até hoje.

Ela trabalhou como empregada doméstica e ele, aos 7, fazia pão escondido na padaria próxima para arrumar uns trocados. 

Vendeu cloro, bolo, cuidou de piscina, teve dois PlayStations e duas televisões que alugava por hora, montou uma equipe para fazer som em eventos e, ao completar 18, se alistou na Marinha. “Era o sonho de minha mãe.”

Foi ali que começou a cozinhar, inicialmente no “ranchão”, para 9.000 recrutas. 

Diamante fazia questão de melhorar o que podia: “Colocava gelo na jacuba, por exemplo”, diz, referindo-se à forma como os marinheiros chamam um recipiente de suco. Ou anexava alho e cebola ao feijão insosso. “Quando o João está no ranchão, a comida fica diferente”, comentavam.

Logo estava cozinhando para oficiais na Praça D’Armas, que tinham mesa com toalhas, taças, garçom, tudo como um restaurante. “Aprendi etiqueta, como falar, o tom da música, a regulagem certa do ar-condicionado”, lembra. 

Daí para o almirante, foi apenas um pulo. “O pessoal me chamava de ‘chaleira’, que é puxa-saco na Marinha. Mas não era isso: era a profissão do futuro!”, orgulha-se.

E o almirante queria mais: mandou Diamante passar três meses na cozinha do Iate Club do Rio de Janeiro, na Urca. Depois, que ele fizesse faculdade. Na época, a Estácio de Sá tinha uma parceria com o chef francês Alain Ducasse para um curso gastronômico. Ficou entre os três primeiros e foi escolhido para ir a Paris. Olha lá o marinheiro João cozinhando no restaurante do segundo andar da Torre Eiffel.

Nessa parte da história, escorrem lágrimas dos olhos de Diamante, e ele balbucia algo como “um menino da favela na torre Eiffel...”.

O restaurante era o Le Jules Verne, que foi comandado por Ducasse até o ano passado. O brasileiro, sem falar francês, despertou a curiosidade do chef, que lhe ofereceu ficar para trabalhar em sua equipe. Mas Diamante não aceitou.

Há três anos, ele voltou. “Eu queria retribuir. Ainda na França, escrevi o projeto social Diamantes na Cozinha, para ensinar desde o plantio de alimentos até o serviço à mesa.” O programa atende 25 jovens por semestre e é gratuito, mas é preciso ter 18 anos para participar.

Além disso, anuncia um endereço e uma nova fornada de pães pelo Instagram (@boulangeRUA) e vai para a zona sul vender a produção, que divide com o parceiro Sandro Fernandes.

Agora é capaz que João Diamante comece a ficar conhecido fora do Rio de Janeiro: no dia 8 de agosto, ele deve estrear na nova temporada do Cozinheiros em Ação, programa gastronômico no canal pago GNT.

Trata-se de uma competição que busca o melhor cozinheiro de comida caseira, com duplas de parentes que vêm de diversas partes do país para participar. 

Se for assim, vai ser ainda mais difícil conseguir algum dos parcos lugares daquela casa engraçada, que só tem cozinha, não tem mais nada.

Festival Fartura – Comidas do Brasil São Paulo
Sábado (3), das 12h às 22h, e domingo (4), das 12h às 20h, no Jockey Club São Paulo (av. Lineu de Paula Machado, 1.263, Cidade Jardim). R$ 25 (inteira) e R$ 12 (meia), no primeiro lote. Informações e venda de ingressos: farturabrasil.com.br/blog-festivais/fartura-sao-paulo

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