Descrição de chapéu São Paulo

Mulheres não chegam a 5% nos conselhos dos grandes clubes de SP

Com baixa presença feminina na política, três agremiações terão eleições neste ano

São Paulo

O número de mulheres que integram conselhos deliberativos e participam das tomadas de decisões políticas dos grandes clubes de futebol de São Paulo escancara quão pouco inclusivo é o ambiente da administração esportiva.

Em um país no qual 51,8% da população é do sexo feminino, os 15% de deputadas e senadoras no Congresso Federal já são discrepantes em termos de representatividade. No futebol, a presença das conselheiras não chega a 5% nos quatro principais clubes paulistas.

Segundo levantamento da Folha, só 4 das atuais 222 cadeiras do principal órgão tomador de decisões do São Paulo são ocupadas por sócias (1,8%). No Santos, há seis mulheres (pouco mais de 2%) dentre os seus quase 300 conselheiros. O Corinthians é quem mais tem conselheiras: 16 entre 333 (4,8%).

Esses três clubes terão eleições para presidente e conselho neste ano. Já no Palmeiras, cuja próxima votação está marcada para 2021, são 6 mulheres (2,1%).

No Santos e no Corinthians, sócios podem votar diretamente para a presidência (desde que cumpram requisitos de adimplência e tempo de associação). No São Paulo, eles elegem os conselheiros, que por sua vez decidem o mandatário.

O levantamento foi feito com base nas listas de integrantes do Conselho Deliberativo divulgada pelas entidades em seus sites.

Até hoje, o cargo de presidente só foi ocupado em uma única oportunidade por uma mulher nessas instituições —Marlene Matheus (1936-2019), no Parque São Jorge.

Eleita em 1991, ela ocupou o posto até 1993, depois de seu marido, Vicente Matheus, presidir o Corinthians por 18 anos. Marlene não conseguiu se candidatar à reeleição após uma mudança no estatuto e foi sucedida por Alberto Dualib.

No Palmeiras, a conselheira Leila Pereira, que está à frente da Crefisa e da FAM, principais patrocinadoras do clube, deve confirmar a sua candidatura para o pleito do ano que vem.

Lela Pereira, conselheira Presidente e proprietária da Crefisa, patrocinadora do clube
Leila Pereira, conselheira Presidente e proprietária da Crefisa, patrocinadora do clube - Rafael Hupsel - 28.nov.2018/Folhapress

Em 2017, ela foi eleita para o conselho com 248 votos, um recorde na história do Palmeiras. Suas empresas pagam anualmente R$ 81 milhões ao clube e investiram, desde o começo da parceria, em janeiro de 2015, aproximadamente R$ 130 milhões para contratação de atletas.

“Às vezes reflito quando vejo algumas críticas, via redes sociais ou pessoas me contam, e penso que aí pode ter um tipo de preconceito. Por outro lado, pode ser um despeito pelo patrocínio muito grande que proporciono ao clube”, afirma Leila.

Em 2018, o conselho deliberativo aprovou uma mudança no estatuto que abre caminho para ela se candidatar à presidência do Palmeiras. O mandato do atual presidente do clube, Maurício Galiotte, passou de dois para três anos, e agora vai até dezembro de 2021. O tempo é suficiente para que Leila cumpra com a obrigação de acumular pelo menos dois mandatos como conselheira para concorrer à sucessão de Galiotte.

“Em fevereiro de 2021, sou candidata à reeleição ao conselho deliberativo. Os associados elegeram uma mulher com o maior número de votos e fiquei muito honrada. Depois de fevereiro é outra história, a gente volta a conversar”, diz a empresária.

Leila é uma das poucas mulheres que ocupam espaços de poder dentro da política dos quatro clubes paulistas. Para outras que tentam chegar lá, o caminho é árduo e, segundo relatos ouvidos pela reportagem, repleto de preconceitos.

Sócia do São Paulo desde 1989, Soraia Guadalupe tentou uma vaga no conselho vitalício (que integra o deliberativo). Seu nome nem sequer foi aprovado no conselho consultivo (constituído apenas por homens), que fez a triagem dos que concorrerão a uma das novas 10 cadeiras para a vida toda.

“Me senti discriminada desde que peguei a ficha da inscrição. Vem escrito ‘ficha de inscrição para conselheiro vitalício’”, afirmou.

Guadalupe, uma entre as quatro conselheiras do São Paulo, diz que em quatro anos no órgão conseguiu se pronunciar apenas em duas reuniões ordinárias. “O clube é machista. Quando tem reunião, eu sou a última a falar”, disse a são-paulina.

Hoje integrante da ala de oposição ao presidente Leco, ela entrou com um pedido no Tribunal de Justiça de São Paulo para a anulação das escolhas do conselho consultivo. O pedido foi inicialmente aceito pelo desembargador Piva Rodrigues na segunda-feira (31), mas o mesmo revogou sua decisão nesta quarta-feira (2).

Para Débora Barga Vaz, conselheira do Santos, há um aspecto cultural de a mulher, desde o nascimento ou durante o matrimônio, ser inserida como sócia dependente do pai ou do cônjuge. Isso tira a possibilidade de participar dos pleitos e elimina qualquer aspiração política.

Débora entrou para o quadro de associados em 1974, como dependente do pai. Passou a ser a titular a partir de 2001 e está em seu segundo mandato como conselheira.

“Nós, mulheres, lutamos no Santos para melhorias como espaço para troca de fraldas das crianças. As arenas, hoje, já possuem, mas no banheiro da Vila ainda não tem”, relata.

O Santos faz promoções para que mulheres adquiram o título com mensalidades pela metade do preço. Entre 23 mil associados, segundo o clube, 18% são mulheres.

A Folha questionou os clubes sobre o número total de mulheres, associadas e conselheiras, aptas a votarem na próxima eleição para presidente.

O São Paulo confirmou as quatro conselheiras. Nos demais, em que os sócios votam, o Santos não informou os números, o Palmeiras não respondeu e o Corinthians, que confirmou as 16 conselheiras, afirmou ainda não saber quantas sócias estarão aptas a votar, já que isso depende da lista de adimplentes.

Marlene Matheus, ex-presidente do Corinthians, em desfile da Gaviões da Fiel no Carnaval de 2010
Marlene Matheus, ex-presidente do Corinthians, em desfile da Gaviões da Fiel no Carnaval de 2010 - Robson Ventura - 14.fev.2010/Reuters

Conselheira e diretora de inclusão social do Internacional, Najla Diniz cobra que os clubes tenham políticas de inclusão da mulher em suas administrações.

“Na reforma estatutária passada defendi a proposta de cotas femininas em cada chapa na proporção de número de sócias: 20% de mulheres no quadro social, 20% nos nomes de cada chapa na faixa elegível. Fui vaiada e aconselhada a lavar minha louça”, afirma a dirigente do clube gaúcho.

Para ela, até o horário das reuniões dos conselhos (tradicionalmente noturnas) é um problema, uma vez que mães solo ou que são incumbidas de cuidar dos filhos não têm disponibilidade para participar se não tiverem com quem deixar as crianças.

Segundo Diniz, não adianta apenas delegar a mulheres cargos em setores como os de eventos.

“Uma direção sem mulheres é uma direção que não dá o devido valor às questões de assédio, de segurança, de demandas específicas físicas, como banheiros adequados, por exemplo. Uma direção sem mulheres não olha para sua torcida e para a pluralidade que ela representa. Ajuda mais ainda a sedimentar a ideia de que o futebol é um ambiente masculino e fechado às ideias, ações e presenças femininas”, diz.

Diana Mendes Machado da Silva, historiadora que pesquisa o futebol, entende que a pouca presença feminina mostra que o futebol reproduz mecanismos de exclusão presentes na sociedade.

“Isso mostra o resultado de anos de uma política informal de exclusão das mulheres em relação ao futebol. Essa exclusão começa no ‘menina não joga futebol’, que depois só é alicerçado e mantido quando você vai para uma arquibancada, para uma partida, ou quando você tenta participar de um conselho", diz Machado.

A historiadora entende que são essas práticas informais de exclusão que limitam o acesso à participação formal das mulheres nos clubes.

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