Jornalista do futuro será mais colaborativo e próximo da audiência

Para estudiosos, o desafio de construir relações mais qualificadas com o público será mais complexo

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São Paulo

“Toda notícia que couber, a gente publica.” A frase, encontrada pelo historiador Robert Darnton em uma delegacia de Manhattan durante seus anos de repórter no jornal The New York Times, no começo da década de 1960, sintetiza de duas maneiras diferentes o espírito do trabalho jornalístico da época.

Por um lado, devido às limitações de espaço nas publicações impressas, um acontecimento só se tornava notícia se, literalmente, coubesse no jornal. Por outro, na interpretação do autor, os fatos precisavam caber em uma concepção prévia do que é notícia –e, segundo Darnton, esse padrão era constantemente recriado em uma lógica autocentrada nas Redações, em que reportagens eram escritas mais para colegas, editores e fontes do que para os leitores do jornal.

Essas duas marcas do ofício foram profundamente transformadas com a revolução digital. O consumo de notícias se tornou onipresente com a multiplicação de telas e de redes sociais, e a primazia do jornalismo na seleção e na hierarquização das informações passou a ser crescentemente disputada.

“Com a ascensão da internet social, o jornalismo se torna um objeto de difícil apreensão, com fronteiras muito móveis e porosas”, afirma Moreno Osório, professor da PUC-RS e cofundador do Farol Jornalismo, iniciativa que acompanha tendências da área e tem uma newsletter semanal.

Evento virtual e aberto ao público discutiu políticas sobre drogas no Brasil com especialistas; debate acompanhou a publicação da série de reportagens sobre o assunto reunidas no especial Estado Alterado
A Folha investe em diversas plataformas e promove eventos para atrair o leitor, como o debate virtual que discutiu políticas sobre drogas; o tema fazia parte das reportagens do especial Estado Alterado - Lucas Seixas - 1.out.2020/Folhapress

Quebrar a roda do jornalismo que trabalha para si mesmo, construindo relações mais próximas e qualificadas com o público é, em sua avaliação, o principal desafio que os profissionais da área enfrentarão no futuro.

Nesse sentido, repórteres e editores deverão aguçar a sua preocupação com os interesses dos leitores e investir mais tempo dialogando com o seu público em todo o ciclo noticioso –da definição da pauta à recepção de críticas depois da publicação.

Essa exigência também deve levar à disseminação de ferramentas de relacionamento direto com os consumidores –as possibilidades incluem grupos em redes sociais e em aplicativos de mensagens e newsletters com um tom mais informal, diz Osório.

O Wall Street Journal, por exemplo, mantém uma comunidade no LinkedIn da revista digital WSJ Noted. Voltado para o público de 18 a 34 anos, o grupo é apoiado por uma rede de 200 consultores que fazem sugestões para a cobertura do veículo. A Folha, além da forte presença em redes como o Instagram e o Twitter, oferece mais de dez newsletters de temas variados e lançou, neste mês, um canal de envio de notícias pelo Telegram.

De acordo com Natália Mazotte, coordenadora do Programa de Jornalismo e Comunicação do Insper, o imaginário do jornalista em um pedestal está se quebrando. “Se a gente não está pensando o jornalismo para construir e fortalecer comunidades, a nossa tendência é cair na irrelevância. As pessoas querem falar, interagir e participar do debate público. A gente tem que romper o distanciamento que o jornalista tinha da sua audiência.”

Uma das principais implicações desse movimento, do ponto de vista das habilidades dos novos profissionais, é a necessidade de entender como cada linguagem funciona e saber transitar entre elas.

Afinal, uma reportagem de política ou economia demanda uma estrutura e um discurso diferentes de um roteiro de podcast ou vídeo ou de uma postagem em redes sociais. “A transformação do jornalismo também passa pelo texto –não só o texto escrito, mas o texto em áudio e vídeo–, buscando essa relação”, reflete Moreno Osório.

Não há dúvida de que cabem mais linguagens e suportes no jornalismo contemporâneo –como também cabe uma quantidade muito maior de notícias no mundo hiperconectado de hoje, o que demanda uma mudança de atitude dos veículos. “Produtores de conteúdo de qualidade e registro histórico como a Folha têm o desafio de fazer prevalecer os valores do jornalismo profissional na cacofonia própria do meio digital”, prescreve o último projeto editorial do jornal.

Se a gente não está pensando o jornalismo para construir e fortalecer comunidades, a nossa tendência é cair na irrelevância

Natália Mazotte

Coordenadora do Programa de Jornalismo e Comunicação do Insper

Apresentar uma curadoria da torrente de eventos cotidianos e oferecer aos leitores novos formatos que sintetizem os fatos de maior relevância deve ganhar espaço nas preocupações dos jornalistas do futuro.

“Os jornalistas têm a capacidade e a responsabilidade de, diante desse caos todo, organizar as informações, dando um sentido, não só como o motor do Google. Aí entra o jornalismo de contexto, podcasts que recuperam histórias, newsletters matinais que recuperam o aspecto cronológico do jornalismo do século 20”, afirma Osório.

Natália Mazotte ressalta que, nesse contexto, novas tecnologias devem ser instrumentos potentes no trabalho de jornalistas, tanto na produção quanto na distribuição das notícias. “Os jornalistas precisam entender de dados para o trabalho de apuração, mas também para saber como cativar a audiência e conquistar novos públicos”, diz.

Do ponto de vista da produção das notícias, o emprego de técnicas de inteligência artificial para publicar textos com informações replicáveis –resultado de loterias e de eleições municipais, por exemplo– e o uso de robôs para monitorar o andamento de processos judiciais ou de legislações podem trazer um salto de produtividade nas Redações, de acordo com a jornalista.

Ela se diz otimista sobre o assunto, apesar dos cortes nos últimos anos. “Conforme as empresas que estão buscando qualificar as informações disponíveis para o debate público perceberem a necessidade de calibrar a produção maciça de dados com esse olhar qualitativo, o jornalista vai ganhar mais espaço.”

Os jornalistas têm a capacidade e a responsabilidade de organizar as informações, dando um sentido, não só como o motor do Google

Moreno Osório

Professor da PUC-RS e cofundador do Farol Jornalismo

A pandemia escancarou a necessidade de os jornalistas lidarem com imensas bases de dados e apresentarem os avanços da produção científica, lembra Moreno Osório, que se refere à cobertura da emergência sanitária como marco de outra tendência de transformação do trabalho dos jornalistas: a colaboração em grandes equipes. “O jornalismo precisa ser colaborativo para dar conta dos problemas complexos. É só pensar nas grandes investigações transnacionais, como o Panama Papers.”

Em relação à esfera da distribuição das notícias, Natália Mazotte aponta que os jornalistas estão cada vez mais impelidos a construir uma marca pessoal e, por isso, se empenham em divulgar os conteúdos que publicam. “Jornalistas vão precisar se tornar empreendedores para conseguir entrar nesse mercado em retração”, diz.

Eugênio Bucci, professor titular da Escola de Comunicações e Artes da USP, defende que os jornalistas e os veículos de comunicação estejam na fronteira da inovação tecnológica para desempenhar sua missão profissional, mas afirma que “não é o domínio da tecnologia que produz a mudança essencial pela qual o jornalismo tem que passar”.

“O jornalista não é um tecnólogo, e o jornalismo não é um sistema de dutos para fazer uma mensagem pronta chegar rapidamente à outra ponta. Não é por isso que a democracia precisa do jornalismo”, afirma.

Bucci propõe que a formação dos profissionais siga um modelo prioritariamente prático, centrada na produção de reportagens pelos estudantes e acompanhada de aportes sólidos de conhecimentos de arte, direitos fundamentais, economia, matemática e método científico.

Para fazer a mediação do debate público, o jornalista precisa pensar. É um exercício intelectual, não um exercício de transmissão de dados

Eugênio Bucci

Professor da Escola de Comunicações e Artes da USP

“O fundamental na formação dos jornalistas é um humanismo avançado, que permite flagrar os fatos e as tensões no calor da hora. É justamente por compreender a dinâmica da interação social dos nossos tempos e a crise da democracia que nós sabemos que o domínio das inovações tecnológicas é fundamental”, diz. “A tecnologia não é tudo e não é o principal.”

De acordo com o pesquisador, a pior crise do jornalismo é a que chama de crise do pensamento. “Para fazer a mediação do debate público, o jornalista precisa pensar. É um exercício intelectual, não um exercício de transmissão de dados. O jornalista interpreta e hierarquiza as informações e elege prioridades exatamente porque tem uma compreensão do mundo. O fundamental da formação do jornalista é o pensamento."


Atributos do jornalista do futuro

Relações com o público

  • Conhecer os anseios e as necessidades do público
  • Interagir com os leitores desde a definição das pautas

Competências socioemocionais

  • Ter empatia para se relacionar com as fontes e o público
  • Ser capaz de trabalhar colaborativamente em grandes equipes
  • Desenvolver capacidade de liderança para ocupar cargos de gestão

Dados

  • Dominar fundamentos de matemática e estatística
  • Entender em profundidade como a ciência é produzida
  • Produzir reportagens acessíveis que incorporem dados especializados
  • Dominar ferramentas de engajamento e retenção da audiência

Novos formatos

  • Entender e dominar as particularidades de cada linguagem
  • Conhecer técnicas de roteiro e gravação de podcasts e vídeos
  • Saber usar discursos mais pessoais em podcasts, newsletters e outros meios

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