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Julián Fuks vive luta por um teto em livro sobre ruínas e reconstrução

'A Ocupação', primeiro romance após o premiado 'A Resistência', amplia autoficção do autor

Julián Fuks em visita à Ocupação 9 de Julho, no centro de São Paulo, que serviu de cenário e de inspiração para seu novo romance,

Julián Fuks em visita à Ocupação 9 de Julho, no centro de São Paulo, que serviu de cenário e de inspiração para seu novo romance, "A Ocupação"  Marlene Bergamo/Folhapress

São Paulo

A portinha de ferro emoldurada por grafites no número 427 da rua Álvares de Carvalho, em São Paulo, está entreaberta. Lá dentro, uma mulher faz o controle de quem entra e de quem sai em um caderninho. Ele, então, responde às interrogações da porteira como se resumisse esta reportagem e ocupasse o lugar de narrador.

“Eu sou Julián Fuks e estou lançando um livro chamado ‘A Ocupação’, que fala sobre a ocupação daqui. E ele é jornalista da Folha”, explica o escritor, acrescentando que combinou a visita com um dos coordenadores do lugar.

Estamos na Ocupação 9 de Julho, que fica no prédio abandonado do INSS, onde vivem pessoas ligadas ao MSTC (Movimento Sem Teto do Centro) desde 2016 —hoje são cerca de 400 moradores e 150 famílias.

Ao passar pela guarita e caminhar pelo acesso que leva ao edifício, logo se vê por que muitos definem o local como uma ocupação artística. Vasos com plantas enfeitam os cantos, grafites colorem os muros, obras de arte fazem dos corredores algo menos concreto e duro. E entende-se também a gênese do novo livro de Fuks.

Em 2016, o autor participou de uma residência artística durante três meses no Hotel Cambridge, outro imóvel sem uso que foi tomado pelo movimento. O convite era parte de um projeto que buscava aproximar artistas do lugar.

Na época, Fuks havia acabado de lançar “A Resistência” —livro que venceu três prêmios Jabuti (melhor romance e livro do ano, em 2016, e melhor livro brasileiro publicado no exterior, em 2019). O contato com as famílias do MSTC fez com que o autor acompanhasse também a entrada delas no prédio do INSS, onde ficaria por cerca de 24 horas.

É desse caldo, feito de barricadas no portão, da limpeza das ruínas, do esqueleto de um edifício jogado à própria sorte e de pessoas que enxergaram nos escombros um teto, que nasce “A Ocupação”.

Mas, no livro, a tal ocupação não é somente a busca por moradia. O termo vai ganhando outros significados durante os capítulos curtos e se conecta a um corpo doente, ao ventre da mulher que não engravida e à própria narrativa.

“A literatura pode ser ocupada por questões do presente”, diz Fuks, sentado no sofá de uma das salas do prédio. “Quis produzir algo que não se desvencilhasse do que está acontecendo no país, fazer uma literatura política, mas sem ser panfletária ou dogmática.”

Julián Fuks na escadaria que dá acesso aos andares do prédio da Ocupação 9 de Julho
Julián Fuks na escadaria que dá acesso aos andares do prédio da Ocupação 9 de Julho - Marlene Bargamo/Folhapress

O romance é ocupado também por outras vozes, caso de uma carta escrita por Mia Couto, por exemplo. O escritor moçambicano foi uma espécie de mentor para Fuks na produção do livro, escolhido depois que o brasileiro foi contemplado em um projeto da marca de relógios Rolex que previa encontros entre um autor mais experiente e outro em início de carreira.

Se a face de Couto se mostra mais clara na carta, ela está impressa de forma mais sutil nas entrelinhas. “Ele sempre foi capaz de fazer o que eu ambicionava: escapar da própria vida para falar do outro, deixar a escrita sincera calcada na experiência para poder ficcionalizar”, diz Fuks.

O que não deixa de ser curioso para um escritor que ficou conhecido pela autoficção, por rechear “A Resistência” com a memória da própria família e por eleger um prisma extremamente pessoal na gênese de “A Ocupação”.

Essa instabilidade ou oscilação, esse cancelamento de certezas, é parte fundamental do projeto literário do autor e acaba respingando na nova história. Desponta na descrição do prédio em ruínas, no hospital com o doente acamado, na mulher que não consegue ter filhos. Mas grita também na própria constituição da obra, na autoficção que faz o narrador, Sebastián, ser e não ser o escritor Julián.

“O que me interessa é a construção da ambiguidade”, conta Fuks enquanto anda pelos corredores da Ocupação 9 de Julho. E, ao ver salas, degraus, pilares, jardins e alicerces que ele viu abandonados tomarem a forma não de uma casa ideal, mas de uma casa possível, ele exclama quase que para si mesmo: “Como isso mudou.”

E aí mora mais uma ambiguidade do romance, ele analisa. “Não queria que fosse pura ruína, mas que esses escombros se tornassem construção, que não desaparecesse um horizonte de esperança. Assim como existe uma oscilação entre verdade e ficção, procurei uma instabilidade de dor e esperança”, conta.

A surpresa pelo ressurgimento do prédio, que hoje promove eventos abertos ao público e abriga uma galeria de arte no térreo, brota principalmente porque Fuks não visitava o lugar havia mais de um ano. “A literatura tem seus tempos, e eu precisava de um distanciamento”, ele conta.

Tanto que, na residência artística no Hotel Cambridge, ele pouco escreveu. Mesmo durante o projeto da Rolex, ao lado de Mia Couto, o livro engatinhava. “A Ocupação” foi escrito neste ano e entregue para a editora em setembro, sendo lançado só três meses depois para aproveitar o caldo político do país e a atualidade dos fatos narrados sobre os movimentos de luta por moradia em São Paulo.

Por ter sido feito à luz de 2019 sobre acontecimentos de 2016, o título traz um narrador preocupado com os rumos do país —e a própria ruína física, psicológica e social acaba se tornando metáfora para um Brasil e uma São Paulo. “A gente vê uma destruição paulatina, tanto no concreto quanto em um horizonte de ameaça”, acredita Fuks.

E, se o autor diz se preocupar em não criar uma literatura militante ao propor caminhos nesse cenário, ele exibe suas cartas no silêncio. 

Cercado pelas paredes pintadas de cal do prédio, compara seus dois últimos romances: “A Resistência” e “A Ocupação”, que têm o mesmo narrador e compartilham, de certa forma, o mesmo universo. Juntos, podem ser mais do que livros —se tornam duas das palavras de ordem mais repetidas por movimentos sociais no mundo: ocupar e resistir.

TRECHOS

Você não entende, não é? Acha que todo o esforço é por nada, por um terreno sujo, por um prédio caindo aos pedaços. Você não sabe o que foi este lugar quando ocupamos pela primeira vez, não sabe que aqui era a casa da própria vida encarnada.


Aquilo era a ruína, nada do que eu vira antes merecia esse nome. Aquilo era a ruína e parecia ocultar em seus escombros todas as ruínas anteriores [...]

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