Descrição de chapéu racismo

Saiba quem foi a soprano que superou racismo no Rio para brilhar na Ópera de Paris

Livro e peça resgatam história da cantora negra carioca Maria d'Apparecida, esquecida pela música clássica brasileira

São Paulo

“Você tem uma bela voz, mas você é negra. E negra não canta no Theatro Municipal.” Foram essas palavras racistas que a cantora lírica Maria d’Apparecida contou numa entrevista ter ouvido de um empresário ítalo-brasileiro na conservadora sociedade carioca dos anos 1950.

Filha de uma empregada doméstica, D’Apparecida imaginou uma carreira na ópera depois de presenciar cantoras afro-americanas se apresentando na principal sala de espetáculos do Rio de Janeiro. Seu desejo a levou a seguir aulas de canto no conservatório da cidade, enquanto trabalhava como professora primária e como locutora em algumas rádios.

A cantora lírica Maria d'Apparecida - Ina via AFP

Ao notar o potencial de sua voz, ela se inscreveu num concurso de canto na Itália, em que ganhou uma medalha. Diante de sua desilusão com a possibilidade de ser cantora lírica no Brasil, aquele foi o impulso decisivo para que, pouco antes de chegar aos 30 anos, ela se mudasse para Paris.

Na capital francesa, dez anos mais tarde, em 1965, atingiu o ápice —se tornou a primeira negra latino-americana a interpretar a cigana Carmen na famosa peça de Georges Bizet, na Ópera de Paris. Naquele mesmo ano, a montagem com ela foi apresentada no Municipal do Rio.

Essa história, um tanto desconhecida por aqui, segundo personalidades do meio da música clássica, está sendo agora recuperada com o lançamento do livro biográfico “Maria d'Apparecida - Negroluminosa Voz”, da jornalista e pesquisadora Mazé Torquato Chotil, e em breve ganhará os teatros com a peça “Maria d’Apparecida - Ópera Negra”, da dramaturga Dione Carlos.

D’Apparecida nasceu em 1926 e foi criada por uma família de classe média na Tijuca, para a qual sua mãe, Dulcelina, negra, trabalhava como cozinheira. Dulcelina morreu de tuberculose quando a filha tinha só oito anos. Órfã e distante do pai biológico, com quem mal teve contato, a criança passou a fazer parte dos Azambuja, que garantiram a ela a mesma educação de suas duas filhas de sangue, incluindo aulas de piano.

“Uma vez por mês ela me pegava no sábado ou no domingo e fazia comigo um passeio cultural, não era parquinho nem zoológico”, diz Paulo Azambuja, 76, sobrinho mais velho da cantora. Quando ele tinha oito anos, sua tia o levava ao teatro infantil e a recitais de piano, ele conta, acrescentando que D’Apparecida, então com 20 anos, bonita e extrovertida, se interessava desde jovem pela vida cultural.

A família apoiou a mudança dela para Paris. Enquanto estudava canto no Conservatório Nacional Superior de Música e Dança, na capital francesa, D’Apparecida se apresentava em rádios e TVs locais interpretando, em português, composições de Heitor Villa-Lobos e do pianista Waldemar Henrique, um de seus principais parceiros musicais.

Em paralelo, sua carreira na ópera decolou: ela se apresentou como Didon em “Didon e Enée”, de Henry Purcell e, em 1963, teve seu primeiro grande papel num teatro francês, ao interpretar Carmen no Grand Théâtre de Bordeaux. Dois anos depois, faria novamente a cigana sedutora junto à Ópera de Paris, substituindo Maria Callas, que havia ficado doente.

Mesmo consagrada ao chegar de volta para as apresentações no Rio, D’Apparecida foi muito hostilizada. “Havia um preconceito imenso —se hoje há, imagina naquela época. O pessoal do coro atrás dela dizia ‘sua neguinha, o seu lugar não é aqui’”, contou numa live recente o jornalista Lauro Gomes, que a entrevistou.

Na mesma live, a regente negra Ester Freire comentou que a cantora foi vítima de um “apagamento histórico seriíssimo” na música clássica brasileira, um meio que considera elitista e tradicionalmente pensado para homens. “A cena de música dos concertos precisa ter uma autorreflexão sobre a representatividade das mulheres pretas dentro desse espaço.”

Segundo Chotil, a pesquisadora, seu livro visa dar à mezzo-soprano o lugar que ela merece na música do país. Ela escreveu com base em pesquisas na imprensa brasileira e francesa, nos arquivos da Biblioteca Nacional de Paris e também em entrevistas com os amigos vivos da artista.

A cantora lírica deu também uma contribuição importante à MPB —em 1977, gravou com o violonista Baden Powell o disco “Maria D’Apparecida Chante Baden Powell”. Ela se dedicou a um registro vocal mais popular depois de sofrer um grave acidente três anos antes, quando o táxi em que estava não parou no sinal vermelho e fez sua cabeça atravessar o para-brisa. As sequelas impossibilitaram que ela cantasse toda uma ópera.

Talvez a parceria tenha sido uma forma de a cantora se reencontrar com o Brasil, país ao qual voltava uma vez por ano para visitar o túmulo de sua mãe, conta o sobrinho. “Saudade é uma palavra que eu risquei do meu vocabulário”, dizia ela. “Se alguma coisa me falta, eu procuro ter.”

Uma musa surrealista

  • Independente, Maria d’Apparecida nunca se casou nem teve filhos; contudo, viveu um grande relacionamento amoroso com o pintor surrealista francês Félix Labisse, provavelmente a pessoa mais importante da sua vida na França
  • Labisse era casado, mas isso não era um impeditivo para os dois —D’Apparecida foi sua musa, amiga e amante. Ainda convivia com a mulher do pintor
  • O artista pintou diversas telas de Maria D’Apparecida, sendo a mais famosa uma na qual a cantora é representada na cor azul —’Pinte-me em azul, assim se verá que não sou branca’, disse ela
  • Labisse morreu nos braços da amada brasileira, no início dos anos 1980; ela morreu em 2017, sozinha no seu apartamento, em Paris, e seu corpo ficou dois meses no IML francês até que fosse enterrado num cemitério da cidade; segundo seu testamento, contudo, ela queria ser enterrada com Labisse em Douais, no norte francês
  • O sobrinho Paulo Azambuja relata que D’Apparecida parecia ter dificuldade em encarar a velhice e o fim da vida e que era complicado falar desses assuntos com ela; embora tenha nascido em 1926, ela omitiu a data em seus documentos franceses, que tinham 1936 como o ano de registro do nascimento

Maria d'Apparecida - Negroluminosa Voz

  • Preço R$ 48 (182 págs.)
  • Autor Mazé Torquato Chotil
  • Editora Alameda
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