Descrição de chapéu The New York Times

Artistas não perderam só empregos na pandemia, mas também as suas carreiras

Reféns de auxílios emergenciais, profissionais da cultura se preocupam com o futuro do setor

Patricia Cohen
The New York Times

A violinista Jennifer Koh faz parte dos escalões mais altos da música erudita. Segundo qualquer critério que se queira usar, é uma estrela. Dona de técnica deslumbrante, tem uma carreira com a qual deve sonhar qualquer músico saído da escola Juilliard. Já se apresentou com grandes orquestras, gravou obras novas e tocou em alguns dos palcos mais prestigiosos do mundo.

Agora, nove meses depois do início de uma pandemia que sustou a maioria dos encontros públicos e vem dizimando as artes cênicas, Koh, tendo visto um ano de apresentações marcadas evaporar, vem tocando na sala de sua casa e recebendo assistência alimentar do governo.

Há sofrimento visível em praticamente qualquer parte da economia. Desde que a pandemia de coronavírus se espalhou pelos Estados Unidos, milhões de pessoas perderam seus empregos e dezenas de milhares de empresas fecharam as portas. Mas, mesmo nestes tempos extraordinários, as perdas sofridas no setor das artes cênicas e outros da cultura são estarrecedoras.

No trimestre que terminou em setembro, quando o índice de emprego geral foi de 8,5% em média, 52% dos atores, 55% dos bailarinos e 27% dos músicos estiveram desempregados, segundo a National Endowment for the Arts, agência independente do governo federal americano que dá apoio e verbas a projetos de excelência artística. A título de comparação, o índice de desemprego de garçons foi de 27%, de cozinheiros, 19%, e de vendedores no varejo de 13% no mesmo período.

Em muitos lugares, os espaços de arte —teatros, clubes, salas de concertos, festivais— estiveram entre as primeiras empresas a fechar as portas. E é provável que estejam entre os últimos a reabrir.

“Meu receio é que não estejamos perdendo apenas empregos, mas carreiras”, disse Adam Krauthamer, presidente de uma filial em Nova York da Federação Americana de Músicos. Ele disse que 95% dos 7.000 filiados à sua entidade não estão trabalhando regularmente devido ao lockdown obrigatório. “Isso vai gerar uma grande depressão cultural”, ele previu.

Os US$15 bilhões, aproximadamente R$ 77,9 bilhões, de estímulo aprovados pelo Congresso recentemente para espaços artísticos e instituições culturais —valor posto no limbo quando o presidente Trump criticou o projeto de lei— não vai acabar com o desemprego em massa de artistas no curto prazo. E o pacote só prevê assistência federal a desempregados até meados de março.

O público talvez enxergue artistas como celebridades, mas a maioria dos músicos, atores e bailarinos nunca chega perto de um tapete vermelho ou cerimônia de premiações. Mesmo nos melhores dos tempos, a grande maioria não recebe salários dignos de Hollywood nem conta com apoio institucional. Os artistas trabalham de uma temporada a outra, de um fim de semana a outro ou de um dia a outro, passando de um show para o seguinte.

O salário anual médio de instrumentistas e cantores em tempo integral era de US$ 42,8 mil, ou R$ 222,3 mil, caindo para US$ 40, 5 mil, ou R$ 210,4 mil, no caso dos atores e US$ 36,6 mil, ou R$ 190,1 mil, no caso de bailarinos e coreógrafos, segundo análise da National Endowment for the Arts.

Mulher oriental usa casaco vermelho e apoia braços em uma grade na rua
A violinista Jennifer Koh em Manhattan, em 11 de dezembro 2020 - Elias Williams/The New York Times

Muitos artistas fazem outro tipo de trabalho concomitantemente para poderem se sustentar, em muitos casos no setor dos restaurantes, do varejo ou da hospítalidade —onde as oportunidades de trabalho também desapareceram com a pandemia.

Eles formam uma parte integral das economias e comunidades locais em todos os cantos da América rural, suburbana e urbana. E estão vendo seus meios de subsistência e o trabalho de toda sua vida desaparecer de uma hora para outra.

“Estamos falando de um ano de trabalho que simplesmente sumiu”, comentou a atriz e cantora Terry Burrell, cujo espetáculo itinerante “Angry, Raucous and Gorgeously Shameless” foi cancelado. Agora ela está em casa com seu marido, em Atlanta, vivendo de seguro-desemprego e torcendo para não precisar resgatar seu fundo de aposentadoria.

A violinista folk Linda Jean Stokley, que junto com Montana Hobbs forma o duo Kentucky Local Honeys, comentou "somos resilientes e estamos acostumadas a não receber cachês regulares”. Mas desde março praticamente ninguém tem pago nem sequer os cachês pequenos que elas cobram. “Uma pessoa nos estava devendo US$ 75 [R$ 389] e nem isso nos pagou.”

Tim Wu, de 31 anos, é DJ, cantor e produtor. Ele normalmente faz cerca de cem shows por ano em faculdades, festivais e boates, usando o nome artístico Elephante.

Em meados de março, quando o lockdown em Nova York começou, ele estava em Ann Arbor, no estado de Michigan, fazendo os testes do som de um show novo chamado “Diplomacy”. Wu retornou a Los Angeles no dia seguinte. Todos os outros shows que ele tinha marcados foram cancelados, levando junto a maior parte de sua renda.

Ele e centenas de milhares de outros artistas freelancers não são os únicos a estar sofrendo os efeitos da pandemia no bolso. O setor mais amplo das artes e da cultura, que inclui Hollywood e o setor editorial, forma uma indústria de US$ 878 bilhões, ou R$ 4,5 trilhões, que representa uma fatia maior da economia americana que os esportes, transportes, construção ou agricultura. O setor abrange 5,1 milhões de empregos assalariados, segundo o Birô de Análises Econômicas dos Estados Unidos.

Os profissionais em questão incluem agentes, maquiadores, cabeleireiros, alfaiates, zeladores, auxiliares de palco, lanterninhas, eletricistas, engenheiros de som, gerentes e funcionários de franquias ligadas ao setor artístico, cinegrafistas, administradores, equipes de construção, estilistas, roteiristas, diretores e outros.

“As cidades não vão conseguir se recuperar economicamente sem os profissionais criativos das artes e da cultura”, opinou Richard Florida, professor da Escola Rotman de Administração e Cidades da Universidade de Toronto.

Este ano Steph Simon, de 33 anos, de Tulsa, finalmente começou a trabalhar em tempo integral como músico de hip-hop, depois de passar dez anos se sustentando com empregos pagos com o salário mínimo, limpando tapetes ou atendendo telefones.

Ele foi selecionado para se apresentar no festival South by Southwest, em Austin, no estado do Texas, fez shows regulares em sua cidade e em turnês e produziu “Fire in Little Africa”, álbum que recorda o massacre de residentes negros de Tulsa, em 1921, por manifestantes brancos.

“Este deveria ser meu maior ano até agora, financeiramente falando”, disse Simon, que vive com sua namorada e duas filhas e estava ganhando cerca de US$ 2.500, ou R$ 12,9 mil, mensais como músico. “Mas então o mundo fechou.”

Uma semana depois de o festival ser cancelado, ele estava novamente trabalhando 40 horas por semana como operador de call center, desta vez em sua casa, com um segundo emprego num restaurante de fast food nos fins de semana. Em novembro, no dia de seu aniversário, ele contraiu Covid-19, mas se recuperou.

Artistas que têm empregos assalariados regulares também vêm sendo prejudicados. Depois de passar anos fazendo trabalhos esporádicos de atriz e em comerciais, Robyn Clark começou a trabalhar como atriz na Disneylândia. Ela fazia vários personagens do Califórnia Adventure, a fotógrafa Phiphi, a mensageira Molly e Donna, a Dog Lady. Fazia seis shows por dia, vários dias por semana.

“Foi a primeira vez na vida que tive segurança econômica”, ela contou. Foi também a primeira vez que ela contou com seguro-saúde, licença médica paga e férias pagas.

Em março ela foi dispensada temporariamente, mas recebendo uma parte de seus vencimentos normais. A Disney continua a cobrir seu seguro-saúde. “Tenho auxílio-desemprego e uma família generosa”, disse Clark, explicando como vem conseguindo pagar seu aluguel e alimentação.

Muitos artistas estão dependendo de ajuda beneficente. O Actors Fund, organização que presta serviços às artes, levantou e distribuiu US$ 18 milhões, ou R$ 93,5 milhões, desde que a pandemia começou, garantindo as despesas básicas de sobrevivência de 14,5 mil pessoas.

“Faço parte do Actors Fund há 36 anos”, contou a executiva-chefe da entidade, Barbara S. Harris. “Já passamos pelo 11 de Setembro, o furacão Katrina, a recessão de 2008, os fechamentos na indústria. Nunca houve nada que se comparasse a isso.

Os atores de televisão e cinema mais bem pagos contam com uma reserva, mas também eles vêm encarando decepções e oportunidades perdidas. Jack Cutmore-Scott e Meaghan Rath, agora sua mulher, acabavam de ser chamados para atuar num novo piloto da CBS, “Jury Duty”, quando a pandemia levou à suspensão das filmagens. Depois de vários adiamentos, em setembro eles foram informados que a CBS desistira completamente do projeto.

Muitos artistas que se apresentam ao vivo vêm buscando novas maneiras de fazer arte, se voltando ao vídeo, streaming e outras plataformas. A turnê de Carla Gover em que ela dançaria e tocaria música tradicional dos Apalaches e também uma ópera folk que ela compôs, “Cornbread and Tortillas”, foi cancelada. “Passei por um período tenebroso tentando imaginar o que eu poderia fazer”, contou a artista, que vive em Lexington, no estado de Kentucky, e tem três filhos.

Ela começou a escrever emails semanais a todos os seus contatos, compartilhando vídeos e oferecendo aulas online de “flatfoot dancing” e “clogging”, estilos de dança folk americana. A reação foi de entusiasmo. “Aprendi a usar hashtags, e agora tenho um novo tipo de trabalho”, ela contou.

Mas, se a tecnologia possibilita a alguns artistas compartilhar seu trabalho, não necessariamente os ajuda a ganhar muito dinheiro, ou mesmo dinheiro algum.

Conhecida por sua dedicação em promover música e artistas novos, a violinista Jennifer Koh doou seu tempo para criar o projeto Alone Together, levantando doações para encomendar composições e as tocando pelo Instagram em seu apartamento. O projeto foi amplamente elogiado, mas, como destacou Koh, não gera renda.

“Tenho sorte”, ela insistiu. Diferentemente de muitos de seus amigos e colegas, ela conseguiu conservar seu seguro-saúde, graças a um trabalho como professora na New School, e as prestações de seu imóvel foram suspensas até março. Muitos de seus concertos foram reprogramados, se bem que apenas para 2022.

Koh lista seus amigos e colegas que foram obrigados a sair de suas casas ou perderam seu seguro-saúde, sua renda e praticamente todo o seu trabalho. “O campo artístico está sendo dizimado”, ela disse. “Quando olho para o futuro, acho preocupante.”

Tradução de Clara Allain

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