Descrição de chapéu

Dez anos depois da Primavera Árabe, cultura foi varrida do Cairo

O espaço público se tornou propriedade do governo, tirar fotos é quase impossível e a frase 'é proibido' é parte do dia a dia

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 Foto tirada no Cairo, a capital do Egito, dez anos após a Primavera Árabe

Foto tirada no Cairo, a capital do Egito, dez anos após a Primavera Árabe Gian Spina

Gian Spina

Artista visual e escritor radicado no Cairo​

É janeiro de novo, eu cruzo a praça Tahrir e vejo um obelisco fálico encapuzado com esfinges faraônicas dentro de caixas de madeira, tudo escondido.

Alguns meses atrás, o mesmo monumento foi inaugurado, mas em seguida novamente fechado, celebrando algo que deva ser talvez escondido. No mesmo mês, em 2011, egípcios foram à ruas manifestar contra o regime há anos no poder, os preços abusivos e melhorias na qualidade de vida. A revolução transformou a mesma praça por 18 dias consecutivos.

Continuo para dentro do centro e cruzo um dos pouco bares, que agora está fechado. “Esse ano eles fecharam e não abriram mais, talvez por causa do coronavirus”, me disse o homem que tem uma banquinha que vende tênis bem em frente.

Os lugares aqui têm fechado, trocado de nome e posicionamento. Depois do golpe de estado em 2013 que retirou um presidente eleito, tudo tem passado por uma mudança, seja ela forçada ou não. O país se transformou em algo semelhante ou talvez pior que 1964.

Em março a histórica Townhouse fechou, se transformando em algo outro. Uma espécie de centro cultural que esteve por anos presente no centro da cidade e que mantinha um fluxo de residências artísticas, seminários e shows virou, neste ano, uma espécie de galeria de arte com lojinhas de suvenir. “Lá foi onde eu levei as minhas irmãs mais novas num concerto pela primeira vez” me diz uma amiga.

O centro desenvolvia –assim como outros lugares– uma serie de conteúdos de cunho político e, no ano retrasado, o fundador teve, após dez anos morando no país, a sua entrada negada. Para além de questões de gostos, narrativas pessoais ou coletivas, o que fica é mais um lugar que se foi na cidade, mais um espaço de discussão e produção que se fechou graças talvez ao próprio fato de ser um lugar de discussão e produção.

Esses eventos não acontecem ao acaso, algo também similar tem acontecido (em outras proporções no Brasil) no que diz respeito ao desmonte de um certo tipo de produção cultural e artística.

Nos anos anteriores a 2013, uma intensa cena cultural banhava a cidade. Eu escuto só histórias de peças de teatro, concertos ao ar livre, grupos de leituras em cafés, exposições e performances que, ao longo desses dez anos foram sendo fechados.

Alguns desses lugares ainda se mantêm atuantes para além da vigilância e empecilhos burocráticos impostos por aqueles no comando. A burocracia tem um importante papel para o regime e serve como legitimador de certas ações que não fazem o menor sentido.

Nos dias anteriores a 25 de janeiro, o centro do Cairo é tomado por polícias e milicos. O medo de um retorno de um passado existe. Converso sobre tudo isso com um amigo e ele me conta a história de uma performance que fez no centro da cidade, quando ele e uma amiga faziam uma coreografia que durava horas.

Discutimos sobre a performance da já morta Amal Kenawy em que um grupo, em grande parte formado por homens, cruza a cidade engatinhando numa fila. A possibilidade de isso ocorrer de novo nos parece impensável.

O espaço público se tornou propriedade do governo, tirar fotos de prédios e paisagens é quase que impossível e a frase “é proibido” é parte do dia a dia. Como alternativa, eventos privados ocorrem com convites em grupos fechados de redes sociais.

É claro que ainda existe uma série de programas culturais pelo país, mas o que fica claro é o tipo de agenda, uma vez que fazer eventos que tratam de questões políticas (e digo isso da maneira mais ampla possível) se tornam “complicados”. A própria escrita deste texto pode se tornar complicada. No ano passado, um filme de uma hora e 50 minutos foi exibido e a versão “final” tinha cerca de 45 minutos.

Em 2012, vi uma fala de uma das participantes do grupo Mosreen Video Collective em que ela mostrava o processo de construção de um grande arquivo digital, imagens não romantizadas pela mídia ocidental.

O arquivo 858.ma se tornou um lugar de memória para além da narrativa oficial, longe da possibilidade de um sequestro da história, uma forma de lembrar. Qualquer semelhança não é por acaso. O arquivo mostra imagens gravadas por pessoas que participaram da ocupação em Tahrir, as câmeras de celulares balançam, filmam o chão durante minutos. Corre, xinga, corre e xinga, bomba de gás lacrimogêneo, uma curta conversa, gritos, mais gritos antes de mais correria.

Eu vejo nessas imagens uma certa distância do que foi mostrado na época e ao mesmo tempo uma vontade de as manter vivas, de não esquecer o que aconteceu, uma vez que a grande maioria de grafites, ruas e nomes de escolas foram apagadas ou mudadas para a construção de uma nova história.

Na época da revolução, grupos de Facebook, hashtags, canais no YouTube e sites foram construídos numa vontade de manter vivos momentos que já eram históricos enquanto ainda ocorriam. De maneira orgânica, esses monumentos digitais ajudam a retraçar uma narrativa que é constantemente apagada. Hoje eles são algumas das poucas maneiras de acessar o que aconteceu. Em momentos críticos, a memória se torna um campo de batalha.

Oito anos depois, encontro a amiga do coletivo no Cairo. Ela me falava sobre como a romantização da revolução é algo ainda presente, um orientalismo revisitado que não corresponde em nada ao que acontece por aqui. Alguns dizem que ficou pior, outros que será uma nova geração —análises feitas à distância através de formas de pensar e agir que não condizem em nada com qualquer realidade.

Quando cheguei por aqui, me lembro de uma tristeza presente nas conversas, uma espécie de derrota e ansiedade. Caminhar pela rua e ver a presença de militares, os escutar dando ordens o tempo todo, se fazendo presente o tempo todo.

Lembro o medo, ver aos poucos pessoas próximas indo em cana, de uma vontade de que isso pare, mas não dá. Artistas mais privilegiados foram viver em outros países, por questões de perseguição ou cansaço. Uma certa “diáspora cultural” vêm ocorrendo.

Foto tirada no Cairo, a capital do Egito, dez anos após a Primavera Árabe
Foto tirada no Cairo, a capital do Egito, dez anos após a Primavera Árabe - Gian Spina

Caminho pela rua em frente ao Cimateque, um cinema independente organizado por cineastas, entre eles o diretor de “Os Últimos Dias da Cidade”, filme que não passa na cidade que serve de cenário para a mesma obra e que mostra os momentos que levaram a ocupação da praça. Em 2019, o cinema já vinha mostrando cada vez menos filmes e, desde de janeiro, se encontra praticamente fechado.

Eu cruzo a ponte Galaa e vejo uma placa comemorando o dia 25 de janeiro como dia da Nação, a mesma data celebrada de outra forma, para um outro fim. O dia mudou de nome.

Durante esse período de dez anos, a praça Tahrir foi reconstruída ao menos quatro vezes para que não existam lembranças dos eventos. Assim como no desmonte da cena cultural, o tempo tem um papel fundamental. Tudo isso feito ao longo de anos, com calma e de maneira homeopática, desmotivando possíveis novos projetos e proibindo outros que há anos estavam de pé.

Sigo me perguntando como continuarão todos esse controles e desmontes. Como fica uma sociedade que teve uma real experiência de mudança, mas em seguida o oposto se deu com mais força?

Na música "Mil e Uma Noites" da histórica Umm Kulthum, os versos dizem "e nós dissemos/ ao Sol/ volte, volte/ após um ano/ não antes de um ano". Talvez, de uma forma ou de outra, esperamos —a volta do Sol de novo.

*nomes inventados

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