'Pornô humanista' e strip-tease sem nudez agitam vida cultural de Nova York

Ex-dominatrix e garota de programa tenta emplacar nova escola de erotismo no anexo do MoMA

Silas Martí

Você pode olhar, mas não pode tocar —na entrada, uma garota de espartilho de látex e meia arrastão explica as regras da festa.

A House of Yes, maior boate de Bushwick, um reduto hipster nos cafundós do Brooklyn nova-iorquino, virou um templo dos fetichistas para a estreia mundial de um filme pornô com ambições vanguardistas.

pista cheia à noite
Pista de dança da House of Yes, em Nova York, numa quarta-feira de fevereiro - Mark Lennihan/Associated Press

Minutos antes da projeção, um casal pelado engatinhava sobre a mesa de um banquete, o saleiro pendurado no membro ereto do rapaz. Uma menina só de fita adesiva preta cobrindo os mamilos descansava sobre o bar tal qual uma Vênus sadomasoquista.

Mas o que apareceu na tela foi mais light. "Landlocked" é um "pornô humanista", nas palavras de sua diretora, a brasileira Livia Cheibub. Nele, uma garota "com um corpo real, que tem estrias e celulite" transa quase sem parar com um rapaz magrelo e bem dotado.

Quase, porque há uma pausa para uma longa DR do casal, em que ele revela nunca ter satisfeito a ex na cama. "Quis mostrar um homem vulnerável", diz a cineasta.

Na grande estreia, aliás, essa vulnerabilidade teve o acompanhamento ao vivo de uma orquestra com piano, violoncelo e até harpa, o que despertou ataques de riso entre rodinhas de convidados ainda não seduzidos por esse filão da pornografia. "Não sei se as pessoas estavam desconfortáveis ou excitadas", disse a produtora Angélica Abe. "Mas senti uma coisa positiva ali."

EX-DOMINATRIX

No Queens, a ex-dominatrix e garota de programa Jheanelle Garriques também tentava emplacar uma nova escola de erotismo, num festival de apoio aos direitos das prostitutas que tomou conta do PS1, o anexo do MoMA.

Na mesma linha das garotas por trás do "pornô humanista", ela lidera um coletivo de strippers, ativistas e prostitutas engajadas na missão de criar e narrar "histórias de potência queer e feminista".

Sua performance de dança —uma espécie de strip-tease sem nudez— diante de casais apaixonados e pais de família com bebês no colo marcava sua transição do asfalto das trabalhadoras do sexo para o cubo branco dos museus.

"Um museu como esse está sempre em busca de coisas de ponta", ela afirma. "Então pensar o trabalho do sexo como uma arte da performance, que trabalha tensão e impacto, é o que que existe de mais contemporâneo. Sempre me senti uma atriz. Sou lésbica e a vida toda precisei fingir essa feminilidade exagerada."

BJÖRK DO BROOKLYN

No porão de um prédio de apartamentos no Brooklyn, outra brasileira não parecia fingir nem um pouco. Sabine Holler, radicada no mesmo Bushwick da House of Yes, deu tudo de sua voz aguda em um dos shows de uma noite cheia de DJs e performances.

Suas canções etéreas, com versos como "quero lamber seu umbigo" em sobreposições de camadas da própria voz —que ela faz na hora com um pedal de looping— fizeram tremer a pequena sala mergulhada na penumbra psicodélica de luzes cor-de-rosa e máquinas cuspindo fumaça.

Os mais claustrofóbicos buscavam um respiro de ar fresco no quintal. Uma fogueira ao relento esquentava os notívagos, com baseados e latinhas de cerveja nas mãos.

Esse foi o cenário, aliás, de um dos primeiros clipes de Holler, que lembra uma Björk minimalista. No vídeo, gravado com câmera VHS como manda a cartilha estética da mais nova geração hipster, ela aparece tocando guitarra com maquiagem purpurinada nas pálpebras.

LEVANTE DESBOTADO

Os tons esmaecidos do clipe lembram o trabalho mais forte da Trienal do New Museum, a seleção dos mais radicais entre os artistas emergentes que esse museu de Manhattan faz a cada três anos.

No filme do grego Manolis D. Lemos, um grupo de jovens de capas de chuva com as cores do alvorecer (ou do crepúsculo) correm pelas ruas de Atenas, deixando no ar a dúvida sobre se perseguem alguém ou se são perseguidos, sensação reforçada pelo olhar vigilante das câmeras.

Essa obra ambígua, marcada por referências ao ativismo atual e a sua apropriação por movimentos ligados ao levante do fascismo no mundo, dá o tom dos trabalhos na mostra, que se vende como esforço de sabotagem da estética do capitalismo tardio.

No fim, os garotos do vídeo aparecem correndo em direção ao horizonte dominado por uma luz branca. Seria o prelúdio de uma revolução ou o mergulho no abismo de um paredão de fuzilamento.

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Silas Martí, 33, é correspondente da Folha em Nova York.

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