Descrição de chapéu Coronavírus Governo Bolsonaro

Brasil está capotando com Bolsonaro e coronavírus, afirma Sidarta Ribeiro

O mundo todo precisa de nosso axé, e temos que virar o jogo para a nação não degringolar de vez

Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto, em Brasília Adriano Machado - 12.mai.2020/Reuters

[RESUMO] Neurocientista usa metáfora de um carro que capota para refletir sobre o Brasil atual, que vê Bolsonaro e seu entorno dobrarem a aposta no negacionismo e na desinformação em meio à pandemia. Quando o capotamento parar, será preciso resgatar o que a alma brasileira tem de mais amoroso, solidário e criativo, diz.

Quem já passou por acidente de carro frequentemente conta a mesma história. O tempo desacelera e pode-se perceber em detalhes os eventos que transcorrem nos instantes antes do choque. É como se o movimento quase cessasse na iminência do estrondo violento, num pico de acuidade sensorial que cresce à medida que se aproxima o desastre, tão nitidamente prenunciado e mesmo assim inevitável. Inexorável. Bum.

Estamos em plena capotagem, no tempo veloz mas paradoxalmente esticado dos desastres em curso. E que desastre! Reflitamos.

O capitalismo predatório, do alto de seus cinco séculos de vida, era até 2019 um bólido titânico rumando celeremente para o precipício da crise socioambiental. Firmemente fundado nos instintos ancestrais de acumulação e opressão, cada vez mais potentes e acelerados, atropelando a natureza à frente, nada parecia capaz de freá-lo.

E então, já numa das últimas curvas do percurso que leva ao desastre fatal, o capitalismo derrapou feio na pista, girando pneus em falso no óleo escorregadio da Covid-19.

A força centrífuga da morte elevou as rodas e o chassi voou, perdendo aderência à medida que a quarentena foi desacoplando as cadeias produtivas. Dois meses depois do anúncio oficial da pandemia pela Organização Mundial da Saúde, cerca de 30% da população mundial segue longe de seus locais de trabalho.

As economias dos países desenvolvidos se contraem violentamente. A do Reino Unido, por exemplo, encolheu 5,8% em março. Trata-se da pior queda desde o início do registro, em 1997. O preço do petróleo despencou para níveis de 1999 —e no final de abril chegou a ser negociado por valor negativo, quando alguns produtores tiveram que pagar para estocá-lo por falta de demanda.

Em 29 de março, a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) alertou que uma “prolongada crise por causa da pandemia pode rapidamente sobrecarregar as cadeias de suprimento de alimentos, uma complexa rede de interações envolvendo agricultores, insumos agrícolas, plantas de processamento, expedição, varejistas e outros”. E o carro não para de capotar.

No início os motoristas pensaram que seria apenas um solavanco, uma gripezinha que custaria apenas a vida daqueles passageiros menos necessários ao movimento do veículo. Mas logo ficou evidente que o acidente estava apenas começando.

Será que vamos girar por muito tempo ainda? Será que o tanque de gasolina explodirá? Morrerão todos os passageiros ou se salvará alguém? Se o carro parar de capotar, ainda funcionará? Ainda será possível dirigi-lo? E se pudermos dirigi-lo, deixaremos que os mesmos motoristas sigam no volante? Se sobrevivermos ao acidente, pretendemos manter o curso fatídico que nos trouxe até aqui? Na mesma velocidade?

As respostas que daremos a essas perguntas definirão os rumos da evolução da espécie. Estamos sob fortíssima pressão seletiva causada por nossas próprias ações, que reproduzem sofrimento humano e destruição da natureza em escala cada vez mais grotesca.

Infelizmente a retomada parcial, onde começou a ocorrer, não sugere grande mudança. Os empregos parecem os mesmos, e a estrutura piramidal do sistema ainda não entrou em revolução. É verdade que bancos e grandes empresas começaram a doar montantes bilionários, mas a crise exigirá muito mais do que isso.

Por mais improvável que pareça, nossos instintos ancestrais de acumulação e opressão precisam simplesmente desaparecer, sob pena de prejudicar irremediavelmente todos que vierem depois de nós. Já existem saber e riqueza em abundância para a instalação triunfal do bem-estar global.

Por outro lado, a manutenção do curso atual é evolutivamente suicida, e a Covid-19 deixa esse fato inteiramente nu.

Estamos doentes. Em janeiro de 2020 a demanda por petróleo chegou a 100 milhões de barris por dia (mb/d), a despeito dos insistentes alertas para a necessidade urgente de conter as emissões de carbono.

Como explica o líder indígena, ambientalista e escritor Ailton Krenak, ”considerar que uma tragédia como essa nos anuncia alguma novidade revela o quanto já estávamos perdidos”.

Estima-se que a demanda mundial em abril de 2020 foi 29 mb/d menor que a 2019. É muito menos, mas ainda é demais. Deve continuar caindo depois que a fratura na base do sistema —os combustíveis fósseis— se propagar por todas as suas camadas, levando à quebra generalizada de empresas e aos maiores níveis de desemprego desde 1929.

No Brasil o desemprego está em cerca de 12,2%, enquanto nos EUA chegou à incrível marca de 14,7%, máximo da série histórica iniciada em 1948.

O capitalismo predatório está colapsando. Toda a súcia neoliberal que propôs destruir o Estado para nutrir o mercado deu com os burros n’água —e agora precisamos do Estado mais do que nunca. Evidentemente o patriarcado oligárquico esperneia. Trump e Bolsonaro tentam forçar a retomada contra toda a evidência científica —e se queimam cada vez mais, pois dão murro em ponta de faca.

Em todo o planeta, as tentativas de retorno ao frenesi produtivo vêm fracassando retumbantemente. Infecções por Covid-19 voltaram a ocorrer na China, na Coreia do Sul e na Alemanha, que tiveram sucesso inicial na contenção, mas depois começaram a relaxar a quarentena. Como aponta com lucidez o biólogo Atila Iamarino, rumamos para uma longa e intermitente quarentena.

Enquanto não houver vacina ou tratamento eficaz da infecção, o vírus seguirá matando e apavorando. Enquanto faltarem EPIs (equipamentos de proteção individual), enfermeiros e médicos continuarão a morrer de máxima insalubridade. E enquanto não houver testes em massa com rastreamento de contatos, as tentativas de ligar o motor do carro em plena capotagem arriscam incendiar o veículo conosco dentro.

No Brasil do Povo Sofrido, a tentativa de carbonizá-lo avança sem pudores, pois, como aponta a escritora Djamila Ribeiro, “somos um país que nunca aboliu materialmente a escravidão”. Na explicação didática da rainha Elza N’Zinga, “A carne mais barata do mercado é a carne negra / Só cego não vê / Que vai de graça pro presídio / E para debaixo do plástico / E vai de graça pro subemprego / E pros hospitais psiquiátricos”.

Para grande parte da elite, importa é que o empregado sirva ao patrão —e se vai morrer por causa disso, paciência. Felizmente existem matizes de patrão. Isso explica porque a pandemia federal não tem vacina, testes nem distanciamento social, enquanto a pandemia estadual corre atrás do prejuízo e da fragilidade estrutural.

Faltam EPIs pois o Brasil se desindustrializou ao ponto da caquexia. Em abril, o número de enfermeiros contaminados pela doença chegou a 11 mil, enquanto o número de enfermeiros mortos triplicou em relação a março: 98 óbitos.

E vai piorar. No dia 4 de maio a União Europeia lançou uma ambiciosa iniciativa internacional para financiar o desenvolvimento de vacinas e tratamentos contra o coronavírus, mas o Brasil optou por não participar.

No dia 8 de maio registramos o segundo maior número de mortes diárias, atrás apenas dos EUA. Lá como aqui, morrem nesta crise muito mais pobres e negros do que pessoas brancas ou de classe média e alta. Ao que tudo indica, logo seremos campeões mundiais de mortes por Covid-19.

Não por acaso a eminente revista Lancet disse em seu editorial de maio que Bolsonaro é a maior ameaça que o Brasil sofre na resposta à pandemia. Nem o auxílio emergencial pífio de R$ 600 o governo federal conseguiu pagar direito, deixando a população faminta e, portanto, propensa a romper o distanciamento social e se contaminar.

Ecoa o clamor por impeachment do físico Moysés Nussenzveig: “Acuso Jair Messias Bolsonaro de genocídio premeditado!”. Ecoa a pergunta extrema da jornalista Eliane Brum: “É isso que diremos aos nossos filhos, que vamos esperar passivamente Bolsonaro nos matar a todos?”.

Calma, companheira! Também não é assim... Se o plano dos irmãos Metralha der certo, no final ainda haverá 01, 02, 03, 04 e 05...

Enquanto a casa cai, o Brazil fake de BozoNero curte seus raciocínios bugados, lacrados sob medida para confundir mentes e transferir responsabilidades.

Depois de sabotar acintosamente o distanciamento e assim empinar a curva epidemiológica, chegando ao cúmulo de promover aglomerações golpistas que provavelmente contaminaram seus próprios seguidores aloprados, o presidente declarou cinicamente: “Governadores e prefeitos que tomaram medidas bastante rígidas não achataram a curva”.

Sofisma faceiro do crápula que encontra eco na deficiência cognitiva adquirida por cerca de 30% da população, amplamente infectada pelas notícias falsas e discurso de ódio que emanam das igrejas anticristãs.

Mas em toda parte o negacionismo tem pernas curtas. Em Londres, o primeiro ministro Boris Johnson foi parar na UTI com Covid-19. Em Brasília, o “comandante Paulo”, militar reformado que convocou uma invasão do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal, foi parar na UTI com Covid-19 —e a invasão gorou.

Quanto aos pastores que misturam Jesus com arminha, aqueles que transitam entre o quarto e o sétimo círculos do inferno —ganância e violência—, espalha-se o pânico pelo fim do dízimo. Sua hipnose é bem mais difícil à distância.

Precisamos, portanto, reconhecer o ganho de perspectiva, enquanto o carro gira em câmera lenta. Quando os monstros saem da cripta, fica bem mais fácil reconhecê-los à luz do dia.

Dias antes de assumir o cargo, o sorumbático já ex-ministro da Saúde Nelson Teich fez a seguinte declaração: “se você se prepara demais, se estrutura demais e amanhã sai um tratamento, você fez um investimento enorme desnecessário [...] Porque, por exemplo, hoje você tem um número de ventiladores mecânicos que você precisa, aí de repente você dobra a sua quantidade de ventilador mecânico. O que você vai fazer com isso depois?”.

Em 27 de abril, cancelou a importação de 15 mil respiradores. Segundo o Ministério da Saúde, o fiasco ocorreu porque o fornecedor não conseguiu obter os aparelhos da China. A competição internacional pelos aparelhos está ferrenha, e o Brasil demorou muito a tentar obtê-los.

Em meados de maio a mortalidade diária por Covid-19 alcança quase quatro vezes mais pessoas do que o número total de novos respiradores que Teich conseguiu entregar em abril.

Para piorar nossa situação, o deseducado ministro da Educação, Abraham Weintraub, o delirante chanceler, Ernesto Araújo, e o arrivista deputado federal Eduardo Bolsonaro insultaram a China sem qualquer provocação, emulando o racismo de Trump na busca de bodes expiatórios para o desastre que eles mesmos fomentaram. A retaliação chinesa no Twitter logo chegou ao agronegócio —e só Confúcio sabe onde vai parar.

Esses três patetas prejudicam diretamente os interesses nacionais na hora mais grave, envoltos em bandeiras estrangeiras que competem impiedosamente conosco pela compra de respiradores chineses. Habitam os dois últimos círculos do Inferno: fraude e traição.

E caem mais máscaras. No dia 7 de maio, a secretária especial da Cultura, Regina Duarte, conseguiu derreter o que restava de sua combalida imagem em apenas 40 minutos de entrevista ao vivo. Fez pouco caso das mortes por Covid-19, passou pano para a tortura praticada na ditadura militar e então cantarolou animada: “Pra frente Brasil, salve a seleção, de repente era aquela corrente pra frente!”

Diante do olhar estupefato do jornalista Daniel Adjuto, emendou balançando alegremente os braços: “Não era bom quando a gente cantava isso?” Confrontada com a brutalidade dos fatos que tentou escamotear e com sua recusa de homenagear os artistas mortos por Covid-19, como o compositor Aldir Blanc, a atriz abriu o jogo: “Vocês estão desenterrando mortos. Vocês estão carregando um cemitério nas costas, vocês devem estar cansados, fiquem leves!”

A insensibilidade foi tamanha que a ex-namoradinha do Brasil acabou ouvindo da jornalista Daniela Lima um chamado à responsabilidade: “secretária, o país perdeu [hoje] 615 pessoas por Covid-19, dentre elas alguns artistas [...] Nós não estamos desenterrando mortos. Neste momento estamos enterrando uma série de brasileiros, dentre eles alguns dos seus colegas”. Inexorável. Inevitável. Pum.

Papelão ainda mais feio fez o médico e deputado federal Osmar Terra, considerado até recentemente pela mídia como interlocutor legítimo no debate sobre política de drogas e saúde mental. Desde março o emblemático político extremista vem mostrando todo seu despreparo científico ao fazer repetidas previsões otimistas sobre a Covid-19 em território nacional, todas erradas.

Ecoando Bolsonaro, Terra segue defendendo publicamente o uso da cloroquina para tratamento da infecção, embora os achados positivos iniciais, oriundos de experimentos in vitro, não tenham se confirmado in vivo, havendo inclusive um aumento do risco de morte por efeitos colaterais, como demonstrou um estudo recente publicado por pesquisadores da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado, Universidade do Estado do Amazonas, USP e Fiocruz.

Desmentido drasticamente pela realidade, Midas ao contrário, verdadeiro profeta de Nostrucamos, Osmar Terra nada mais tem feito do que praticar sem pudor a desonestidade intelectual pela qual se fez famoso nos últimos anos entre os especialistas em política de drogas, que tiveram o desprazer de debater com ele a urgente questão da legalização da maconha medicinal.

O desmascaramento de Osmar Terra como charlatão serve para repensar o imenso retrocesso que ele capitaneou na política de drogas e na psiquiatria, com abandono da redução de danos, escalada da violência policial e retorno aos manicômios.

Nosso 7 a 1 é sanitário, intelectual, moral, emocional e —por que não dizer— espiritual. Precisamos virar o jogo se não quisermos ver a nação degringolar de vez. Nosso país precisa se salvar, o mundo todo precisa de nosso Axé. Se o Brasil der errado, é todo o planeta que perde. E muito mais perderemos se continuarmos perdidos de nós mesmos.

Como têm defendido o Fórum do Amanhã e o Movimento 2022: o Brasil que Queremos, entre outras iniciativas, a saída desse atoleiro exige o resgate da alma brasileira no que ela tem de mais amoroso, solidário e criativo. Como tem defendido a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), é urgente pensar nosso futuro. Precisamos de um projeto de país.

E para quem acha que não temos mais chance, lembre-se novamente da China. No século passado o país sofreu seis períodos de fome extrema, que mataram dezenas de milhões de pessoas e levaram o Ocidente a considerá-la irremediavelmente subdesenvolvida. Entretanto, para descrença de muitos, o dragão milenar já se preparava para voar novamente. Em 1981 o cartunista Henfil publicou um livro anunciando com lucidez que a China avançava para recobrar relevância geopolítica. Dito e feito.

Investiu vigorosamente em ciência, educação, saúde e infraestrutura para conseguir, já na primeira década deste século, ultrapassar os EUA em participação no comércio mundial. Kung fu quer dizer “trabalho árduo”. Com planejamento, distribuição de renda e alta tecnologia, mas também com aumento da desigualdade, controle totalitário dos indivíduos e enorme impacto ambiental, a China vem gradualmente tomando dos EUA a hegemonia global.

Será que isso é bom para quem sonha com a volta do irmão do Henfil e com o fim da fome no Brasil? É o que me pergunto enquanto o carro dá mais uma volta no ar. Se não explodir, torçamos para que desacelere e estacione, mesmo que de cabeça para baixo. Precisaremos virá-lo para colocar as rodas no chão e então, se o motor ainda funcionar, teremos que responder à mais importante questão que temos pela frente: será que nos resta algum juízo?


Sidarta Ribeiro, neurocientista e fundador do Instituto do Cérebro da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), é autor de "O Oráculo da Noite: A História e a Ciência do Sonho" (Companhia das Letras).

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