Nostalgia do Império é fantasia reacionária do bolsonarismo, dizem historiadores

Para autores, visão histórica de apologistas do governo se baseia em interpretações ultrapassadas

Thiago Krause

Professor de história do Brasil colonial na Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro)

Paulo Pachá

Professor de história medieval na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro)

[RESUMO] Historiadores afirmam que a idealização do Império brasileiro promovida pelo bolsonarismo reflete um projeto essencialmente reacionário, que perpassa a sociedade há um século, cujos valores se articulam na ideia de ordem e hierarquia rígida, no catolicismo e na rejeição da mobilização democrática.

A história é uma arena dos conflitos sociais. Nela adentram apaixonadamente governos, partidos e movimentos, digladiando-se com virulência em torno de eventos e processos ocorridos décadas e séculos atrás. O que impulsiona esses embates não é, porém, o passado, mas o presente.

Longe de ser mera curiosidade, a visão de determinado grupo sobre o passado é um elemento central de seu projeto político. Logo, o estudo da imaginação histórica de uma ideologia é uma maneira privilegiada de filtrar as impurezas visíveis no noticiário cotidiano até alcançar o seu cerne.

O tesão bolsonarista pela ditadura militar de 1964 e seus torturadores já foi orgulhosamente exposto em cadeia nacional. Sobre esse fetiche não há muito mais o que dizer. Baseia-se em um negacionismo absoluto dos estudos sobre o período e é reflexo de um anti-intelectualismo generalizado e ressentido, que se manifesta também na negação da emergência climática, da pandemia do novo coronavírus e do racismo estrutural que caracteriza a sociedade brasileira. Menos discutida, mas mais interessante é a aproximação entre bolsonarismo e monarquismo.

Trata-se da mais recente manifestação da “nostalgia imperial” analisada por Ricardo Salles (o historiador, não o ministro) em obra genial. O Império, e mais especificamente o Segundo Reinado (1840-1889), é representado como um período de unidade nacional, afirmação internacional, estabilidade política, retidão moral e progresso econômico, tendo dom Pedro 2º (1825-1891) como seu epítome.

É uma visão que parte dos fracassos da República para erigir um contraexemplo idealizado, um que nos diz mais das aspirações conservadoras que sobre o que realmente ocorreu. Encontramos esse discurso já na Primeira República, mas é a partir da década de 1930 que ele se associa ao que há de mais conservador na política nacional.

Quando não ignorados, todos os aspectos negativos são colocados na conta do espírito do tempo e dos políticos civis, enquanto os avanços são uniformemente atribuídos à Coroa. Contra as insuficiências dos mandatários eleitos, apresenta-se a fantasia de um monarca sábio, em uma ânsia quase infantil por um pai bondoso. Seu efeito é perverso, colocando todo o protagonismo da história nas mãos dos governantes e minimizando a relevância da mobilização social —como se vê, por exemplo, na exaltação da “redentora” princesa Isabel em detrimento de Zumbi dos Palmares.

A base fundamental do Império foi, porém, a escravidão. Como há muito enfatizou Luiz Felipe de Alencastro, a defesa do tráfico atlântico de africanos escravizados foi central tanto na manutenção da unidade na Independência quanto no Regresso Conservador, que reprimiu violentamente as rebeliões populares do período regencial (1831-40) e consolidou o Estado centralizado. A ordem tão elogiada pelos monarquistas foi obtida e mantida às custas de rios de sangue.

A preservação da escravidão por tanto tempo quanto possível contra os ventos adversos do cenário internacional, das condições materiais e da pressão popular foi a razão de ser dos governos imperiais até o final da década de 1880, quando não foi mais possível resistir ao tsunami abolicionista. Incapaz de capitalizar o apoio popular advindo do 13 de maio após uma vida de simbiose com o cativeiro, a monarquia caiu em 1889.

O horror da escravização de milhões de seres humanos deveria ser suficiente para impedir qualquer tentativa de valorização do Império, mas sua folha corrida é muito mais longa. Os projetos imperiais de modernização conservadora buscavam preservar o latifúndio e a agricultura de exportação. O resultado foi um crescimento econômico pífio que ampliou as desigualdades sociais e regionais e deixou o Brasil ainda mais para trás, em comparação com as economias avançadas.

No mesmo sentido, a consolidação do Império ocorreu por meio da restrição da cidadania e do fortalecimento das oligarquias, movendo-se em sentido oposto ao dos países mais democráticos do Oitocentos e abrindo um fosso que ainda não foi plenamente transposto.

Entretanto, o Império interessa ao bolsonarismo mais como síntese dos seus pretensos valores —religião, ordem e família— do que como projeto político definido. É, portanto, apenas uma manifestação da tentativa de dotar um movimento liderado por uma família presidencial iletrada de um verniz de legitimidade intelectual.

Atuantes tanto nas redes sociais quanto no governo, seus apologistas —capitaneados pelo youtuber Olavo de Carvalho— recorrem à história do Brasil para revelar elementos que expressariam, em sua visão, a essência do país e dos brasileiros. O projeto bolsonarista é apresentado então como uma realização dos mais verdadeiros anseios da nação. Em consequência, nenhuma alteridade ou projeto político alternativo deve ser tolerado, pois seria antinatural.

Em termos gerais, a pedra angular da imaginação histórica bolsonarista é o conceito de civilização ocidental, que teria atingido seu auge aqui em uma monarquia transplantada da Europa. Entretanto, trata-se de uma ficção moderna que seria incompreensível durante a Antiguidade ou a Idade Média, como demonstrou o filósofo Kwame Anthony Appiah.

Para o bolsonarismo, esse é um termo amorfo que promove uma identidade baseada em elementos tão díspares quanto “filosofia grega, direito romano e religiosidade judaico-cristã”, conforme a formulação do deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP), recém-convertido à oposição.

A legitimação do pertencimento do Brasil à “civilização ocidental” seria dada então por um suposto direito de herança, decorrente de uma caracterização do país como produto exclusivo da conquista e da colonização portuguesa. Um desatino, elaborado de forma cristalina pelo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

A centralidade da ideia de civilização ocidental para a visão de história bolsonarista explica tanto as frequentes referências ao período medieval por apologistas, como o assessor especial da Presidência Filipe Martins, quanto sua popularidade entre o movimento mais amplo, sobretudo nas redes sociais.

Trata-se de uma visão fantasiosa da Idade Média europeia que pretende caracterizar o período como tendo sido essencialmente branco, patriarcal e cristão. Ao contrário, as últimas décadas de pesquisa têm demonstrado como o Medievo foi marcado pela diversidade étnica, religiosa e de gênero.

Em meio a essa falsificação do passado, o bolsonarismo desenvolve também uma fantasia militarista e islamofóbica que caracteriza as Cruzadas como um movimento de defesa do Ocidente. As Cruzadas foram movimentos militares com objetivos diversos, algumas vezes contraditórios. Tanto as alianças de grupos cristãos com muçulmanos quanto os conflitos entre cristãos —como o saque da Constantinopla cristã pelos cruzados em 1204— demonstram bem essa diversidade e a impossibilidade de sustentar uma oposição simplista entre Ocidente cristão e Oriente muçulmano.

Contudo, a peça principal que o bolsonarismo busca na Europa medieval é outra: o suposto domínio absoluto do cristianismo, reproduzido na América portuguesa, reiterado no Império e rompido apenas pela malfadada República.

O principal resultado dessa visão essencialista é o apagamento de outros aspectos absolutamente centrais para a construção da nação brasileira. Ao privilegiar o papel dos portugueses, a imaginação histórica bolsonarista ignora a importância dos quase 5 milhões de africanos escravizados trazidos para o Brasil e dos povos originários que já habitavam o território que séculos depois viria a constituir o nosso país.

Da mesma forma, essa perspectiva ignora tanto as experiências religiosas de muçulmanos, judeus e africanos subsaarianos presentes no Brasil e na Península Ibérica quanto as perseguições que sofreram em prol de uma representação idílica da homogeneidade cultural.

No presente, a percepção do Brasil como uma nação construída fundamentalmente por brancos de origem europeia manifesta o racismo estrutural que tenta manter afro-brasileiros e indígenas há séculos na base da pirâmide social, embora esses grupos componham a maioria da população. Igualmente, ao promover a ideia de que o cristianismo é a verdadeira essência nacional, legitima os ataques e perseguições às demais religiões, em especial àquelas de matriz africana.

Em termos gerais, cabe reconhecer que as falsificações da imaginação histórica bolsonarista não são construções originais desse movimento político. Ao contrário, estamos diante de uma recuperação simplificada de perspectivas e interpretações produzidas por uma historiografia velha já um século.

Por um lado, esse reconhecimento deixa explícito o caráter retrógrado do próprio bolsonarismo. Por outro, trata-se de uma demonstração clara do desenvolvimento da própria historiografia, que deixa de ser serva e apologista do Estado-nação para se transformar na disciplina dedicada ao estudo das sociedades humanas no tempo, conforme Marc Bloch (1886- 1944).

Assim, a imaginação histórica bolsonarista é uma bricolagem de fragmentos de interpretações descartadas ao longo do desenvolvimento desse campo do saber: é, em suma, uma visão do passado recolhida na lata de lixo da historiografia.

Como esta breve análise da imaginação histórica bolsonarista demonstra, esse projeto político tem um caráter essencialmente reacionário. Seus valores se articulam em torno de três pilares: a ordem, em oposição à mobilização característica do processo democrático; a defesa intolerante das hierarquias tradicionais de classe, raça e gênero, em reação às transformações sociais ocorridas nos últimos anos; e uma visão idealizada do passado nacional, em negação do desenvolvimento historiográfico das últimas décadas.

Sua força advém, porém, do fato de que esses elementos são produtos da sociedade brasileira —de nossa democracia frágil, das opressões estruturais que constituem nossa sociedade e das dificuldades para enfrentar nossa própria história.

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