Caminhada recupera herança negra de bairro oriental de São Paulo, que faz 467 anos

Iniciativa na Liberdade se contrapõe ao apagamento da memória afro-brasileira pelo racismo

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Daniel Avelar

Repórter da Folha e mestre em jornalismo pelo programa Erasmus Mundus

[RESUMO] Caminhada promovida por empreendedores negros revisita a herança afro-brasileira do bairro da Liberdade, no centro de São Paulo, pondo em relevo mecanismos que perpetuam narrativas racistas na paisagem urbana da cidade que comemora 467 anos nesta segunda (25).

Quem visita o bairro da Liberdade, em São Paulo, pode até esquecer que está no centro da maior cidade da América do Sul. Em meio aos postes vermelhos que caracterizam as ruas da região, há incontáveis restaurantes, lojas e templos abertos por imigrantes de origem japonesa, chinesa e coreana.

Os primeiros residentes asiáticos chegaram à Liberdade há cerca de um século em busca de uma vida melhor e transformaram o bairro em polo turístico e símbolo do cosmopolitismo paulistano.

No entanto, muitos visitantes ignoram que os primeiros moradores da Liberdade não foram imigrantes asiáticos, mas negros e indígenas escravizados tentando sobreviver, às margens de uma vila de colonizadores portugueses. O bairro, em parte erguido sobre um antigo cemitério de negros e indígenas, conta com mais moradores negros que amarelos —ainda assim, é difícil identificar resquícios da herança afro-brasileira na paisagem local.

A praça da Liberdade, que hoje abriga barraquinhas de comida de rua e uma estação de metrô, era originalmente chamada de largo da Forca. Em 1821, o cabo negro Francisco José das Chagas, conhecido como Chaguinhas, foi condenado à morte após liderar uma rebelião por salários melhores.

Os carrascos tentaram enforcar Chaguinhas três vezes, mas a cada vez a corda se rompia, e as pessoas que assistiam à execução passaram a entoar gritos de “liberdade”. Ele acabou sendo espancado até a morte, e seu corpo foi enterrado em uma capela localizada até hoje no fundo da rua dos Aflitos. Chaguinhas se tornou um mártir dos pretos da região, e o bairro foi batizado de Liberdade em sua homenagem.

Apesar de ter me mudado para São Paulo há mais de oito anos, eu não conhecia a história de Chaguinhas até participar da Caminhada São Paulo Negra, que revisita a herança afro-brasileira nas ruas do centro da capital paulista. Criada em 2018 por um grupo de jovens empreendedores negros, a caminhada convida os participantes a desenvolver um olhar crítico sobre os cartões-postais da cidade, desafiando narrativas hegemônicas a respeito do passado colonial brasileiro.

“São Paulo é a cidade com a maior população negra do Brasil, em termos absolutos. Somos cerca de 4 milhões dos 12 milhões de residentes da cidade”, diz Guilherme Soares Dias, guia turístico e fundador da Black Bird Viagem, agência de turismo afrocentrado que organiza a caminhada.

“Os nomes de ruas, praças e monumentos de São Paulo contam uma história branca”, afirma. “Nossa caminhada recupera a história negra da cidade, que tem sido em grande parte apagada da arquitetura urbana, bem como do currículo escolar e da mídia.”

Além de abordar o passado e o presente da violência contra negros em São Paulo, a caminhada também destaca histórias de resistência contra o racismo. Quem participa do passeio aprende sobre personagens negros que marcaram a cidade, como o arquiteto Joaquim Pinto de Oliveira, conhecido como Tebas, que inovou a construção de fachadas de igrejas na cidade, a escritora Carolina Maria de Jesus, cuja obra narra a vida nas favelas paulistanas, e o advogado e jornalista Luiz Gama, que ajudou a libertar centenas de negros escravizados durante a sua vida.

Dias diz que a maior parte dos participantes da caminhada não é de turistas, mas de moradores de São Paulo que buscam redescobrir a história da sua cidade. “Nós nos acostumamos às narrativas contadas pelos colonizadores europeus”, diz Raquel Soto Raffaelli, que participou do passeio em novembro. “A versão dominante sobre o passado brasileiro contém imprecisões históricas e ajuda a manter a supremacia branca viva.”

Eu cresci em São Carlos, uma cidade localizada em uma região predominantemente branca e conservadora no interior paulista. Por ter sido criado nesse ambiente, por muito tempo foi fácil para mim evitar encarar meus privilégios enquanto branco.

Na escola, onde a maior parte dos meus colegas e professores eram brancos, eu aprendi uma versão da história brasileira a partir de perspectivas europeias. Eu li livros que retratavam os navegadores portugueses como heróis corajosos ou que imaginavam encontros românticos entre colonizadores brancos e mulheres indígenas.

Tenho a memória de um passeio escolar a uma fazenda turística que, como muitas na minha região, explorava trabalho escravo para exportar café. Eu devia ter 8 ou 9 anos. Na fazenda, produzimos um fotolivro que retratava o dia a dia na casa-grande. Em uma das fotos em preto e branco, um colega posava em roupa de época fingindo tocar piano, reencenando o lazer dos senhores de escravo.

O guia do local também nos levou para ver os terreiros de café e nos contou sobre a rotina de torturas na senzala, mas não pediu que nos colocássemos no lugar dos negros escravizados.

O distanciamento entre nós, estudantes brancos, e aquelas pessoas trabalhando na lavoura não era acidental. Tampouco o era o conhecimento que nos foi passado sobre a vida íntima dos senhores de escravo. Aquela atividade buscava normalizar o que nossos antepassados brancos haviam feito e nos fazer evitar questionamentos inapropriados sobre a responsabilidade das nossas famílias.

Levei anos até entender que, sem a herança que meus pais receberam de seus antepassados donos de escravos, eu dificilmente teria tido acesso a uma boa escola particular, a uma vaga em universidade de elite ou à minha profissão atual. Minha vida seria outra sem a herança da escravidão.

Aos 17 anos, me mudei para São Paulo. Ao caminhar pelas ruas da minha nova cidade, pude notar evidências das mesmas narrativas supremacistas brancas que eu aprendi na escola. As ruas e os monumentos da cidade enaltecem os bandeirantes e os jesuítas, retratados como desbravadores que ajudaram a transformar São Paulo na “locomotiva da nação”. Pouco se fala, contudo, de seu papel no genocídio contra tupis, guaranis e outras etnias indígenas.

Antes de participar da Caminhada São Paulo Negra, eu tinha consciência das limitações da educação que recebi na escola e era cético a respeito da versão branca da história contada pelos monumentos da cidade. Isso, porém, não era suficiente para desconstruir a mentalidade racista que me foi ensinada desde cedo. Aprender a história da minha cidade a partir da perspectiva da população negra me ajudou a entender que há formas alternativas de ver o mundo que não estão centradas na branquitude.

“A supremacia branca é uma forma de hegemonia, ou seja, uma forma de dominação que é exercida não apenas por exercício bruto do poder, pela pura força, mas também [...] pela formação de consensos ideológicos”, escreve o professor e colunista da Folha Silvio Almeida no livro “Racismo Estrutural”. Nesse sentido, as narrativas brancas reforçadas pela arquitetura urbana fariam parte de um “complexo cultural em que as desigualdades, a violência e a discriminação racial são absorvidas como componentes da vida social”.

Na noite de 19 de novembro de 2020, véspera do Dia da Consciência Negra, João Alberto Freitas, 40, homem negro e pai de quatro filhos, foi às compras em uma loja do Carrefour em Porto Alegre. Após um suposto desentendimento com funcionários da loja, Freitas foi atacado e espancado até a morte por dois seguranças brancos, um deles um policial militar de folga.

O crime desatou uma onda de protestos pelo país e gerou uma campanha de boicote contra o Carrefour, organizada pela Coalizão Negra por Direitos, que reúne cerca de 150 entidades do movimento negro.

Após a morte brutal de Freitas, o presidente Jair Bolsonaro fez uma publicação nas redes sociais dizendo ser daltônico e afirmou que “não adianta dividir o sofrimento do povo brasileiro em grupos”. Seu vice, Hamilton Mourão, disse que “não existe racismo no Brasil”.

A ideia de um Brasil pós-racial não é amparada pelos fatos. Negros com diploma universitário ganham 31% menos que pessoas brancas com o mesmo grau de instrução. Pretos e pardos são 67% da população encarcerada, embora representem 55% da população geral. Em 2018, a polícia matou 6.220 pessoas, um recorde, e 75,4% das vítimas eram negras.

A Caminhada São Paulo Negra também foi alvo da polícia. Em outubro, quando a Black Bird retomou o passeio após um hiato de sete meses devido às restrições da pandemia, policiais abordaram o grupo e interrogaram os guias. De acordo com Dias, a polícia disse que havia recebido um relatório de inteligência que indicava que o passeio era uma manifestação do movimento negro. Mesmo após os guias mostrarem suas credenciais, os agentes seguiram e filmaram a caminhada por aproximadamente três horas.

A Black Bird acionou a Ouvidoria da PM e a Defensoria Pública para obter explicações sobre o episódio. Um representante da corporação negou que a operação tivesse sido motivada por racismo, embora reconhecesse que nenhum outro passeio turístico tivesse passado por experiências parecidas com as forças de segurança. Em dezembro, um grupo de policiais participou de uma edição da caminhada.

“A polícia fracassou em reconhecer que um grupo de pessoas falando sobre história negra podia ser um passeio turístico”, diz Dias. “Eles não conseguiram ver que os pontos que nós visitamos como lugares de interesse turístico.” Ele relata ter se sentido intimidado durante a operação policial. “Nós estávamos abordando questões relacionadas ao racismo estrutural ao mesmo tempo que estávamos vivenciando uma situação de racismo.”

Dias diz que o apagamento da herança afro-brasileira na arquitetura urbana reflete a falta de representação negra nas instituições políticas da cidade —apenas 20% dos vereadores paulistanos são pretos ou pardos. Ele reconhece que houve progresso nos últimos anos graças à pressão de entidades do movimento negro. Por exemplo, foi instalada uma estátua em homenagem a Tebas, o arquiteto negro, na praça da Sé, e há planos para a criação do Memorial dos Aflitos na Liberdade.

No entanto, representatividade não é suficiente. “O antirracismo deveria ser um valor fundamental da nossa sociedade”, afirma. “Não basta que São Paulo reconheça a sua história negra. Acima de tudo, nós queremos viver em uma cidade que valorize a sua comunidade negra hoje, combatendo a desigualdade e o racismo.”

Caminhada São Paulo Negra

  • Quando Seg. (25) e 28/2, às 10h
  • Onde Ponto de encontro: Igreja Santa Cruz das Almas dos Enforcados (praça da Liberdade, 238)
  • Preço R$ 60
  • Ingressos diaspora.black/experiencias
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