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Dirce Waltrick do Amarante

Reedição da tradução pioneira de 'Ulisses' não está à altura do romance

Livro cortou trechos de análise de Augusto de Campos e traz guia de leitura bastante superficial

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Dirce Waltrick do Amarante

Tradutora e professora do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). É autora, entre outros, de “As antenas do caracol: notas sobre a literatura infantojuvenil” e “Pequena biblioteca para crianças: um guia de leitura para pais e professores”.

[RESUMO] Às vésperas do centenário de publicação de "Ulisses", primeira tradução do romance no Brasil, lançada em 1966 por Antônio Houaiss, volta às livrarias. Nova edição, contudo, decepciona ao cortar trechos de texto de orelha de Augusto de Campos e excluir esquema de análise da versão original, incluindo em seu lugar um "guia de leitura" superficial que desconsidera pontos essenciais do livro.

"Ulisses", do irlandês James Joyce, foi publicado pela primeira vez em 2 de fevereiro de 1922, no aniversário de 40 anos do escritor, graças em grande parte à editora norte-americana Sylvia Beach, que aceitou lançar o livro, o que implicou lidar com o autor temperamental e a família dele, a qual Beach acabou "adotando".

A relação entre a editora e o escritor pode ser aferida nas cartas que foram trocadas por eles. As de Joyce para Beach já estão disponíveis em livro e, agora, a correspondência dela para ele, de 1921 a 1929, acaba de ser publicada pela Brill, Rodopi, em organização de Ruth Frehner e Ursula Zeller, sob o título "Your Friend if Ever You Had One – The Letters of Sylvia Beach to James Joyce (sua amiga se é que algum dia teve uma – cartas de Sylvia Beach para James Joyce), frase com que a editora se despediu de seu autor em uma das correspondências.

Ano que vem, "Ulisses" completará cem anos e, no Brasil, já foi dada a largada para as comemorações do centenário com a reedição do romance na tradução pioneira de Antônio Houaiss, publicada em 1966. Hoje contamos com outras duas traduções da odisseia joyciana para o português: a de Bernardina da Silveira Pinheiro, de 2005, e de Caetano Galindo, de 2012.

Uma quarta será publicada em 2022 pela Ateliê Editorial, organizada por Henrique Xavier e assinada por diferentes tradutores. Haverá também uma reedição da tradução de Galindo, revista e com novos paratextos. O ano promete ser agitado para os fãs de Joyce e da literatura de um modo geral.

Mas voltemos à tradução de Houaiss, que não é só histórica, como, ainda hoje, é reverenciada. Por isso, começar as comemorações do centenário com sua reedição parece (ou parecia) ser uma boa ideia e uma justa homenagem ao tradutor intrépido.

Vale lembrar que a primeira publicação de "Ulisses" em português teve texto de orelha de Augusto de Campos, para quem "a divulgação deste livro é capaz de contribuir, e muito, a curto e longo prazo, para o soerguimento qualitativo da nossa prosa que, salvo raras exceções, ainda não se apropriou do legado da revolução joyciana". Só essa observação renderia um longo debate: nossa literatura já teria se apropriado da "revolução joyciana"?

A recém-lançada reedição da tradução de Houaiss pela Civilização Brasileira reproduz o texto de orelha do tradutor e poeta concretista, mas, cabe destacar, com um corte significativo. É o primeiro sinal de que a festa pode não acabar bem. Qual teria sido a razão desse corte?

Por que a editora não reproduziu a orelha histórica de Augusto na sua integridade e não aproveitou para acrescentar à edição outros tantos textos, três para ser mais precisa, que o poeta escreveu sobre a versão brasileira de "Ulisses", nos quais analisa pormenorizadamente a tradução de Houaiss? Esse seria um material interessantíssimo para estudiosos da tradução e daria o peso histórico, numa data histórica, a essa publicação.

Caricatura do escritor irlandês James Joyce, criada por Cesar Abin - Reprodução

Contudo, o corte parece ser o grande protagonista. Além do texto de orelha incompleto, extirparam do volume o esquema de análise de Carlo Linati, que acompanhava as edições da tradução de Houaiss.

Trata-se de uma tabela, elaborada pelo próprio Joyce, que vincula cada capítulo de "Ulisses" a um episódio da "Odisseia", poema épico de Homero que "norteia" o romance. A tabela também fala das técnicas literárias, das principais referências encontradas em cada capítulo etc.

Joyce elaborou esse esquema e o enviou a Linati, tradutor italiano que também acrescentou informações ao material, pois acreditava que assim talvez lançasse luz sobre o seu "maldito" e volumoso romance de "enorme complexidade".

No lugar do esquema de Linati, ao final dessa nova edição de "Ulisses" na tradução de Houaiss acrescentou-se um "guia de leitura" assinado por Ricardo Lísias.

Lísias tem por objetivo incentivar o leitor a "mergulhar" na leitura: "O leitor pode mergulhar no livro desarmado e buscar seus próprios sentidos. Um romance com essa grandiosidade permite inúmeros significados e não fica restrito a essa ou aquela interpretação". A intenção é boa e, sem dúvida alguma, é correto afirmar que o romance comporta diferentes leituras, afinal, toda leitura, vale lembrar, é "autobiográfica".

O problema é que o "guia" proposto fica restrito a uma interpretação, a do próprio Lísias, que resume o enredo (aliás, o enredo de "Ulisses" não é necessariamente o protagonista), chegando por vezes a conclusões precipitadas.

Portanto, em vez de dar subsídios para que o leitor avance sozinho na leitura, ele apenas recria a trama, acrescentando algumas opiniões pessoais. Isso ocorre, por exemplo, quando afirma que, no primeiro capítulo, "tudo descamba para uma espécie de besteirol preconceituoso e ilustrativo de algumas questões da época" e cita a seguinte fala: "Sou um britânico, é verdade ​—dizia a voz de Haines—, e isso me sinto. Nem quero ver a minha terra tombar nas mãos dos judeus alemães tampouco".

É bem verdade que essa passagem ilustra os temas candentes de uma época; o problema, contudo, é que, ao definir esse excerto como "besteirol", Lísias poderá induzir o leitor a não dar atenção à discussão sobre a relação entre a Irlanda (colônia britânica) e a Inglaterra e à questão dos judeus na Europa.

Estátua de James Joyce (1882-1941) em Dublin, na Irlanda - Margarete Magalhães/Folhapress

Esses são assuntos centrais na obra, que tem como protagonista, a propósito, um judeu, Leopold Bloom, informação que não consta do guia.

Vale lembrar ainda que, para Joyce, "Ulisses" "é um épico de duas raças (Israel – Irlanda) e ao mesmo tempo o ciclo do corpo humano, bem como uma historiazinha de um dia (vida)... É também um tipo de enciclopédia".

Particularmente, não acredito que livro algum precise de guia de leitura; isso não significa, contudo, que esse tipo de proposta não tenha valor. De fato, tem, principalmente quando levanta questões importantes a respeito da obra sem que, em momento algum, leve o leitor pela mão mostrando o caminho que "deve" ser seguido.

"Ulisses" é legível, só exige do leitor um outro tipo de leitura, que implica dar a mesma atenção à linguagem e à trama.

No "guia" que acompanha a nova edição, não há qualquer menção mais acurada a respeito das epifanias, tão importantes para Joyce, nem mesmo um destaque aos monólogos interiores que perpassam o livro antes de desaguar no famoso monólogo final de Molly Bloom, mulher do protagonista, que, como todas as personagens do romance, é complexa, paradoxal, ou seja, humana.

Lísias parece, contudo, vê-la como Leopold Bloom a vê: uma mulher com poucos dotes intelectuais, para quem ele também compraria "As Doçuras do Pecado", "um livro de estilo literário menor". Porém Molly é muito maior do que isso, e não é à toa que Joyce lhe deu a palavra final.

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