Brasil não podia deixar de assinar acordo por 20 mil toneladas de carne, diz ex-negociador do país

Regis Arslanian acredita que tratado tem potencial para trazer maior credibilidade para o Mercosul

Ricardo Della Coletta
Brasília

Regis Arslanian, diplomata brasileiro que chefiou as negociações com a União Europeia entre 2002 e 2006, afirmou à Folha que o acordo assinado nesta sexta-feira (28) "vai dar uma dimensão maior para o Mercosul".

“Talvez as condições de acesso a mercado e os temas de tarifas não sejam os melhores possíveis. Mas o importante não é mais a questão de tarifa, mas a econômica”, diz Arslanian.

O diplomata aposentado afirma que no passado as conversas não foram adiante, entre outras razões, pela resistência dos europeus de abrir cotas maiores para produtos agrícolas do Brasil e dos outros países do Mercosul. 

Questionado se o Brasil e os demais sócios do bloco sul-americano, ao aceitarem uma cota de carne bovina menor do que já foi oferecida pela União Europeia anos atrás, não estariam cedendo demais, Arslanian argumentou que esse tema não tem mais a mesma importância. 

“Na minha época, 20 mil ou 30 mil toneladas de etanol, carne ou açúcar era muito. Hoje em dia isso não cabe. Você não pode deixar de fazer um acordo por conta de 20 mil ou 30 mil toneladas de carne. Isso é um navio do Mercosul para a Europa”, afirma. 

“Nós deixamos de fechar acordos antes por conta de cotas agrícolas. Isso não tem mais sentido para nós. Por conta da situação privilegiada da agricultura. E mais do que isso, por conta da dimensão de um acordo como esse, que vai nos trazer mil outros benefícios”, acrescenta. 

O ex-negociador credita boa parte da conclusão do acordo ao que chamou de “espírito liberalizante” tanto no Brasil do governo Jair Bolsonaro quanto na Argentina de Mauricio Macri. 

“Faltava esse espírito mais liberal e essa ambição maior do Mercosul de estabelecer uma interação econômica com a União Europeia que não se limitasse a acesso de mercado”, diz. 

As tratativas com os europeus começaram no final da década de 90.

Segundo Arslanian, no início das conversas a Europa estava interessada em fechar um acordo com medo de perder mercado no continente, em razão da possibilidade de formação da Alca (Área de Livre Comércio das Américas).

Com o fim do projeto capitaneado pelos Estados Unidos, a disposição dos europeus também arrefeceu, lembra Arslanian.

Ele diz que havia interesse no início do governo Lula de levar o tema adiante, mas num escopo de abertura comercial muito mais limitada.

As negociações pararam em 2005 e passaram anos adormecidas. Uma visão mais protecionista no governo Dilma Rousseff também impediu a retomada a sério das tratativas, diz Arslanian. 

“Havia uma visão mais protecionista, o governo era contrário”, diz.  “A coisa voltou a ter mais impulso político com o governo Temer e com o governo atual.”

Na visão do diplomata aposentado, o acordo de livre comércio tem potencial para trazer “maior credibilidade para o Brasil e para o Mercosul”. 

“Os empresários preferem fazer seus negócios com os países onde existem acordos, que dão cobertura e conforto maior para os negócios. “[O Mercosul] será um bloco que tem um acordo de livre comércio com a União Europeia, o maior do mundo. Mais do que comércio e integração, eu acho que é um fator de credibilidade do país e do Mercosul. Isso se traduz em mais investimentos e negócios”, avalia. 

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