Descrição de chapéu
Luiz Carlos Trabuco Cappi

Joseph Safra era um banqueiro de vocação

Foi um ícone entre seus pares pela liderança silenciosa que exercia, baseado na credibilidade

Luiz Carlos Trabuco Cappi

Presidente do Conselho de Administração do Bradesco

O nome de Joseph Safra se inscreve na notável geração de banqueiros brasileiros que empreenderam desde cedo, cresceram pelo talento e intuição para os negócios, e venceram mantendo o modo de vida discreto e reservado.

Uma estirpe, da qual também fizeram parte homens como Amador Aguiar, Walter Moreira Salles, Olavo Setúbal, Lázaro de Mello Brandão e Aloizio Faria, que nos deixaram no curso deste século 21.
Esse grupo, formado por banqueiros de vocação, foi a referência de que confiar no Brasil sempre dará certo.

Safra, falecido nesta quinta-feira (10), aos 82 anos, foi um ícone entre seus pares pela liderança silenciosa que exercia, baseado na credibilidade.

O banqueiro Joseph Safra fala ao telefone
O banqueiro Joseph Safra, em imagem de 2002 - Pascal Guyot - 21.nov.02/AFP

Com seus gestos comedidos, sorriso econômico e palavras escolhidas, praticava no dia a dia uma agilidade amplamente reconhecida para os negócios. Mais de uma vez, em disputas por posições cobiçadas por concorrentes internacionais, surpreendeu o mercado. Foi assim em novembro de 2014, quando o Grupo Safra anunciou a compra do emblemático edifício da City de Londres, o The Gherkin, com seus 41 andares futuristas. Além dos lucros que projetou sobre o negócio em si, ele sabia que o lance espetacular seria a consolidação da marca Safra em um dos pilares do capitalismo global.

Aprendera em família, a partir do pai, Jacob, fundador em 1955 do Banco Safra, que agregar pontes de lucratividade ao próprio negócio nunca seria demais.

O Sr. José que nos deixou combinou estratégias de crescimento na gestão de patrimônios e a especialização no atendimento de pequenas e médias empresas, ganhando a confiança da clientela pelo conservadorismo e eficiência.

Conquistou mais que fortuna pessoal. Dedicou-se a causas sociais, destacou-se com a comunidade judaica no Brasil. Contribuía para uma série de entidades sociais e cultivou especial apreço em construir e modernizar hospitais, creches, museus e templos religiosos. De gosto refinado, era um apaixonado pelas artes, às quais apoiava como reservado mecenas.

Homens como Joseph Safra são raros.

O formidável crescimento do mercado financeiro nas últimas décadas e as mudanças econômicas pela introdução da tecnologia nos modelos de negócio gerou uma nova classe de banqueiros —e de empresários. Agora, são profissionais que saem das escolas de negócios e administração, especialistas em marketing, em finanças, em análise de risco, em mercados globais, e, sobretudo, focados na arte de fazer render a liquidez dos clientes.

O comportamento também difere. Fazem "lives", presidem encontros numerosos, ocupam a mídia.

É natural e positivo que assim seja. São novos tempos e o público julga os administradores de seus recursos por meio de seus posicionamentos e resultados objetivos.

Vivemos a era da transparência, dos modelos matemáticos, algoritmos e técnica.

Por isso, é preciso valorizar e homenagear essa geração de banqueiros brasileiros, exemplos de que o Brasil fomenta inúmeras histórias empresariais de sucesso.

Devemos a esses banqueiros a criação das grandes marcas bancárias de hoje, todas elas vencedoras ao longo de várias décadas de construção. Eles foram artistas, que nos deixaram um legado de solidez e cultura da modernidade, fatores que viabilizaram o caminho para os pesados investimentos que fazemos ano após ano em tecnologia e especialização de pessoas.

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