Hospital Sírio Libanês concilia filantropia e medicina de ponta em SP

Antes de se tornar referência, hospital teve de esperar décadas até iniciar atividades; prédio ainda em construção abrigou escola de cadetes do exército

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São Paulo

Na prática, não é um centenário na acepção cronológica do termo. Mas é como se fosse, pois o projeto que deu origem ao Hospital Sírio Libanês está completando 100 anos. Um século complexo, que requer um resumo histórico.

Sírios e libaneses não vieram para o Brasil num sistema de imigração subsidiada, para trabalhar em lavouras. Chegaram no fim do século 19 por conta própria, optando pelo único ramo de negócio que lhes garantiria independência: o comércio.

A ideia era fazer um pé de meia e retornar, mas se deram tão bem que aqui fizeram família. A comunidade libanesa no país é hoje três vezes maior que a população do Líbano.

Muitos foram precursores do comércio popular, dos parcelamentos e das promoções, e aqui fizeram fortuna. Alguns chegaram a dividir os terrenos mais nobres da Avenida Paulista com os barões do café.

Por volta de 1920, outra leva de imigrantes veio se juntar à colônia sírio-libanesa em São Paulo: profissionais liberais, incluindo médicos.

Da turma de 1919 da Faculdade de Medicina da USP, apenas um dos formandos era filho de um imigrante libanês da primeira leva. No começo dos anos 1990, dos cinco membros titulares do Conselho Administrativo do Hospital das Clínicas, quatro eram descendentes de sírios e libaneses.

Nesse contexto, um hospital fazia todo sentido.

Dona Adma Jafet é hoje nome de rua —a rua do Hospital Sírio-Libanês. Mokdessi é seu sobrenome de solteira: o Jafet vem da união com o empresário Basílio, que chegara ao Brasil antes da proclamação da República e aqui enriquecera. Ele conheceu Adma em uma das viagens que fazia regularmente à terra natal.

Recém-casados, Basílio trouxe Adma para o Brasil —e esse retorno seria fundamental para a existência do Sírio-Libanês. Perspicaz, detectou a influência e a contribuição dos estrangeiros a essa nova São Paulo. Eles marcavam presença com obras variadas, inclusive hospitais.

Ingleses (Hospital Samaritano), alemães (Oswaldo Cruz), italianos (Matarazzo) e portugueses (Beneficência) já haviam deixado sua marca na área da saúde. E quanto aos imigrantes árabes? Por que não reforçar seus compromissos com a sociedade, como uma prova de gratidão pelo acolhimento recebido, por meio de uma medicina de alto nível?

No dia 29 de novembro de 1921, data oficial da inauguração (pelo menos do projeto) do Hospital Sírio-Libanês, dona Adma reuniu algumas senhoras da colônia sírio-libanesa em sua mansão no bairro do Paraíso e lançou a pedra fundamental de “um hospital digno da grandeza de São Paulo”.

A recém-criada Sociedade Beneficente de Senhoras lançaria o primeiro “fund raising” de São Paulo. Um livro de ouro foi aberto naquela noite.

Onde seria esse hospital? Para estar “à altura de São Paulo”, deveria ser “central, grande e permitir expansões”. A escolha recaiu numa colina do bairro da Bela Vista, abaixo da Avenida Paulista. Eram 17 mil metros quadrados na então chamada Rua da Fonte. A primeira etapa do sonho estava cumprida por 350 mil contos de réis. Se isso bastasse…

Daquela noite em 1921 até a inauguração do primeiro prédio do HSL, o cenário impôs múltiplos desafios. “A melhor arquitetura, os melhores equipamentos”, impunham as senhoras, que chegaram a convidar os dois idealizadores do prédio da Faculdade de Medicina da USP para colaborar.

Tudo caminhava rumo ao início da operação do hospital quando, em 1943, o prédio ainda não inaugurado oficialmente foi encampado pelo Governo do Estado de São Paulo para sediar a Escola Preparatória de Cadetes.

Um hospital novinho em folha virou quartel em plena Segunda Guerra. Adaptação complexa e evidentemente ruinosa para a proposta arquitetônica e científica.

Em 1945 a guerra acabou e os soldados continuaram ocupando o prédio. Mas, pela persistência do grupo de mulheres —que não havia se dispersado quase 40 anos depois de sua formação—, o prédio foi enfim recuperado em 1959.

Diz a lenda que a filha de dona Adma, a pragmática e ousada Violeta Jafet, que sucederia a mãe no comando da sociedade, deu uma cutucada num general em uma cerimônia qualquer. “Vocês precisam devolver nosso hospital, ele pertence à nossa coletividade”. Dona Adma chegou a enrubescer com a ousadia da filha diante da alta patente. Mas a carraspana deu certo.

Dois anos depois, como relembra Marta Schahin, atual presidente da Sociedade Beneficente de Senhoras do Hospital Sírio-Libanês, o dr. Daher Elias Cutait, professor de cirurgia digestiva da Faculdade de Medicina da USP e ícone da especialidade, realizava a primeira cirurgia no local, antes mesmo da inauguração oficial, em 1965, depois de uma reforma radical. Não havia sobrado pedra sobre pedra.

“Excelência médica, assistencial e conhecimento científico sempre foram parte da nossa história. Tanto que, em 1972, o Hospital Sírio-Libanês abriu a primeira UTI do Brasil e, em 2000, realizou a primeira telecirurgia guiada por robô do Hemisfério Sul”, diz Marta.

O dr. Daher foi convidado para ser o diretor clínico, na época o cargo máximo do HSL. Ficou no posto até sua morte, em 2001. Outro Cutait, também mestre na cirurgia do aparelho digestivo, assumiu o posto: seu filho Raul. “Meu pai convidou colegas da USP para trabalhar aqui e o Sírio-Libanês passou a ser um reduto onde professores tinham suas clínicas privadas. A evolução disso foi a criação do Instituto de Ensino e Pesquisa.”

Com o IEP, o Sírio deixou de ser exclusivamente um hospital de atendimento para ser também um centro de formação e especialização. Hoje recebe cerca de 30 mil profissionais por ano para treinamentos e cursos. Raul Cutait cita como exemplo um curso sobre câncer colorretal que comanda a cada dois anos.

Em 2021, foi online. “Tivemos 2.500 médicos de 22 países, expoentes do mundo inteiro. A tendência desses simpósios é ser virtual”, diz Raul.

A vocação pedagógica do HSL é a alma do hospital, herdada do projeto inicial da Sociedade de Senhoras. Diz o dr. Luiz Fernando Reis, diretor de ensino e pesquisa do hospital.

No ano passado, entre os 390 trabalhos apresentados por seu corpo de ensino e pesquisa, a maior concentração foi em relação à Covid-19, incluindo novos testes de diagnóstico da doença e um experimento da vacina da Janssen/Johnson & Johnson.

Raul Cutait destaca a oncologia clínica como uma das especialidades com maior evolução entre as mais de 40 atendidas pelas equipes do Sírio-Libanês. Mas o hospital, hoje instalado numa área de 24 mil metros quadrados na rua Adma Jafet, não é um centro médico com indicações específicas. O nível excepcional de sua medicina se estende a todos os departamentos.

A 100 anos da reunião histórica de senhoras, o propósito filantrópico ainda se reflete. “Por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde, levamos para todo o Brasil a experiência do Sírio em gestão e assistência”, diz Marta.

“O compromisso social se traduz também na gestão de cinco unidades públicas de saúde do Estado de São Paulo, por meio do Instituto de Responsabilidade Social do Sírio-Libanês. Fazemos hoje a gestão de mais leitos públicos do que privados.”

Mas, é claro, a porção cinco estrelas do Sírio-Libanês hoje predomina, restrita a planos de saúde top de linha. Como diz, com absoluta naturalidade, Raul Cutait: “Tratei aqui de seis presidentes da República.”


Raio-x

Atual líder da empresa
Marta Schahin é a presidente da Sociedade de Senhoras do Hospital Sírio-Libanês

Contexto histórico 
Em novembro de 1921, um grupo de senhoras da sociedade sírio-libanesa em São Paulo reuniu-se em torno de uma ideia: dar à cidade que acolheu suas famílias um hospital de primeiro nível, com proposta filantrópica

Visão de negócio 
O propósito é a união entre excelência médica, assistencial e conhecimento científico

Receita de longevidade 
Quase vinte anos depois de ser resgatado das Forças Armadas e totalmente reformado pela Sociedade Beneficente de Senhoras, o Sírio-Libanês renasceu para se tornar um exemplo de que é possível fazer benemerência com alto nível técnico e científico. Presidentes da foram tratados ali, simultaneamente a milionários e pacientes do SUS


Um dos pilares da longevidade de um negócio é a qualidade de suas esquipes, que vão passando o bastão geração após geração; as reportagens deste caderno são de autoria de jornalistas que simbolizam esse tipo de legado.

Celso Arnaldo Araujo

É formado em Jornalismo pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Atuou na Bloch Editores por 27 anos nos cargos de repórter, redator e chefe de reportagem da sucursal de São Paulo da revista Manchete. Editor das revistas GoWhere Style e GoWhere Gastronomia e da revista ABCFARMA, dirigida a profissionais de farmácia. Redator do programa Diário da Manhã, da Rádio Cultura. Vencedor duas vezes do Prêmio Esso de Informação Científica, fez nesta edição o seu primeiro texto para a Folha

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