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Conflito na Síria passou de revolta popular a guerra por procuração

Interferência de potências a favor de regime de Assad ou de rebeldes mantém embates vivos

Fumaça sobe de região alvo de bombardeio em Busra al-Harir, perto de Deraa, cidade onde começaram os protestos que deram origem à guerra na Síria
Fumaça sobe de região alvo de bombardeio em Busra al-Harir, perto de Deraa, cidade onde começaram os protestos que deram origem à guerra na Síria - Alaa al-Faqir - 13.mar.2018/Reuters
Patrícia Campos Mello
São Paulo

A guerra da Síria entra no sétimo ano do mesmo jeito que começou: com Bashar al-Assad no poder. Depois de passarem anos financiando rebeldes opositores, inclusive extremistas, as potências ocidentais e regionais já admitem que o ditador praticamente ganhou a guerra e deixaram o objetivo de derrubá-lo.

No entanto, com 500 mil mortos e quase 6 milhões de sírios refugiados, não sobrou muito país para o líder governar. E a ofensiva de Assad em Ghouta, com mais de mil mortes em poucas semanas, e o cerco turco à região curda de Afrin, com mais de 900 mortes, mostram que nem o suposto fim da guerra vai acabar com a carnificina.

O conflito sírio começou em 2011 como uma revolução popular para derrubar Assad. Degringolou para uma guerra em que as diversas facções são financiadas por potências estrangeiras, a chamada "guerra por procuração".

Em 15 de março de 2011, na esteira da Primavera Árabe, milhares de sírios foram às ruas pedir reformas democráticas e a libertação de presos.

O estopim da revolta popular foi a prisão e tortura de 15 meninos entre 10 e 15 anos, algumas semanas antes, em Deraa, no sudoeste do país, que ficou conhecida como o berço da revolução.

As crianças tiveram as unhas arrancadas, levaram choques e sofreram queimaduras no corpo todo. Seu crime foi terem pichado em um muro de sua escola a frase: "Agora é a sua vez, doutor", referindo-se a Assad, que é médico oftalmologista.

Ao procurarem a polícia para pedir informações sobre os meninos presos, os pais foram recebidos com sarcasmo. "Esqueçam seus filhos. Se realmente querem filhos, é melhor fazerem outros. Se não sabem como tê-los, podemos ensinar", teriam dito autoridades.

Tendo decidido tomar as ruas da cidade em protesto contra a brutalidade da polícia com os meninos, seus familiares e amigos foram recebidos a tiros. Nos dias posteriores, mais protestos se espalharam pelo país, sendo igualmente alvo de truculência.

No início, eram apenas cidadãos sírios se insurgindo contra o governo, mas, com o tempo, a oposição foi se tornando mais violenta. "A revolta popular, com legítimas pressões por democracia, foi sequestrada por extremistas e hoje é quase totalmente dominada por islamistas linha-dura", diz Heiko Wimmen, diretor do projeto Iraque-Síria-Líbano do International Crisis Group, em Beirute.

Os grupos em guerra na Síria representam interesses de diferentes países e são financiados por eles. Apoiando Assad estão Irã e Rússia; financiando (em algum momento) a oposição, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuait, Qatar, Turquia e EUA.

"Por que essa guerra dura tanto? Porque os países que apoiam os combatentes não têm vítimas na guerra. As vítimas são os sírios", diz Paulo Sérgio Pinheiro, presidente da Comissão de Investigação da ONU sobre a Síria.

Ele ressalta a necessidade de se iniciar o processo de identificação dos milhares de desaparecidos e presos políticos e de responsabilização das violações cometidas por todos os lados: governo, oposição e grupos extremistas.

CRIMES DE GUERRA

Para se manter no poder, Assad cometeu todo tipo de crime de guerra: cercou cidades para que as pessoas morressem de fome ou se rendessem, bombardeou hospitais e escolas. Ele também é acusado de usar armas químicas.

Mas, com uma oposição fragmentada, composta tanto por grupos democráticos como por extremistas que lutam contra Assad e entre si, desistiu-se de derrubá-lo.

Hoje em dia, Assad controla pelo menos 60% do território sírio. Isso não significa que a violência tenha diminuído. Ainda há vários fronts.

Além dos turcos e curdos em Afrin e do regime e seus adversários em Ghouta, no sul do país, Israel tenta deter a influência do Irã e do grupo radical libanês Hizbullah.

Ainda que possa se considerar que Assad esteja perto de vencer a guerra, boa parte da população do país não será governada por ele.

Segundo Wimmen, é difícil que as forças do regime consigam retomar o noroeste do país dos turcos, o nordeste dos americanos e ocupar efetivamente o sul, diante de ataques israelenses.

Essas áreas, somadas aos 6 milhões de sírios que fugiram, abrigam 13 milhões de pessoas, mais de metade da população original. "Assad venceu a guerra para governar só para metade da população, e as áreas ricas em petróleo não estão sob seu controle."

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