Descrição de chapéu The Washington Post Governo Trump

Republicanos estão divididos no Senado sobre crise de Trump com Ucrânia

Se aprovado na Câmara, senadores partidários do presidente terão que lidar com impeachment

Robert Costa
The Washington Post

Muitos senadores republicanos ficaram chocados na quarta-feira (25) e questionaram a posição da Casa Branca depois de ela ter divulgado uma transcrição do telefonema entre o presidente Donald Trump e o presidente da Ucrânia, no qual Trump oferece ajuda do secretário de Justiça dos EUA para investigar Joe Biden, candidato presidencial democrata.

Um republicano no Senado, que exigiu anonimato para falar abertamente, disse que a divulgação da transcrição foi “um erro enorme” que o Partido Republicano agora precisa enfrentar e defender –ao mesmo tempo em que o partido argumenta que os democratas da Câmara estão indo longe demais ao abrir uma investigação de impeachment de Trump.

Em destaque, o senador republicano Mitt Romney; ao fundo, o senador republicano Ron Johnson - Drew Angerer - 9.set.19/AFP

Ao Washington Post, três outros senadores republicanos reclamaram reservadamente que a Casa Branca teria errado ao divulgar a transcrição, dizendo que isso cria um precedente para presidentes futuros terem que divulgar o teor de seus telefonemas com líderes de outros países e que isso pode ser visto como uma concessão aos democratas.

Falando publicamente, dois senadores expressaram preocupações sérias com a revelação, em meio a diferenças de opinião que estão começando a surgir entre parlamentares republicanos que discutem reservadamente a conduta de Trump e a reputação política de seu partido.

“Os republicanos não deveriam estar correndo para proteger o presidente e dizer que não há nada de excepcional ocorrendo, quando é evidente que há, sim, muita coisa altamente perturbadora”, disse a jornalistas o senador republicano Ben Sasse, do Nebraska, depois de rever a queixa do delator.

“Os democratas não deveriam ter usado palavras como ‘impeachment’ antes de saberem alguma coisa sobre o teor real.”

Sasse, que se opôs à candidatura de Trump em 2016, vem falando mais favoravelmente ao presidente nos últimos tempos e conquistou seu endosso à candidatura de reeleição.

“Ainda é preocupante ao extremo. É profundamente perturbador”, o senador republicano Mitt Romney, de Utah, disse a repórteres na quarta-feira, indagado sobre a transcrição.

Quando senadores republicanos deixaram o almoço a portas fechadas nesta quarta, a maioria manifestou apoio ao presidente e minimizou a importância da transcrição, apesar de alguns parlamentares e seus assessores, falando reservadamente, terem reclamado da reação da Casa Branca.

Houve comentários dispersos sobre se Trump lidou com o telefonema do modo apropriado, mas qualquer sentimento de alarme foi silenciado.

“Como regra geral, as transcrições de conversas telefônicas entre chefes de Estado não devem ser divulgadas. Foi necessário fazer uma exceção neste caso”, disse o senador Roger Wicker, republicano do Massachusetts, apontando para o fato de que alguns senadores republicanos pediram ao presidente para divulgar o documento.

Wicker disse que não ficou preocupado com o teor da transcrição.

“É uma decisão que cabe à Casa Branca”, comentou o senador republicano pela Flórida Rick Scott quando perguntado sobre a divulgação, denunciando os democratas por “odiarem” Trump.

“O fato de ele ter divulgado a transcrição é inusitado, e há algumas consequências disso para a Casa Branca, mas as pessoas estavam exigindo todas as informações e ele as está dando”, disse a senadora Shelley Moore Capito, republicana da Virgínia Ocidental, que participou de uma reunião na Casa Branca na manhã da quarta para rever a transcrição aproximada.

Enquanto muitos republicanos continuam a minimizar a gravidade dos esforços de impeachment dos democratas, divergências começaram a emergir reservadamente em discussões de parlamentares republicanos sobre a conduta de Trump e a reputação política de seu partido.

Essas divisões podem anunciar como os republicanos do Senado lidarão com um julgamento, caso a Câmara opte pelo impeachment do presidente, disseram diversos parlamentares e assessores.

Na transcrição aproximada do telefonema de 25 de julho, Trump instruiu o presidente ucraniano Volodimir Zelenski a cooperar com o secretário de Justiça americano William Barr para investigar a conduta de Biden e, depois de Zelenski ter prometido realizar essa investigação, se ofereceu para se reunir com ele na Casa Branca.

O presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, participa da 74ª Assembléia Geral da ONU, em Nova York - Jonathan Ernst/Reuters

Essas declarações e outras que constam do telefonema entre Trump e Zelenski foram tão preocupantes que o inspetor-geral da comunidade de inteligência achou que constituíam uma possível violação das leis de financiamento de campanhas.

No final de agosto, autoridades de inteligência encaminharam o assunto ao Departamento de Justiça como possível crime, mas, na semana passada, segundo funcionários seniores do órgão, promotores concluíram que a conduta não foi criminosa.

Trump admitiu publicamente que pediu a Zelenski para investigar o filho de Biden, que fez parte do conselho de direção da Burisma, empresa ucraniana de gás que foi investigada pelas autoridades do país.

Trump negou ter feito qualquer coisa imprópria, mas parlamentares expressaram preocupação com sua ordem de que fossem congelados cerca de US$ 400 milhões em assistência militar à Ucrânia nos dias que antecederam o telefonema com Zelenski.

“Isso ainda é preocupante ao extremo. É profundamente perturbador”, disse o senador republicano Mitt Romney ao ser perguntado sobre a transcrição.

O senador republicano Patrick Toomey, da Pensilvânia, fez coro a outros republicanos ao afirmar que não houve “nenhum ‘quid pro quo’” (toma lá dá cá), acrescentando que “embora a conversa relatada no memorando sobre a alegação de corrupção tenha sido inapropriada, ela não chega ao nível de um delito que justifique um impeachment”.

Três assessores republicanos disseram nesta quarta que seus chefes estão incomodados com a decisão da Casa Branca e com a impressão de que parlamentares republicanos estão sendo forçados a uma posição difícil de defender Trump, ao mesmo tempo em que lidam com algo que muitos democratas veem como uma transcrição problemática.

Mas outros senadores republicanos, estes aliados de Trump, fizeram pouco-caso do que ocorreu. “Uau”, tuitou o senador Lindsey Graham. “Impeachment por causa disso. Que hambúrguer feito de nada (nenhum ‘quid pro quo’).”

A senadora republicana Joni Ernst, do Iowa, que como Lindsey Graham é candidata à reeleição em 2020, disse: “Li a transcrição e não encontrei nada ali”.

Uma divisão que surgiu entre os senadores republicanos opõe o chamado “campo de Burr” ao “campo de Johnson”, segundo dois assessores republicanos seniores não autorizados a falar publicamente, fazendo referência ao senador Richard Burr, da Carolina do Norte, presidente do Comitê de Inteligência do Senado, e ao senador Ron Johnson, do Wisconsin, presidente do Comitê de Segurança Interna.

O grupo de Burr tem uma visão mais sombria e frustrada do modo como Trump lidou com a Ucrânia. Já Johnson vinculou a questão da Ucrânia ao trabalho de seu comitê na revisão da abertura da investigação do FBI sobre os emails de Hillary Clinton quando esta foi secretária de Estado.

Na terça (24), em um almoço a portas fechadas de senadores republicanos, tanto Burr quanto Johnson ressaltaram suas posições em conversas com colegas, que lhes perguntaram se seus respectivos comitês vão abrir investigações sobre Biden.

Burr afirmou na quarta que não tem interesse em investigar o caso Biden-Ucrânia.

“Essa não é minha área, estou focado apenas em colher os fatos sobre este caso”, disse ele, aludindo à interferência russa na eleição de 2016.

Johnson disse que seu comitê vem conduzindo “coleta de informações e fiscalização” sobre a investigação da campanha de 2016, que agora pode envolver a coleta de informações sobre Hunter Biden.

“A coisa sempre acaba envolvendo o mesmo elenco de personagens, o que eles estavam fazendo”, disse.

Outros que manifestaram preocupação com a queixa do delator e pedem mais transparência incluem Mitt Romney, o candidato presidencial republicano de 2012 que tem estatura nacional elevada no partido, apesar de ainda estar construindo relacionamentos no Senado, no qual ingressou neste ano.

A disposição de Romney a pressionar a Casa Branca irritou os assessores de Trump, que aplaudiram o tuíte do presidente nesta semana sobre a derrota de Romney em 2012.

“Eu tinha esquecido que perdi, então aprecio ser lembrado disso”, disse Romney a repórteres, brincando.

Mas sua disposição de falar abertamente “apagou” outros senadores republicanos que também querem manifestar sua preocupação, mesmo que mais discretamente, disse um assessor republicano no Senado, porque Romney está assumindo a dianteira ao fazer perguntas pontuais sobre Trump e sua administração.

O senador Rand Paul, republicano do Kentucky, disse: “Foi Biden quem ameaçou a assistência à Ucrânia, não Trump, e isso precisa ser investigado”.

Parlamentares e assessores disseram que é quase certo que continuem as tensões entre senadores republicanos que encaram a queixa do delator como sendo estritamente uma questão de inteligência e os que a veem como parte de uma “caça às bruxas” política de democratas contra Trump, com o líder da maioria republicana no Senado, Mitch McConnell, tendo que se orientar no meio dessa dinâmica e manter a coesão de seus membros em meio ao tumulto.

McConnell tentará se reeleger em 2010 e está concentrado em conservar a maioria republicana no Senado. Em 2020, os republicanos terão que defender 23 cadeiras e os democratas, 12.

O enfoque de McConnell se evidenciou na manhã de terça-feira, quando vários senadores republicanos disseram não ter certeza se ele se oporia ao chamado do líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, para que a queixa do delator fosse encaminhada aos comitês de inteligência.

“Realmente pensei que Mitch fosse rejeitar o pedido, porque foi apresentado por Chuck. Ele odeia tudo que Chuck faz”, disse um senador republicano veterano, pedindo anonimato para falar com franqueza. “Mas ele não o fez. Deixou a resolução de Chuck ser aprovada por unanimidade.”

Quando o senador perguntou sobre a decisão de McConnell, ouviu que ele estava atendendo a pedidos de senadores republicanos de receber mais informações.

Durante o almoço da terça-feira, McConnell viu de perto quantos senadores republicanos estavam pedindo que a Casa Branca compartilhasse mais informações, ao mesmo tempo em que publicamente se posicionavam do lado do presidente.

Mesmo aliados de Trump pediram ao diretor de assuntos legislativos da Casa Branca, Eric Ueland, que participou do almoço, que desse mais documentos ao Congresso, disseram assessores e parlamentares presentes.

A mensagem pública de McConnell tem sido fortemente partidária e muito mais previsível, descrevendo a iniciativa de impeachment dos democratas na Câmara como “uma parada de impeachment em busca de uma razão de ser” e algo movido pela “conferência de extrema-esquerda” da presidente da Câmara, Nancy Pelosi.

Mas McConnell ainda não está preparando um julgamento no Senado. Alguns de seus aliados de longa data ainda esperam que o impeachment acabe morrendo na Câmara. Aliados dele disseram nesta semana que McConnell ainda não iniciou um planejamento interno para um julgamento de impeachment, nem logística nem politicamente.

“Zero. Nada. Nenhuma discussão de um julgamento. Você se prepara para o provável, não para o improvável”, disse o senador John Cornyn, republicano do Texas. “Não posso imaginar um universo em que acabem fazendo isso. Nancy Pelosi é inteligente demais para deixar as coisas saírem de controle.”

O senador republicano John Neely Kennedy, do Louisiana, disse: “Não sei como lidariam com isso. Eu sou da força de trabalho, não da direção.”

Os democratas estão olhando para frente, mas ainda não sabem prever se o apoio dos senadores republicanos a Trump poderá se enfraquecer algum dia.

“Um julgamento de impeachment seria um desafio, mas o Senado é mais do que capaz de agir à altura da ocasião e espero que meus colegas republicanos sejam capazes de romper seu silêncio e avançar”, comentou o senador democrata Richard Blumenthal, do Connecticut.

“Este é realmente um momento de acerto de contas.”

Tradução de Clara Allain

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