Descrição de chapéu Opinião Maurício de Almeida Prado e Breno Barlach

Desafios e frustrações no caminho do empreendedorismo social na base da pirâmide

Pela dificuldade, êxito do empreendedor da periferia vale por dois

Hamilton da Silva, criador do Saladorama, durante o Fiis, em Poços de Caldas (MG) - Keiny Andrade - 3.nov.18/Folhapress
Maurício de Almeida Prado e Breno Barlach

A Plano CDE, como consultoria responsável pela elaboração dos relatórios do Prêmio Empreendedor Social 2017, esclarece alguns pontos sobre o vencedor da categoria Escolha do Leitor, a empresa Saladorama.

Para explicar o trabalho desenvolvido e os critérios adotados, consideramos importante relembrar alguns aspectos do contexto do empreendedorismo social no Brasil.

Todo empreendedorismo começa com um sonho. É comum ouvir de investidores que o empreendedor é alguém que “vende uma fantasia”, consegue levantar investimento e só depois vai torná-la realidade. Às vezes, este sonho demora muitos anos para poder se concretizar, e é precedido por inúmeras tentativas frustradas.

As histórias de fracassos anteriores, quando contadas por jovens líderes de startups no Vale do Silício, são amiúde relatadas como um “orgulho” de suas derrotas, como se isso fizesse parte de seu currículo e fosse fundamental para seu crescimento e experiência. 

Acontece que o empreendedorismo social é ainda mais complexo que isso. Enquanto o empreendedor tradicional costuma encontrar uma oportunidade em uma demanda, ou seja, pessoas que estão dispostas a pagar por um produto ou serviço, o empreendedor social costuma ir atrás de uma necessidade. Por exemplo, ele quer melhorar a educação no Brasil, mas não sabe quem vai pagar esta conta. Ainda, quer disponibilizar um serviço de reciclagem, mas não encontra as formas de “fechar as contas”.

Vários exemplos, incluindo vencedores e finalistas do Prêmio Empreendedor Social da Folha, demonstram esta lógica.

O Vivenda descobriu a necessidade de melhorar as casas de famílias que vivem em favelas. Depois disso, buscou investidores e tentou diversos formatos de modelo de negócio para torná-lo viável.

O mesmo pode ser dito sobre o Dr. Consulta ou muitas outras startups de empreendedorismo social. Primeiro vem o sonho, depois busca-se um modelo de negócio e investimentos que tornem aquele sonho viável e resolvam aquela necessidade não atendida.

Porém, alguns empreendedores sociais têm o sonho, mas não têm o acesso a investidores. Esse é o caso da grande maioria dos empreendedores sociais de base, pessoas oriundas de periferias, que percebem carências não atendidas, têm anseio de resolver as necessidades e vão atrás desta quimera com os escassos recursos disponíveis que têm.

O sucesso do empreendedor de periferia vale por dois, como foi exposto recentemente no FIIS (Festival de Inovação e Impacto Social). Tudo é muito mais difícil nesses casos. Sem investimento, eles têm de se desdobrar para achar seus modelos de negócio, enquanto tentam pagar suas contas para sobreviver.

Fizemos esta introdução sobre o tema para contextualizar a complexidade de ser um empreendedor social de base. Foi com este conhecimento de dez anos sobre o setor de negócios de impacto no Brasil e com este olhar que a Plano CDE elaborou seus relatórios.

O que nós analisamos e relatamos foi a fotografia de um momento de um perfil clássico de empreendedor social de base. Hamilton da Silva sonhava com melhorar o acesso à alimentação saudável em comunidades carentes. Seus desafios incluíam desde o mito de que “lasanha de berinjela” seria “comida de playboy” à formação de funcionários que não tinham experiência na área, o custo desses alimentos e, naturalmente, a gestão de seu primeiro negócio.

Entre conseguir comprar diretamente dos produtores –e assim reduzir seus custos– e tornar o Saladorama uma escolha dos consumidores, Silva descobriu o desafio da falta de educação alimentar.

Seu próximo passo foi organizar formações, para fazer a comunidade entender o valor de uma alimentação saudável.

A imposição de um braço educativo do Saladorama fez o negócio criar tentáculos de atuação em setores diversos. No momento em que Silva ganhou a Escolha do Leitor, em 2017, o Saladorama consistia de franquias de entrega de salada em domicílio, um restaurante, um programa de palestras e formações, além do Projeto Lancheirinha, que entrega comida saudável para um curso profissionalizante direcionado a jovens carentes.

A Plano CDE já indicava, naquele momento, que o principal desafio desse empreendedor-sonhador era sua capacidade de gestão de diversas frentes de trabalho, impactada pela sua inexperiência e pela falta de um funcionário dedicado integralmente a isso. Problemas típicos de um Empreendedor Social de Futuro.

Maurício de Almeida Prado e Breno Barlach

Diretor-executivo da Plano CDE e gerente de projetos da Plano CDE

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