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Maria Carolina Loss Leite

As mulheres e o trabalho remoto

'Script sexuado de carreira' acentua-se em tempos de pandemia

Maria Carolina Loss Leite

Falar sobre a pandemia no Brasil também é falar sobre desigualdade de gênero. É sabido que a realidade mudou para todos —mas em especial para as mulheres, mesmo encontrando-se em diferentes realidades sociais. E, neste momento de distanciamento social, aparecem adaptações à vida laboral.

O trabalho remoto, antes eventual, agora é o cotidiano de muitas de nós, em diferentes profissões, transformando cômodos da casa em escritórios para atendimento a clientes, reuniões para tomadas de decisões e até conciliações judiciais.

Maria Carolina Loss Leite - Doutoranda em Sociologia pelo IESP - UERJ - Mestra em Sociologia pelo IESP - UERJ - Bacharela em Segurança Pública pela UFF
Maria Carolina Loss Leite e a filha Maria Alice, 6 - Arquivo pessoal

Sem aulas presenciais, muitas escolas adotaram atividades virtuais, sendo necessário o acompanhamento de um adulto —geralmente, a mãe. Sem falar dos afazeres domésticos: preparo das refeições, brincadeiras com os filhos, cuidados com os animais de estimação e limpeza. Por conta da tradição cultural, quase sempre recai para as mulheres.

Em meio a tudo isso, também existem os cuidados com os mais idosos —pais, mães, sogras, avós. De novo, cabem às mulheres a proteção e o resguardo dessas pessoas.

Agora junte todas essas ações aos prazos regulares de entrega dos trabalhos exigidos pelos superiores, bem como o aumento da demanda de serviço e a “facilidade” da comunicação virtual. São nessas condições que a mulher precisa demonstrar sua disponibilidade em tempo integral a fim de não ser rotulada de incompetente, aumentando, ainda mais, seu estresse emocional. Quando isso não é alcançando, sentimentos como culpa e frustrações afloram, assim como a sensação de não estar comprometida o suficiente com o trabalho pelo fato de se encontrar em casa.

Em meados dos anos 2000, duas pesquisadoras francesas (Nicky Le Feuvre e Nathalie Lapeyre), ao estudarem a ascensão feminina no contexto de escritórios de advocacia, chegaram à conclusão de que mulheres precisavam demonstrar que sempre possuíam disponibilidade de tempo, diferentemente de seus colegas masculinos, reajustando, por conta disso, suas vidas e desejos pessoais com o receio de serem tachadas de não comprometidas com as tarefas. A esse fenômeno social elas deram o nome de “script sexuado de carreira”.

Neste momento em que estamos confinados, fica difícil manter a produção quando se tem que cuidar da casa, dos filhos, da família e do trabalho, tudo ao mesmo tempo. Em contrapartida, aos homens, tais responsabilidades não recaem. Logo, o script sexuado de carreira, que já era perceptível antes da pandemia, permanece —ou, agora, acentua-se.

No mundo pós-pandemia, nós, mulheres, estaremos em um lugar diferente no que tange às relações de trabalho e sociais. Para muitas brasileiras, esse enfrentamento poderá decidir seus futuros, seja como mães, como profissionais ou simplesmente como mulheres.

Maria Carolina Loss Leite

Mestre e doutoranda em sociologia pelo Iesp-Uerj e bacharela em segurança pública pela UFF

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