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Universidades, Covid e a aposta no futuro

Debate exclusivo sobre retorno presencial ignora boas experiências híbridas

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A pandemia de Covid-19 teve um impacto enorme na educação. Subitamente, as atividades que reuniam pessoas —consideradas centrais na aprendizagem— tiveram de ser suspensas. Nas universidades, isso causou mudanças profundas. Agora, está claro que não será possível voltar ao modelo anterior como se nada tivesse acontecido.

Nas instituições de excelência estrangeiras, o foco da discussão passou a ser como integrar recursos digitais em modelos de aprendizagem “híbridos”, especialmente em aulas mais teóricas, combinando atividades presenciais e online.

Isso é feito de forma síncrona (com professor e aluno interagindo em tempo real) e assíncrona (na qual o estudante acessa o conteúdo a qualquer momento). Hoje, emergem dados sobre o melhor uso complementar das diferentes estratégias educacionais.

Mais de um ano e meio depois do início da pandemia, já se sabe que o “presencialismo” pode ser muito mais necessário para o desenvolvimento cidadão, humanístico e de pesquisa do que para o aprendizado de conteúdos. A prioridade para atividades presenciais em universidades de excelência estrangeiras tem sido para aulas práticas e de laboratório, que demandam professor e alunos juntos para experimentação ou prática —especialmente em cursos de áreas como saúde, biológicas, artes e tecnologias.

Além disso, nessas instituições, estudantes ingressantes e formandos têm preferência na vivência no campus. A socialização no espaço universitário —ainda que sujeita a rígidas normas sanitárias— é muito importante. Universidades são cheias de rituais de passagem: a existência física na universidade corresponde a uma posição dos indivíduos em suas diferentes fases da vida.

Isso é possível hoje, claro, em alguns contextos. Nos EUA, estudantes moram no campus (portanto circulam pouco) e são testados a cada dois ou três dias para Covid-19. Em Stanford, por exemplo, há postos de testes espalhados por todo o campus.

Para priorizar a presença desses estudantes no contexto da pandemia, funcionários de instituições como a Universidade de Michigan seguem em casa. A ideia é reduzir ao máximo a circulação de pessoas —e o modelo tende a ficar o mesmo depois do controle da pandemia.

Propostas que extrapolavam o conceito de que a aprendizagem de qualidade só acontece se professores e estudantes estiverem no mesmo espaço físico vinham sendo experimentadas há anos. A pandemia acelerou esse processo e permitiu compreendê-lo melhor.

É o caso do ensino noturno, que, oferecido de forma remota bem feita, pode ser muito mais efetivo para o aprendizado do que o deslocamento diário para campi distantes.

Em muitas universidades estrangeiras já havia a oferta de disciplinas simultaneamente de forma presencial ou online —em plataformas próprias ou externas como Coursera ou edX. A prática contribui para a internacionalização de alunos e professores, o que amplia debates e possibilidades de colaboração.

Universidades brasileiras, no entanto, são instituições com processos de decisão lentos e dificuldade de operacionalizar mudanças. O problema é que, engessadas em formas mais rígidas de ensinar, as universidades perdem a oportunidade de oferecer ambiente de pensamento crítico e inovação também durante a aprendizagem.

Ao transformar o processo de ensino-aprendizagem em função da pandemia, viu-se que havia aulas expositivas demais, sem objetivos claros e muito focadas no professor na sala de aula. O presencial nem sempre estava funcionando, e isso ficou evidente.

Se os paradigmas da forma de ensinar nas universidades brasileiras não se transformarem com essa dura experiência da pandemia, estaremos perdendo a oportunidade de alinhar as práticas educacionais contemporâneas com aquilo que já tem sido a forma de aprender dos jovens.

Centrar, agora, o debate do ensino superior exclusivamente em como retornar ao presencial, como se praticava antes da Covid-19, nega as evidências em favor de estratégias educacionais variadas, que se complementam, o que vinha se acumulando antes e se acentuou durante a pandemia.

Ana Maria Carneiro
Pesquisadora do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas da Unicamp e coordenadora do Laboratório de Estudos de Educação Superior (Lees)

Eliana Amaral
Professora titular de obstetrícia da Unicamp

Helena Sampaio
Professora da Faculdade de Educação da Unicamp e fundadora do Lees

Leandro Tessler
Professor do Instituto de Física “Gleb Wataghin” da Unicamp

Sabine Righetti
Pesquisadora do Labjor-Unicamp

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