Eclético, repórter Clóvis Rossi se tornou analista da política brasileira e internacional

Com mais de 50 anos de carreira, jornalista morreu na madrugada da sexta-feira (14)

Hélio Schwartsman
São Paulo

Morreu na madrugada desta sexta-feira (14), aos 76 anos, o jornalista Clóvis Rossi, um dos mais destacados e premiados de sua geração. Ele estava em sua casa em São Paulo, onde se recuperava de um infarto que sofrera na semana anterior, quando se sentiu mal e veio a morrer.

Com mais de 50 anos de carreira e passagem por vários jornais, Rossi foi testemunha de alguns dos mais importantes acontecimentos do Brasil e do mundo, dos quais escreveu o primeiro rascunho na forma de reportagens históricas. Sua assinatura está nas manchetes de várias das primeiras páginas que se encontram no livro que reúne as principais capas da Folha dos últimos 95 anos.

“A Folha e o jornalismo brasileiro perdem um de seus principais e mais premiados repórteres, certamente o mais experiente. Clóvis era admirado por gerações de profissionais por sua independência de pensamento, disposição e rapidez de trabalho e qualidade de cobertura. Vai fazer muita falta”, disse o diretor de Redação da Folha, Sérgio Dávila.

Eclético, como convém a um jornalista, Rossi podia escrever sobre tudo e tinha aquela curiosidade incessante que é a marca dos bons repórteres e dos comentaristas que não renunciam a aprender cada vez mais. Durante o período em que foi o titular da coluna São Paulo, na Folha, converteu-se num dos principais analistas da política brasileira, com incursões pela economia. Nos últimos anos, vinha se dedicando à política internacional, da qual já detinha um conhecimento enciclopédico e sempre crescente.

Um pouco por temperamento, um pouco por necessidade, Rossi não se intimidava diante de nenhuma missão jornalística. Ele gostava de repetir a história do dia em que, numa emergência, a Folha o despachou para cobrir uma corrida de F-1, esporte do qual não entendia bulhufas e em que não conhecia ninguém. Contava que chegou a entrevistar um mecânico certo de que era um piloto importante. Mas é claro que ele se virou e, no dia seguinte, a cobertura saiu sem nenhum problema.

Nascido em 25 de janeiro de 1943, no bairro do Bexig a, em São Paulo, filho de Olavo, vendedor de máquinas pesadas, e de Olga, artesã de grinaldas e buquês de flores, Rossi se formou em jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero. Obteve seu primeiro emprego como jornalista em 1963. Trabalhou nos jornais Correio da Manhã, O Estado de S. Paulo, onde chegou a editor-chefe, e Jornal do Brasil. Teve ainda passagens pelas revistas Isto É e Autoesporte e pelo Jornal da República, além de um blog no espanhol El País.

Na Folha desde 1980, era repórter especial, membro do Conselho Editorial e colunista na seção Mundo. Também pela Folha, foi correspondente em Buenos Aires (1981-1983) e em Madri (1992). Sua experiência cobrindo desmandos das ditaduras brasileira e argentina, que incluíram situações em que enfrentou riscos pessoais, fizeram com que desenvolvesse alergia a qualquer forma de autoritarismo e de desrespeito aos direitos humanos.

Em tempos de polarização, Rossi sempre soube manter o equilíbrio. Conversava bem com fontes de esquerda e de direita e não perdia a independência nem o espírito crítico. Não fazia concessões ideológicas, nem a amigos. Criticava com igual desembaraço os crimes e abusos cometidos por um Augusto Pinochet ou por um Hugo Chávez.

Sua velocidade e disposição para o trabalho eram proverbiais. Lembro-me das várias ocasiões, nos anos 90, quando eu era o editor de Opinião, em que, a pedido do “seu” Frias —Octavio Frias de Oliveira (1912 2007), publisher da Folha—, encomendávamos um editorial a Rossi. O texto final chegava em poucos minutos e era sempre preciso. Eu, que não sou exatamente uma tartaruga, gastava mais tempo revisando-o e enfiando-lhe uma ou outra palavra difícil do que Rossi levara para escrevê-lo. Quando o provocávamos acerca da rapidez, ele disparava, com ironia: “É que eu tenho curso de datilografia”.

Especialmente nas coberturas internacionais em que atuava como enviado especial, era difícil segurá-lo. Quando o fuso horário estava a seu favor (isto é, na Europa ou na Ásia), não era incomum que os editores chegassem ao jornal no início da tarde e encontrassem um “cardápio do dia” em que Rossi oferecia textos em número suficiente para preencher várias páginas. Pior, boa parte desse material já havia sido apurada, escrita e despachada.

O melhor exemplo da fissura de Rossi pelo trabalho, contudo, está em sua última coluna, publicada na quarta-feira (12), que ele escreveu do hospital, na qual explicava a ausência de seu artigo dominical contando que sofrera o infarto, passara por duas angioplastias, com a colocação de cinco stents, e prometia retomar as atividades normais na semana subsequente. Essa, infelizmente, é uma promessa que ele não cumprirá.

Entre os muitos prêmios, medalhas e homenagens que recebeu, merecem menção especial o Maria Moors Cabot, concedido pela Universidade Colúmbia, e o da Fundação Nuevo Periodismo Ibero Americano, criada por Gabriel García Márquez.

Grandalhão —ele tinha 1,98 m e foi jogador de basquete quando jovem—, Rossi destacava-se em qualquer aglomeração de jornalistas. Brincalhão —ele mexia com todo mundo, do contínuo ao patrão—, destacava se também nas redações como uma figura acessível a todos, apesar dos altos cargos ocupados e de alguns títulos pomposos. E é aí que desponta o que, para mim, foi a mais marcante das características de Rossi, a generosidade.

Ele estava sempre pronto a ajudar, fosse um veterano, fosse um foca (jargão jornalístico para repórter iniciante), com o qual fazia questão de dividir todas as assinaturas de uma cobertura, mesmo que o jovem não tivesse conseguido apurar nem escrever muita coisa. Rossi também era incapaz de citar o texto de um colega ou mesmo de um concorrente sem pespegar-lhe um tremendo elogio.

Não creio que eu tenha conhecido pessoa mais generosa do que ele. Foi um privilégio, um prazer e um aprendizado ter trabalhado a seu lado por mais de 30 anos, mais ou menos a metade dos quais compartilhando sala no mítico nono andar da Folha.

O corpo de Clóvis Rossi começou a ser velado na tarde desta sexta-feira (14) na sala nobre do Cemitério Gethsêmani, no Morumbi, em São Paulo. O sepultamento será às 11h deste sábado (15). O caixão com o corpo de Rossi foi coberto por uma bandeira do Palmeiras, seu time do coração, e um cachecol do Barcelona, equipe que admirava. 

Clóvis Rossi deixa a mulher, Catarina, com quem foi casado por mais de meio século, três filhos (Cláudia, 52, Clarissa, 51, e Cassio, 49) e três netos (Tiago, 26, Natália, 24, e Alice, 10). Deixa, também, um exemplo de grandeza profissional para duas ou três gerações de jornalistas e uma enorme ausência para todos aqueles que admirávamos seus textos.

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