Tabata Amaral vira trunfo de João Doria em disputa interna no PSDB

Governador, que vem agindo com discrição, está em meio a embate sobre a expulsão de Aécio do partido

Igor Gielow
São Paulo

A eventual expulsão da deputada Tabata Amaral (SP) do PDT deu ao governador João Doria (SP) a oportunidade ideal para acabar uma semana de embate dentro do PSDB com um trunfo na mão.

O governador João Doria e a deputada Tabata Amaral, em encontro em abril, em São Paulo
Encontro do governador João Doria com a deputada Tabata Amaral em abril, em São Paulo - Reprodução

Doria assumiu o controle do partido em maio, quando foi eleito seu aliado Bruno Araújo (PE) como presidente da sigla no lugar de Geraldo Alckmin, o ex-mentor e antecessor do tucano no governo paulista.

A velha guarda do PSDB, centrada em São Paulo e na figura do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, segue incomodada com o protagonismo interno de Doria, embora considere fato consumado sua ascensão.

Após uma acomodação inicial, o tema da expulsão ou não do deputado Aécio Neves (PSDB) emergiu como campo de combate para os adversários do governador. A rigor, se aplicadas as novas regras do tucanato, não só Aécio e seus rolos judiciais mas também figuras como Alckmin e José Serra podem acabar afetadas.

FHC saiu em defesa do mineiro, que quase se elegeu presidente em 2014. Doria deu declarações comedidas, deixando para o prefeito paulistano Bruno Covas a fala mais agressiva contra Aécio, apelando ao "ou ele, ou eu" na sigla.

Para fora dos muros tucanos, a percepção é que Doria está em vantagem, dado que estar contra Aécio é reforçar seu discurso anticorrupção.

Mesmo a chegada de Covas ao debate foi vista por aliados do governador não como uma ação combinada, mas uma forma de tentar fortalecer seu posicionamento político neste momento.

Covas será candidato à reeleição no ano que vem, mas pesquisas internas sugerem que ele não passa dos 15% de intenções e tem alta rejeição.

Doria o apoiará formalmente, mas tem um leque de candidaturas eventuais para chamar de suas: Joice Hasselmann (PSL), José Luiz Datena (DEM), Filipe Sabará (Novo) e até mesmo do antigo desafeto Andrea Matarazzo (PSD).

No começo da semana, quando o PDT começou a ameaçar expulsar seus filiados que votassem em favor da reforma da Previdência, Doria já entrou em contato com Tabata, lhe angariando apoio.

Recentemente, recebeu a deputada de 25 anos duas vezes, gerando uma onda de críticas à esquerda contra a política, acusada de estar a serviço do grande capitalismo por também ter estudado com bolsa da fundação do bilionário Jorge Paulo Lemman.

O namoro político não é casual. Tabata é a estrela mais visível na limitada constelação de nomes associados aos movimentos de renovação política que surgiram antes do pleito de 2018, como reação ao fastio geral da população e à terra arrasada deixada pela Operação Lava Jato.

Quando disse à Folha, na quinta (11), que Tabata seria "rosto, alma e coração do novo PSDB", Doria consolidou sua posição contra os grupos que ainda se opõem a ele no PSDB.

Nesta sexta, ele não falou sobre o assunto quando questionado em evento, e Araújo sinalizou que ela seria bem-vinda.

Na prática, é quase irrelevante se a deputada irá mesmo para o partido.

O que importa é a afirmação pública, ainda que FHC tenha sido um dos maiores patrocinadores do ícone dos movimentos de renovação, o apresentador Luciano Huck.

De quebra, há uma pequena dose de pimenta no episódio: Doria e Ciro Gomes se odeiam, tanto que o pedetista responde a um processo por calúnia contra o tucano.

Desde a campanha presidencial de 2018, Ciro exibia Tabata com um troféu de suposta modernidade de seu partido. Agora, é visto cobrando sua expulsão duramente.

Chamou a atenção de desafetos e amigos de Doria a condução mais sutil dos movimentos pelo tucano.

O governador é presidenciável e tem um histórico desfavorável quando o tema é afobação —quando prefeito paulistano, em 2017, sua movimentação visando o Planalto gerou crise e lhe valeu uma pecha de traidor de Alckmin, o que ele rejeita.

Agora, até por correr na mesma raia ideológica que Jair Bolsonaro (PSL), Doria mantém um equilíbrio dinâmico tenso com o presidente. Ora se acusam pela "posse" do GP Brasil de F-1, que Bolsonaro quer levar para o Rio, ora estão se afagando em solenidade pública.

Um teste recente ocorreu quando Doria resolveu tentar remontar o PSDB no Rio de Janeiro, estado onde historicamente os tucanos são uma força lateral.

Ele levou um antigo aliado, o empresário Paulo Marinho, para presidir a sigla. Ele foi um dos principais articuladores da candidatura de Bolsonaro e é suplente do filho senador do presidente, Flávio. Sua casa foi o quartel-general de vários momentos importantes da campanha de 2018.

Antes de embarcar no bolsonarismo, Marinho chegou a fazer um evento para lançar Doria como presidenciável. Agora, quando foi sua vez de entrar no PSDB, surpreendeu o governador com um jantar para 400 pessoas e ampla cobertura da imprensa.

Aliados de Doria viram o cheiro da linha de largada queimada novamente, ainda mais com um ex-aliado do presidente. O governador então reduziu a publicidade de suas idas ao Rio, como em eventos com empresários.

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