Não é preciso Lula e Ciro se abraçarem para vencer Bolsonaro, diz coordenador do Somos 70%

Economista Eduardo Moreira defende união de todos os matizes democráticos para se opor ao presidente

Brasília e São Paulo

Criador de um movimento que pegou "meio sem querer", segundo suas próprias palavras, o economista Eduardo Moreira, 44, defende a união dos diferentes matizes democráticos em torno do objetivo comum de se opor ao governo e aos ideais preconizados por Jair Bolsonaro (sem partido).

"Acho que é uma percepção errada das pessoas de que o Brasil vai dar certo quando o Ciro [Gomes] e o Lula derem um abraço. Quando [Flávio] Dino e [Luciano] Huck se juntarem numa chapa. Isso não vai acontecer. Ciro e Lula vão continuar discutindo, o Huck e o Dino também. Mas a gente quer discutir dentro das regras democráticas", afirma o coordenador do Somos 70%.

O economista Eduardo Moreira, idealizador do movimento virtual #Somos70PorCento - Geraldo Magela - 25.mar.2019/Agência Senado

Inspirado na soma do péssimo, ruim e regular dado a Bolsonaro nas pesquisas do Datafolha, o movimento adota uma linha mais flexível que os demais e diz estar aberto a todos aqueles que sejam contra o governo, incluindo gente que dele participou efetivamente, como o ex-juiz e ex-ministro da Justiça Sergio Moro.

"Estava vendo outro dia que o Lobão, a Joice Hasselmann, essas pessoas estão dizendo que são parte dos 70%. Como que eu vou dizer que não? Se é contra o governo, está na estatística. Não é um clube."

Moreira se diz progressista, alinhado ao MST e afirma que o ex-presidente Lula —que criticou o elitismo desses movimentos— foi tratado com muita violência nos últimos anos, tendo sido alvo de uma condenação injusta.

"Acho que quando o presidente Lula fala que a população mais pobre deveria se ver retratada nesses movimentos ele tem, sim, uma parcela de razão. (...) Adoraria ver o presidente Lula se juntando a esses movimentos, mas compreendo e respeito a atitude dele.​"

Moreira afirma ter feito campanha para Ciro Gomes (PDT) no primeiro turno de 2018 e para Fernando Haddad (PT) no segundo.

Como tem sido a relação entre os grupos? Os três movimentos são muito recentes. Acho que as pessoas deveriam entender que os movimentos não nascem como uma empresa, com "business plan", projeto de longo prazo. Acho que nascem de forma diferente, vão se compreendendo, entendendo a força que representam.

Os movimentos estão crescendo, trazendo pessoas para a sua causa, para o seu formato, e agora começaram a conversar. Acho isso muito importante não no sentido de consolidar os movimentos em um só, não acredito que isso vá acontecer nem deva existir.

São movimentos complementares. O Juntos tem importantes formadores de opinião. O Basta! tem importantíssimas pessoas do mundo jurídico. E o Somos 70%, desde o começo, quer representar os 70%. Todas as peças. Não tem rosto de ninguém famoso. A ideia é retratar o povo, que forma os 70%, e não a elite, que forma 1%. Uma parte da elite forma os 70%. E fazer com que essas pessoas sejam vistas, ouvidas.

Uma coisa curiosa é que você vê em crises, e agora na pandemia, na Europa, na Ásia, nos Estados Unidos, vários líderes repetem a frase "I see you, I hear you". E no Brasil? Quem está escutando as pessoas mais pobres? Não temos dado voz às pessoas na fila dos R$ 600, aos 30 mil mortos. A ideia é que as pessoas possam se ver e se entender como maioria.

Acho que o Bolsonaro foi muito esperto quando resolveu colar na imagem do cara simples, que come sanduíche, sai do palácio e ouve as pessoas. Isso fez com que o governo, com essa cara meio forçada popular e com suas milícias digitais e seus milhões de robôs, aparentasse ser a maioria, quando não era.

As pesquisas já mostravam que não era maioria em relação a isolamento social, preservação da Amazônia, popularidade. O que o Somos 70% faz é trazer de volta a sensação, principalmente ao cidadão comum, de que é maioria. E aí ele não precisa ter medo de ter sua voz.

O sr. disse que pretende que o grupo chegue nas pessoas que não fazem parte da elite, diferenciando-se dos outros grupos. O sr. acha que já é possível ver isso? Acho que não. A gente tem uma falsa percepção. Parei para encher o tanque do meu carro e perguntei: 'Você sabe o que é o Somos 70%?'. Ela respondeu: 'Não, moço, não ouvi ainda, não'. Eu já imaginava. A gente hoje se fecha em bolhas que são tão pequenas e, ao mesmo tempo, na nossa cabeça, tão representativas do mundo que tem lá fora.

Os algoritmos das redes sociais, o WhatsApp, viram o nosso "Show de Truman" [filme em que o personagem principal pensa habitar um mundo normal, mas vive em um reality show]. E a gente acha que o mundo é isso. Mas não é.

Hoje, olhando algumas pesquisas que mostram a popularidade da hashtag Somos 70%, na internet, nos últimos dias, deu para ver que o ritmo de crescimento é impressionante. Cada vez mais o número de pessoas, espalhadas pelo Brasil, de vários estratos sociais, ficam sabendo da hashtag. As pessoas ouvem, mas e aí? Onde vai chegar? O que quer dizer? Isso vai se construindo.

No último dia 1º, fiz um post e minha vida virou essa maluquice. Não planejei. O que aconteceu? O movimento já estava aí. Quando a pessoa é inteligente, ela percebe que abriu a vela para um vento muito forte, e ela tenta olhar para o vento para ir direcionando a vela, e não tenta mudar a direção do vento com a vela dela. O que a gente está fazendo aqui é olhar para que lado está o vento que pegamos meio sem querer. Sem tentar moldar os 70%.

Onde vocês querem chegar com o movimento? Qual é o objetivo final? Acredito que os 70% gostariam de poder estar dando as cartas, falar sobre meio ambiente. Os 70% gostariam de poder estar falando em paz, brigando democraticamente.

Dentro dos 70% você tem correntes ideológicas, pessoas que pensam diferente, que vão brigar e não vão fazer as pazes.

Acho que é uma percepção errada das pessoas de que o Brasil vai dar certo quando o Ciro e o Lula derem um abraço. Quando Dino e Huck se juntarem numa chapa. Isso não vai acontecer. Ciro e Lula vão continuar discutindo, o Huck e o Dino também. Mas a gente quer discutir dentro das regras democráticas. São os 70% que acreditam até na briga, dentro do jogo democrático.

O Eduardo tem suas crenças pessoais. As pessoas sabem que eu sou mais de esquerda, progressista, muito próximo ao MST. Mas eu sou 0,001%. Eu sei que sou parte da turma que quer poder brigar democraticamente. Da turma que quer falar sem ser ameaçado.

Hoje cedo uma pessoa entrou na minha live e falou "morte a esses comunistas". Morte. Como é que pode? Esses são os 30%.

Os outros grupos já estão querendo definir se são a favor do impeachment. Ainda é cedo para isso ou vocês também querem? O Eduardo Moreira é a favor do impeachment. Só que se você for olhar a população brasileira hoje, as pesquisas dizem que 50% são a favor. Então não são 70% a favor do impeachment.

As pautas que falei: rejeição à aproximação com centrão, Datafolha diz que é 67%. A favor do estado incentivar a cultura, Datafolha mostra que são 67% também. Que são contra as frases do Bolsonaro de armar a população, 72%. Que acham o governo péssimo, ruim e regular, 67% segundo o Datafolha.

Então veja que tudo isso é quando você pode se sentir como parte da maioria. Se você é a favor do impeachment, você não é maioria hoje no país.

Como formador, me exponho como a favor do impeachment, mas não vou fazer com que o movimento Somos 70% adote uma bandeira do Eduardo, senão estaria usando o 70% para algo que não é dividido por 70% da população.

O sr. já nos disse que não há veto no Somos 70% e, por isso, não barraria a eventual entrada de Sergio Moro, que, segundo os outros grupos, não seria bem recebido neles. Mas pessoalmente o sr. acharia boa ou ruim a presença dele? Isso quase me deu problema. Saiu por aí que 'Os 70% aceitariam Sergio Moro'. Não é isso. Para ficar claro: o Eduardo Moreira pensa o mundo absolutamente diferente do Moro, acha que a conduta do Moro foi longe de ser correta na Lava Jato e o que foi demonstrado na Vaza Jato [diálogos que colocaram em xeque a imparcialidade do então juiz na Lava Jato], e acha que o Moro foi cúmplice desse governo por tempo suficiente para fazer com que Moro tenha identificação com esse governo e tenha uma parcela de responsabilidade relevante em tudo o que está acontecendo.

Agora, se o o Moro está contra o governo, ele faz parte da estatística dos 70%. Não faz parte de um movimento, de uma lista, que vai ser impressa, distribuída por WhatsApp. Faz parte da maioria estatística.

Gerou uma polêmica, como se nós estivéssemos aceitando o Moro em nosso movimento. Não tem essa lista. Estava vendo outro dia que o Lobão, a Joice Hasselmann, essas pessoas estão dizendo que são parte dos 70%. Como que eu vou dizer que não? Se é contra o governo, está na estatística. Não é um clube.

Como o sr. pretende organizar o grupo? Vai ter comitê executivo? A ideia do grupo é ser o mais horizontal e descentralizado possível. Acabei me tornando um porta-voz e coordenador. Costumo informar as pessoas por meio das redes sociais. Faço uma live todos os dias para cerca de 10 mil pessoas. São pessoas que juntas criaram o 70%, postam, dão ideias.

É um movimento de "grassroots", que tem militância de base, de pessoas que correm atrás, se dedicam, em vez de lideranças que vão postar porque tem milhões de seguidores. Sem ter rostos tão famosos, é o movimento que mais tem aparecido. Para você ver o poder do "grassroots". A base tem esse poder no Brasil, e não poderia ser esquecida.

O Lula fez críticas aos movimentos, disse que não é "maria vai com as outras" e apontou elitismo. Como o sr. recebeu isso? Respeito demais a história do presidente Lula, a importância dele para a população mais pobre deste país, e acho que quando o presidente Lula fala que a população mais pobre deveria se ver retratada nesses movimentos ele tem, sim, uma parcela de razão.

Dando esse input... Como a gente fala input em português? Input é input, né? É que eu não gosto de falar termos em inglês, mas é isso que o presidente dá aos movimentos, né? Input. O que eu acho que as pessoas têm que entender é que o establishment tratou o presidente com muita violência nos últimos anos.

O presidente perdeu a esposa, o irmão, e as pessoas fizeram piada, durante o velório ameaçavam o presidente. A gente querer que uma pessoa que por dois anos viu essa Vaza Jato, a forma como foi feito o processo todo de prisão, que teve tanto sofrimento na vida familiar nesse período... A gente esperar que ele saia sendo o consolidador da paz no país e tenha atitudes altruístas que nós não temos acho que é deixar de lado o lado humano do presidente. Adoraria ver o presidente Lula se juntando a esses movimentos, mas compreendo e respeito a atitude dele.

Em quem o sr. votou na última eleição? Não votei [estava em viagem], mas fiz campanha para o Ciro [Gomes] no primeiro turno e para o [Fernando] Haddad no segundo turno.

O sr. vê a prisão do presidente Lula como um problema? O processo que levou à prisão foi totalmente fora do rito normal e do que poderia se esperar de uma Justiça que funcionasse de igual para todos. Acho que se você tivesse as provas que o presidente Lula teve você não seria preso nem por dez dias.

O sr. disse que o 70% está aparecendo mais que os outros. Não. Não foi isso que eu disse. Disse que a repercussão nas redes, segundo as pesquisas, mostra que é o movimento mais compartilhado. Só estou dizendo isso porque tem tanta vaidade que eu tomo cuidado com cada palavra.

Sai uma manchete dizendo que o Eduardo Moreira disse que estão vendo mais ele que os outros e esse negócio é igual ginásio. 'E aí, moral, você viu o que ele falou?'. É igualzinho. Tem que tomar o maior cuidado para não estragar o esforço que estamos fazendo por causa da vaidade do ser humano.

Gostaríamos de saber quem pagou o vídeo que vocês divulgaram. Tudo voluntariamente. Foram agências de publicidade. O primeiro foi com agências do Sul, e o segundo, de São Paulo. A do Sul foi a Berro Motion. A de São Paulo foi uma grande agência que não quer se identificar.

E vão para a TV também com esses vídeos? Eu não tenho dinheiro para isso. Mas eu também não planejava começar um movimento desses.

O sr. disse que não tem pessoas famosas no grupo, mas vimos que a Xuxa aderiu ao Somos 70%. Isso é maravilhoso, mas ela aderiu. Eu digo que na organização e na lista e nas peças nós não temos. Xuxa, Monja Coen, deputados, senadores, várias pessoas publicaram a hashtag. Políticos do PT, PSDB, PDT.

Raio-x

Eduardo Moreira, 44
​Formou-se em engenharia pela PUC-RJ e estudou economia na Universidade da Califórnia de San Diego. Trabalhou no banco Pactual, do qual um dos fundadores foi Paulo Guedes (Economia), até 2009. Quando de lá saiu, fundou o banco de investimentos Brasil Plural com sócios. Recebeu homenagem da rainha Elizabeth 2ª, do Reino Unido, por trabalho para diminuir a violência no treinamento de cavalos. Autor de 10 livros

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