Descrição de chapéu Eleições 2020

Para evitar laranjal na eleição, partidos buscam mulheres e reforçam preparação de pré-candidatas

TSE determina, desde 2018, que 30% do fundo eleitoral seja usado em candidaturas femininas

São Paulo

Após a eleição de 2018 ter sido marcada por escândalos relacionados a supostas falsas candidaturas femininas, partidos têm criado ou fortalecido cursos e programas direcionados a mulheres que querem disputar de fato uma campanha eleitoral.

Ao contrário da eleição passada, a primeira na qual o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) obrigou as legendas a usarem 30% dos recursos do fundo eleitoral com candidatas, na campanha deste ano os partidos afirmam estar mais bem preparados para evitar problemas com a Justiça.

Deputadas da bancada feminina em protesto na Câmara dos Deputados - Pedro Ladeira - 9.jul.2019/Folhapress

As siglas argumentam que, em 2018, foram surpreendidas pela decisão do TSE. Alegam também que é mais difícil convencer mulheres a se dedicarem à política, porque ainda hoje muitas delas continuam a cumprir jornadas duplas ou triplas, trabalhando e cuidando da família.

Entre o ano passado e este ano, ao menos sete legendas tiveram cursos para pré-candidatas e líderes políticas femininas: PSDB, Podemos, PSL, Patriota, Republicanos (antigo PRB), PC do B e PL (antigo PR).

Três dessas siglas têm programas que envolvem filiadas de todo o Brasil (PSDB, Podemos e Republicanos). O restante são iniciativas de diretórios regionais.

Um exemplo é o do PSL do Tocantins, partido bombardeado em diversos estados com acusações de candidaturas de laranjas.

As acusações levaram o Ministério Público de Minas Gerais a denunciar o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, após investigações iniciadas com base em reportagens da Folha. Também houve casos similares em Pernambuco, estado de Luciano Bivar, presidente do PSL e deputado federal.

No Tocantins, em cursos online, pré-candidatas a prefeitas e vereadoras têm tomado aulas de temas como regras eleitorais, estudo dos adversários políticos e estratégias de marketing eleitoral.

A preparação “vai auxiliar as pré-candidatas a evitar problemas com a Justiça”, diz a deputada estadual Vanda Monteiro, presidente do partido no estado.

“Vamos apresentar para nossa sociedade candidatos que estão realmente preparados, que entendem os contextos políticos, sociais e culturais e com reais chances de eleição”, diz.

Tucanas de todo o país já fazem curso de formação política há mais de dez anos, mas em 2020 haverá uma plataforma online para as cerca de 10 mil candidatas que devem concorrer pelo partido.

Segundo a ex-governadora gaúcha Yeda Crusius, presidente do PSDB Mulher, no aplicativo elas poderão fazer reuniões com até 3.000 pessoas, participar de cursos, produzir material de campanha padronizado e tirar dúvidas sobre as eleições.

“A plataforma quer chamar para a política mulheres que ainda estão temerosas de que não vão receber dinheiro, que não têm preparação. As mulheres do partido se sentem mais amparadas”, diz Yeda.

Em 2016, houve acusações de candidatas laranjas tucanas no município de Alvorada (RS) e, em 2018, algumas tucanas tiveram votação pífia no DF, o que levantou suspeitas.

Segundo Yeda, casos podiam acontecer porque “não teve castigo até então”. “A partir de 2018, os partidos acordaram que tinham que buscar mulheres capacitadas”, diz.

Em São Paulo, o Podemos é alvo de uma ação eleitoral que pede a cassação do mandato da deputada Renata Abreu, presidente da sigla, por suspeita de candidaturas de mulheres que, na prática, não tinham condição financeira de fazer campanha.

Embora o partido tenha destinado 30% das vagas e da verba às mulheres, a acusação é a de que os recursos foram mal distribuídos entre as candidatas, fazendo com que parte delas não tivesse meios para concorrer de fato –seriam candidatas iludidas, consideradas laranjas pelo Ministério Público.

Abreu teve R$ 2,03 milhões investidos pelo partido e se elegeu. As demais candidatas a deputada federal dividiram verba de quase R$ 900 mil.

Segundo Abreu, é normal que partidos não distribuam recursos igualmente. “É distribuído por capital político, as mulheres que já tinham mais votação recebem mais, até porque precisamos cumprir a cláusula de barreira”, diz.

Para engajar a mulher na política, o Podemos também apostou em cursos que pretendem formar quase mil pré-candidatas a prefeitas e a vereadoras. O partido teve que abrir novas turmas devido à lotação.

A intenção de Renata Abreu é “motivar as mulheres para que elas não desistam”. “A disputa eleitoral é muito sacrificante, então é para que elas continuem acreditando e tenham uma formação para que amanhã, como vereadoras ou prefeitas, sintam o respaldo do partido”, diz.

A pandemia do novo coronavírus, que obrigou os cursos a serem online, fez com que o Podemos pudesse atingir todos os estados em 2020, algo que não acontecia nos cursos presenciais de anos anteriores.

A deputada federal Rosangela Gomes (Republicanos-RJ), secretária nacional das Mulheres Republicanas
A deputada federal Rosangela Gomes (Republicanos-RJ), secretária nacional das Mulheres Republicanas - Divulgação/Câmara dos Deputados

Desde o ano passado, o Republicanos tem montado o que chama de força-tarefa de capacitação feminina. Em 2019, reuniu 500 mulheres em um seminário presencial de formação política, mas os cursos foram interrompidos em março desse ano devido à pandemia.

A medida foi um reforço a um programa do partido de lideranças femininas que já existia desde 2016, promovido pela FRB, a fundação da legenda. Também há mobilização do grupo “Mulheres Republicanas”, comandado pela deputada Rosangela Gomes (RJ).

Em 2018, o partido também enfrentou acusações de ter lançado candidaturas laranjas de deputadas, uma dor de cabeça que não quer ter mais.

“Depois das eleições, o presidente [do partido] Marcos Pereira se reuniu com os diretórios e disse que não aceita candidaturas laranjas. Ele disse que é preciso que se tenha mulheres competitivas e com votos, porque a gente não quer sair de novo dessa forma em jornais”, afirma Renato Junqueira, presidente da FRB.

Especialistas consultados pela reportagem defendem os 30% de verbas do fundo destinados a mulheres.

“O fundo estar carimbado faz com que os partidos percebam que não dá mais para adiar a formação de quadros políticos femininos”, diz a advogada eleitoral Isabel Mota, com pós-graduação na Universidade Federal do Ceará e coordenadora de comunicação da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político.

Além do recurso reservado, o escândalo do laranjal do PSL e a decisão do TSE, em 2019, de cassar toda uma chapa de vereadores que descumpriu a cota feminina em Valença do Piauí (PI) colocaram pressão nos partidos.

Mota é otimista para a eleição deste ano. “Estou vendo pela primeira vez os partidos, desde 2019, preocupados em fazerem cursos para formar capital eleitoral, mulheres capazes de entender o que é uma campanha eleitoral”, diz.

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