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Reação institucional é insuficiente para conter golpismo de Bolsonaro

Fux foi duro, mas ficou na retórica; Lira nem isso foi, pensando no cofre do centrão

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São Paulo

Como acontece nos filmes B, o clímax (até aqui) do capítulo 8 de setembro de 2021 da crise institucional brasileira misturou previsibilidade e alguma prestidigitação.

Na superfície, os discursos de Arthur Lira (PP-AL) e Luiz Fux são peças que causariam espanto em qualquer país que se diga democrático: chefes do Legislativo e do Judiciário admoestaram o presidente da República a se comportar dentro da lei.

Lira (esq.) e Fux conversam durante a abertura do ano legislativo na Câmara dos Deputados
Lira (esq.) e Fux conversam durante a abertura do ano legislativo na Câmara dos Deputados - Pedro Ladeira - 3.fev.2021/Folhapress

Ora, Bolsonaro opera fora de parâmetros constitucionais há bastante tempo, empilhando crimes de responsabilidade em quase todas as áreas de sua atuação. As manifestações do 7 de Setembro foram apenas uma apoteose à espera do próximo capítulo.

Assim, quando o presidente do Supremo Tribunal Federal afirmou que os ataques e ameaças do inquilino do Alvorada constituíam práticas "antidemocráticas, ilícitas, intoleráveis", a pergunta se impõe: e então? O ilícito já ocorreu, para ficar no que enseja resposta efetiva.

Riscar a linha numa areia há muito revolvida apenas parece incentivar a delinquência a buscar uma nova oitava acima.

Obviamente, o próprio Fux tem a resposta: Bolsonaro arrisca o pescoço com um processo de impeachment se cumprir, por exemplo, a promessa de ignorar decisões judiciais de Alexandre de Moraes, seu malvado favorito.

Pode ser, mas na prática como isso ocorreria se a Polícia Federal que toca o inquérito das fake news o faz com um delegado autônomo? Novamente, aqui parece mais uma dessas pegadinhas autoritárias corrosivas de Bolsonaro, talvez não elaboradas como tal.

Fux também prestou uma homenagem tão elaborada a forças policiais que cumpriram seu dever e a militares que não estavam na linha de frente no dia 7 que um general questionou se no fundo aquilo não teria sido uma demonstração de temor reverencial ou, pior, fraqueza.

A presença de caminhoneiros radicalizados ameaçando o Supremo e a crença dos bolsonaristas no golpe redentor empresta tons dramáticos a isso.

Uma mensagem que circula entre empresários que apoiam o presidente fala abertamente num golpe que começaria com bloqueios de caminhões em estados adversários, levando intervenções federais que evoluiriam no delírio para a refundação do República ou algo do gênero.

É de se questionar a qualidade do fast-food consumido pelo pessoal, que ignora legislação e condições políticas básicas.

Seja como for, aí o foco se vira para o presidente da Câmara, que deixou claríssimo em sua fala que não pretende colocar nenhuma discussão sobre impeachment para andar. Ou seja, assim como seu antecessor Rodrigo Maia (DEM-RJ), mas por motivos diversos, deixará os pedidos trancados na gaveta.

O rosário de encantos de Lira é o inaudito controle sobre emendas orçamentárias, numa dobradinha com o acossado Ciro Nogueira, que parece atordoado em sua tentativa de extrair o máximo da sociedade anti-impeachment que lhe foi proposta por Bolsonaro.

O manual prático de impeachments preconiza a dissolução política, a crise econômica e as proverbiais ruas para derrubar um presidente. Foi assim com Fernando Collor e Dilma Rousseff, noves fora as irregularidades atribuídas a ambos.

Se a inflação em dois dígitos, a desconfiança do mercado, o risco de apagão, o desemprego e o nó fiscal parecem pouco, há o risco de as ruas cheias do dia 7 de setembro se tornarem transbordantes no próximo domingo (12).

Concorre contra isso o fato de que os atos antibolsonaristas estão sendo chamados pela antiga direita que ajudou a erigir o pedestal rua do epitáfio político de Dilma.

Isso não agradaria a esquerda por si, mas é importante lembrar que o último interessado em ver Bolsonaro removido da equação de 2022 chama-se Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Mesmo para quem apoia abertamente o impedimento hoje de difícil execução, como João Doria (PSDB-SP), um Bolsonaro exangue talvez seja um melhor negócio no enfrentamento das urnas.

Não é casual que Rodrigo Pacheco (DEM, já-já PSD-MG) aja como bombeiro e até suspenda sessões no Senado: sua esperança reside em de fato virar uma alternativa na centro-direita.

E que o vice, general Hamilton Mourão, desfile gestos de fidelidade ao chefe, apesar de ser tratado a pão e água por Bolsonaro: ele pode querer a cadeira, mas não quer a fama de Michel Temer (MDB).

Todo o movimento de atores centristas, encarnado na criação da "Comissão de Acompanhamento do Impeachment" por Gilberto Kassab (PSD), mostra uma mexida de peças. O risco para o mandato presidencial é real.

Pouco importa se o impedimento virá: a pressão é que se mantém alta, e agregada agora pelo risco objetivo de o Supremo usar a bomba atômica ou um avanço notável na cassação via Tribunal Superior Eleitoral.

O Tribunal de Contas da União esbraveja contra o governo. Mesmo uma virada de casaca do procurador-geral, Augusto Aras, vem sendo especulada entre senadores que ventilam seu nome para o lugar da indicação ora inviabilizada de André Mendonça para o Supremo.

O seu anódino discurso na sessão do Supremo desta quarta nada revelou sobre o homem que, com Lira, serve de dupla de zaga jurídica de Bolsonaro.

O bode, afinal, segue na sala. O ponto de concordância mais eloquente entre Fux e Lira foi a vocalização da exasperação de políticos e do mercado ante a inexistência de um governo funcional.

Para Bolsonaro, é o mundo possível. Ele fez a opção pela sugestão de imolação em nome da travessia com apoio até a renovação do discurso da eleição ilegítima em 2022, o que desautoriza qualquer conversa sobre pacificação ou acomodação que dure mais de algumas horas ou dias.

Nada aponta condições objetivas para golpe, autogolpe ou bruxarias afins. Mas o golpismo de Bolsonaro seguirá vivo e bem com a reação que inspirou até aqui das instituições.

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