Por 2020, Covas deve avançar em mudanças de secretarias em SP

Em busca de musculatura política, prefeito paulistano pode negociar pasta da Saúde

Igor Gielow
São Paulo

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), disse a aliados que a reforma de seu secretariado visando a eleição de 2020 ainda não acabou. A pasta da Saúde é o mais vistoso posto que pode entrar na negociação por musculatura política.

Na terça (8), ele causou surpresa ao demitir sem alerta antecipado Alexandre Schneider (Educação) para acomodar o apoio do ex-governador Márcio França (PSB), que indicou seu ex-secretário na área, João Cury Neto.

Segundo conhecidos, Covas havia pensado em ofertar a França a Saúde.

O principal motivo é de imagem: o atual secretário, Edson Aparecido (PSDB), é acusado na delação da CCR ao Ministério Público Estadual de receber R$ 340 mil em caixa dois.

A empresa é a maior administradora de concessões de rodovias, portos e aeroportos do país, e está negociando com o Ministério Público pagar R$ 81,5 milhões para encerrar as investigações pelo pagamento irregular de valores a políticos.

Aparecido, que foi chefe da Casa Civil do Estado no governo Geraldo Alckmin (PSDB), nega as acusações.

O entorno de Covas considera que a mera acusação numa área tão exposta e dentro do ambiente geral de intolerância à corrupção no eleitorado pode se tornar um peso na busca da reeleição.

Podem ser acomodados na pasta, ou em outras, o DEM do vice-governador do estado Rodrigo Garcia ou o PP.

A ejeção sumária de Schneider horrorizou parte do gabinete de Covas, porque ele é considerado um bom técnico. Mas o enfraquecimento de seu principal padrinho, Gilberto Kassab (PSD), foi decisivo para a mudança.

Kassab havia sido indicado para a Casa Civil do novo governador, o ex-prefeito paulistano João Doria (PSDB).

O adensamento de investigações da Polícia Federal contra si, incluindo apreensões no fim do ano passado, o fez optar por não assumir enquanto estiver se defendendo.

Desde o dia 4, Kassab está licenciado do secretariado e poucos integrantes do governo creem que ele irá voltar.

A movimentação de Covas trouxe o temor de mais um racha no tucanato, após Doria ter se afastado de seu padrinho, Alckmin, por namorar a candidatura presidencial que acabou em fracasso nas mãos do ex-governador.

Nos grupo de Covas e de Doria, o gesto do prefeito paulistano foi visto como limítrofe em termos de risco entre os aliados de chapa em 2016. Mas ninguém fala em rompimento ainda, o que segundo aliados dos dois pode ser prejudicial a ambos.

Ao mesmo tempo, Covas precisou demarcar território ao perceber as movimentações de Henrique Meirelles (MDB), o ex-ministro, ex-presidenciável e agora secretário de Fazenda de Doria.

A presença de Meirelles na sua equipe é considerada por aliados de Doria como um prelúdio de uma disputa à prefeitura no ano que vem.

Ninguém confirma isso em público, mas aliados do prefeito temem que haja um acordo tácito para que Meirelles seja o candidato apoiado por Doria à prefeitura no ano que vem.

Ser rifado num PSDB cada vez mais dominado por Doria, que emergiu como principal liderança do partido após o massacre eleitoral sofrido em 2018, é uma preocupação no grupo do prefeito.

Há precedentes no tucanato. Em 2008, o então governador Serra apoiou Kassab em detrimento do correligionário Alckmin, que ficou num humilhante terceiro lugar na disputa municipal.

De todo modo, a escolha de Cury Neto pode ser lida como provocação. O novo secretário era tucano, mas foi expelido da sigla por aliados de Doria.

Do ponto de vista tático, a ideia de aplacar Márcio França foi bem vista mesmo pelo lado do Palácio dos Bandeirantes.

Então candidato ao governo do Estado no ano passado, ele teve votação expressiva na capital, derrotando Doria no segundo turno por 58,1% a 41,9% dos votos válidos.

Pesou no resultado o efeito que a saída do tucano da prefeitura com pouco mais de um ano no cargo provocou.

Nas mudanças realizadas na terça, Covas também privilegiou o PRB, partido que havia ameaçado deixar a base do governo na Câmara Municipal, onde tem quatro vereadores, a quarta maior bancada.

Foi entregue ao partido a Secretaria da Habitação, uma das mais cobiçadas devido à visibilidade de suas ações e às verbas que maneja.

Segundo aliados de Covas, seu estilo retraído não tem lhe dado a exposição pública necessária para chegar nas condições supostamente favoráveis que uma candidatura à reeleição fornece. As limitações do caixa da prefeitura também não permitem voos muito ousados.

A nova realidade na política estadual, com um reforçado Doria cercado de aliados fora do tucanato, inspirou e ao mesmo tempo obrigou o prefeito a se mexer.

Erramos: o texto foi alterado

A reportagem afirmava incorretamente que João Doria (PSDB) teve 49,9% dos votos válidos na capital paulista na eleição para governador do estado em 2018. Na verdade, ele teve 41,9% dos votos válidos. O texto foi corrigido.

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