Casas Rosa acolhem jovens na mira do comércio sexual na BR-116

ONG Meninadança mantém 4 centros em trechos críticos para prostituição na rodovia entre MG e BA

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Cândido Sales (BA)

"Já fiz corre, mas hoje não faço mais", diz Patrícia (nome fictício), 17, sobre programas com caminhoneiros em postos de gasolina nos arredores de Cândido Sales, município do sudoeste baiano cortado pela BR-116.

A iniciação no comércio sexual foi pouco depois de perder a virgindade com o primeiro namorado aos 14 anos. "As meninas me diziam. ‘Vem com a gente. É bom’."

E rumavam para pontos conhecidos de exploração sexual de crianças e adolescentes nos arredores da cidade de 28 mil habitantes. Os dois postos de gasolina foram mapeados pela Polícia Rodoviária Federal como locais críticos na rodovia de 4.486 km de extensão, que passa por dez estados.

"Fui algumas vezes para a BR por necessidade, mas aquilo não é vida", diz a adolescente de cabelos pintados de rosa e piercing no nariz. "Já sofri muito na vida. Precisei e preciso de ajuda."

Gênero: feminino

Série discute, em oito minidocumentários e reportagens especiais, diferentes aspectos da violência contra a mulher no Brasil

Ela e outras 43 garotas da região encontram apoio na Casa Rosa, mantida pela ONG Meninadança. "Aqui encontrei orientação e amizade", diz Patrícia, que não conheceu o pai e se desentendeu com a mãe. Vive de favor na casa de um parente do namorado em um conjunto habitacional.

"As condições são difíceis. Às vezes, falta água, outras, comida", relata a adolescente, que abandonou a escola no Ensino Fundamental. "É difícil conseguir emprego. O jeito é se virar, comer na casa de um parente, descolar um arroz e feijão na vizinhança."

Os caminhoneiros querem carne nova. Não estão nem aí se é uma criança ainda

Coralaine Santos de Jesus, 21

ex-frequentadora da Casa Rosa

Na Casa Rosa, ela recebe atendimento multidisciplinar e participa de oficinas de danças, artesanato e culinária.

"A casa é um dos nossos eixos de atendimento, com apoio psicológico e jurídico para meninas em situação de vulnerabilidade social, tanto vítimas de violência quanto de violação de direitos", explica Keyla Cardoso, coordenadora da Associação Meninadança em Cândido Sales.

O município abriga um dos quatro centros de apoio mantidos pela organização fundada pelo jornalista britânico Matt Roper, autor do livro "Highway to Hell" (Monarch Books, 214 págs.). "Autoestrada para o inferno", em tradução livre, lançado em 2013, alerta para o drama de meninas prostituídas às margens da BR-116.

O autor denuncia povoados inteiros vivendo da exploração sexual infantil, pais que vendem as próprias filhas e autoridades que fecham os olhos para o crime.

Mantidas com doações do Reino Unido, as primeiras Casas Rosa foram fundadas em Medina (MG), em 2013, e em Cândido Sales, em 2016. Três anos depois, abriram-se as portas de duas unidades, em Padre Paraíso, no Vale do Jequitinhonha, e Catují, no Vale do Mucurí, zonas de baixo IDH em Minas Gerais.

"Atuamos em um raio de 300 km entre as zonas pobres de Minas e o sudoeste da Bahia, conhecido como corredor da prostituição infantil", explica Warlei Torezani, coordenador do projeto, nascido em Belo Horizonte.

"Nossas casas oferecem ambientes seguros para empoderar meninas que vivem em uma cultura que vê o abuso e a exploração de crianças como fatos normais, aceitáveis."

A lógica é atuar junto às famílias e à comunidade para atender vítimas de abuso e exploração sexual, mas também jovens em risco social.

Em uma rua central de Cândido Sales, a residência alugada para abrigar o projeto foi pintada de rosa, a cor que dá nome aos centros, onde são promovidas rodas de conversa e atendimento psicológico em espaços lúdicos.

Os cuidados estão em detalhes como a tenda cheia de almofadas onde as meninas gostam de ler ou se deitam para conversar com a psicóloga e também no avental cor-de-rosa e nos cadernos de receita, que cada uma vai levar para casa ao final do curso.

Numa sala espelhada, um grupo ensaia movimentos de jazz. "A dança é um instrumento de reapropriação. O meio pelo qual as meninas tomam de volta o que lhes foi roubado: a liberdade, a identidade e a individualidade", afirma a professora Jaqueline Moreira.

"Em frente ao espelho, elas conseguem se enxergar e descobrem que o corpo lhes pertence e que são fortes, corajosas e têm um futuro pela frente."

É um trabalho de formiga, frente a um problema tão complexo. "O pouquinho que conseguimos fazer já é uma diferença enorme na vida dessas meninas", diz Keyla, atenta à realidade daquelas que não encontraram alternativas para se afastar do comércio sexual na BR.

A rotina de Carolaine Santos de Jesus, 21, mãe de uma menina de 3 anos e um garoto de 6, hoje passa ao largo da Casa Rosa.

Grávida de gêmeos, ela admite com tristeza que precisa fazer programas na rodovia, complemento aos R$ 265 mensais que recebe do governo. "Estamos no escuro", diz. Em outubro, não sobrou para pagar a conta de luz.

"Queria mudar essa história e meu futuro", diz. Ela vai para a pista desde os 14 anos, mesmo caminho seguido pelas irmãs mais novas, hoje com 20 e 18.

"Quanto mais novinha mais ganha", explica ela, na lógica de quem tira no máximo R$ 50 por programa, mas já ganhou R$ 300.

"A gente passa muita dificuldade. Eu e minhas irmãs tivemos de nos virar desde menores de idade. Fui saber que era crime aqui na Meninadança", diz ela sobre o trabalho de conscientização da ONG. "Os caminhoneiros querem carne nova. Não estão nem aí se é uma criança ainda."

A fiscalização na rodovia dificulta mas não impede a prática, segundo a jovem. "Ainda acham que tenho menos de 18 anos, não consigo pegar carona na estrada." Aos cinco meses de gestação, acerta os programas, a maioria feitos nas boleias, em postos de gasolina com grande fluxo de caminhões no trecho que fica a 80 km de Vitória da Conquista.

"Acontece na carreta mesmo. Eles pagam e vão embora", afirma. Em noites movimentadas, Carolaine conta que chega a fazer cinco programas.

Em um dos postos onde faz ponto, o comércio sexual não é mais tão visível como no passado. O vaivém de caminhões é incessante, entre eles um Scania com um banner gigante na lateral: "Vamos acabar com a exploração sexual de crianças e adolescentes".

"Se presenciar situação suspeita, denuncie", alerta a campanha do programa Mão Certa, da Childhood Brasil, para conscientizar caminhoneiros.

A carreta é conduzida por Adnaldo Amaral, 47, há quase 30 anos na estrada. "A campanha é importante, pois, infelizmente, esse problema existe. Não se vê mais tanta criança, mas é uma situação que persiste em alguns trechos", afirma o caminhoneiro. "A polícia apertou o cerco e a conversa mudou, mas já presenciei situações inacreditáveis."

No posto da PRF, alguns quilômetros à frente, foi interceptado em 19 de outubro um carro de passeio, a caminho de São Paulo, com um condutor de 64 anos e uma garota de 11 anos.

"Foi uma abordagem de rotina, que chamou a atenção pelo fato de a menina estar de uniforme escolar e não ter relação de parentesco com o motorista", relata Anselmo D’Emidio, agente da Polícia Rodoviária Federal. "Ambos confirmaram que tiveram relações sexuais."

Caracterizado o estupro de vulnerável, a família foi localizada. Havia sido registrado o desaparecimento da garota em Poções (BA), um dia antes. O aliciamento aconteceu por meio de uma rede social, novidade tecnológica que se soma a tantos outros fatores de vulnerabilidades ao longo da BR-116.

"Volta e meia chega o relato de que uma menina fugiu pela BR", conta Keyla. Drama que a aposentada Dalma Oliveira, 63, viveu com a neta Júlia (nome fictício), 16, abandonada pela mãe no hospital. O bebê ficou sob os cuidados do Conselho Tutelar, até ser encaminhada para a avó paterna.

Aos 13 anos, a menina fugiu de casa e retornou oito dias depois. "Ela subiu a BR até Fortaleza." Na volta, engravidou do namorado, e a avó passou a criar também a bisneta. Aos 14, Júlia fugiu de novo. "Um caminhoneiro a trouxe de volta. Ela podia ter levado um outro fim."

A avó encontrou na Casa Rosa um suporte para si mesma e para a neta. "Ela só quer saber de celular, mas aqui aprende artesanato, conversa com a psicóloga, enquanto eu faço oficina de pintura", relata a senhora, que frequenta a Igreja Batista. "Oro a Deus para ter misericórdia e afastá-la dos males da BR-116."

DENUNCIE

Qualquer pessoa pode denunciar casos de abuso e exploração sexual pelo Disque 100 (basta teclar 100 de qualquer telefone em qualquer lugar do país) ou pelo Ligue 180 (basta digitar 180).

O atendimento é gratuito e funciona 24 horas.

Sobre o especial Gênero: Feminino

Métodos e bastidores

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Leia tudo sobre o tema e siga:

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.