Sem participar de licitações, empresa domina placas no futebol brasileiro

Com capital social de R$ 75 mil, Esportecom é terceirizada por grupos vencedores

Diego Garcia Sérgio Rangel
São Paulo e Rio de Janeiro

Uma empresa fundada no fim de 2014 e com capital social de R$ 75 mil detém representação comercial para vender placas de publicidade dos Campeonatos Carioca, Paulista, Brasileiros Séries A e B, Copa do Brasil, Maracanã, mais os jogos de Corinthians e Flamengo de 2019 a 2022.

Para ter os serviços, a Esportecom, com sede no Rio de Janeiro, presta serviços às donas dos contratos, sem participar de licitações de entidades como CBF, Federação Paulista de Futebol e Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro.

O mercado de placas de publicidade estática do futebol brasileiro movimenta centenas de milhões de reais por temporada no país.

O direito sobre as placas do Brasileiro é da BR Foot Mídia, que venceu a concorrência da CBF. O grupo paga R$ 110 milhões por ano, e o contrato vale por quatro temporadas, entre 2019 e 2022.

Empresa que não participa de licitações da CBF domina o mercado de publicidade estática nos principais torneios do país
Empresa que não participa de licitações da CBF domina o mercado de publicidade estática nos principais torneios do país - Ale Cabral/AGIF

No Brasileiro de 2019, por exemplo, a soma de todas as mídias do campo que serão revendidas dá um valor aproximado de R$ 250 milhões. Um tapete 3D no gramado custa R$ 6,1 milhões, o painel de LED, R$ 1,8 milhão, enquanto cada placa sai R$ 11,5 milhões, pelos 380 jogos da competição.

Já na Série B, são 38 placas por partida, vendidas em média por R$ 400 mil --o contrato pertence à Sport Promotion. No Paulista, o valor varia entre R$ 500 mil e R$ 750 mil por mídias, vendidas pela Propaganda Estática, que compra da FPF por R$ 11 milhões por temporada.

As donas dos contratos de cada competição repassam o serviço às representantes comerciais, como a Esportecom. Essas companhias levam comissionamento que fica na faixa dos 20%.

O dono da Esportecom é o empresário Bruno Rodrigues. Antes de abrir a companhia, ele trabalhava como representante comercial da Klefer, do ex-presidente do Flamengo Kleber Leite, que dividia com a Traffic os principais contratos publicitários do futebol brasileiro antes do escândalo da Fifa, em 2015.

Kleber Leite é citado no Fifagate por José Hawilla como pagador de propinas nas negociações por direitos de TV e publicidade do futebol brasileiro, fato sempre negado por ele, que não enfrenta nenhuma acusação nos Estados Unidos.

Nos processos nos EUA existem transcrições de gravações do empresário com Hawilla supostamente discutindo os pagamentos ilegais a dirigentes da CBF por contratos da Copa do Brasil, outro fato negado pela Klefer, que não reconhece o documento e chama os diálogos de mentirosos.

Os ex-presidentes da CBF José Maria Marin, Marco Polo Del Nero e Ricardo Teixeira são citados nas conversas. Eles negam crimes, confessados pelo ex-dono da Traffic, que colaborou com o FBI desde 2013 -- ele morreu em maio de 2018.

 

O escândalo levou à prisão José Maria Marin, ex-presidente da CBF, e ao banimento Marco Polo Del Nero, ambos por corrupção. Na mesma época em que Hawilla falou da Klefer no Fifagate, a Esportecom foi criada e passou a trabalhar no futebol brasileiro.

"A única relação que a Klefer tem com a Esportecom, é a mesma que tem com, pelo menos, mais dez empresas mundo afora. Estas empresas estão autorizadas a negociar projetos em que a Klefer seja detentora dos direitos. Exclusivamente, isto. Nada além disso", diz Kleber Leite.

"A Esportecom também representa comercialmente a Klefer, empresa que tem o Kleber Leite como sócio. Atualmente, administramos investimentos de alguns clientes na Copa do Brasil, competição cujos direitos comerciais pertencem à Klefer", afirma Bruno Rodrigues.

Na Copa do Brasil, a Klefer detém os direitos de comercialização desde 2014. O acordo é válido até 2022.

Em seu site, a Esportecom anuncia a parceria com a empresa de Kléber Leite para a realização de serviços de exploração das placas de publicidade na segunda competição mais importante do futebol nacional.

"Atuamos como representantes comerciais, não exclusivos. Convivemos com outras empresas que atuam rigorosamente da mesma forma, em busca de clientes e patrocinadores para as competições cujos direitos comerciais pertencem a estas empresas", afirmou Rodrigues.

Outra parceira da Esportecom é a Propaganda Estática, que fornece à empresa a representação comercial para vender placas do Paulista.

A Estática venceu a licitação da CBF para trabalhar de forma exclusiva nos jogos da seleção brasileira nas eliminatórias para a Copa do Mundo 2022, e também já alinha novo acordo com a Esportecom.

Dono da Esportecom é ex-representante da empresa de Kleber Leite, ex-presidente do Flamengo, que dividia com a Traffic os principais contratos de publicidade do futebol brasileiro
Dono da Esportecom é ex-representante da empresa de Kleber Leite, ex-presidente do Flamengo, que dividia com a Traffic os principais contratos de publicidade do futebol brasileiro - Zanone Fraissat/Folhapress

A Propaganda Estática tem cinco funcionários e é dona dos contratos do Paulista desde 2003, mesmo ano que Del Nero assumiu a entidade. Desde então, a companhia venceu todas as licitações do futebol de São Paulo. Chegou a faturar mais de R$ 90 milhões líquidos nos últimos quatro anos do cartola na Federação Paulista, entre 2011 e 2015.

Outro parceiro da Esportecom é a Sport Promotion, que tem o controle das placas de publicidade da Série B, e também das partidas de Corinthians e Flamengo, nos Brasileiros dos próximos quatro anos. A empresa conseguiu o serviço depois de a dupla desistir de assinar com a BR Foot Mídia, que havia vencido licitação promovida pela CBF para ter o controle na Série A.

A empresa disse que detém o mesmo tipo de representação com outras quatro empresas. "Os serviços propostos pelos representantes são avaliados antes de qualquer acordo comercial. Uma vez aprovados por nosso compliance, estabelecemos a lista de clientes a serem por eles atendidos", diz o diretor comercial da Sport Promotion, Alfredo Carvalho.

Questionada sobre a Esportecom, a BR Foot Mídia mandou procurar a própria empresa de Bruno Rodrigues. Já a Estática não respondeu. A CBF disse que não possui contratos com a Esportecom e informou que a empresa nunca participou de licitações da entidade.

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