Fui humilhado, diz palmeirense expulso do Allianz Parque

Diego Lima foi agredido em jogo com torcida única, contra o Flamengo

São Paulo

Torcedor do Palmeiras na infância, o ex-jogador Diego Lima, 34, nunca tinha ido ao Allianz Parque. Esteve no estádio pela primeira vez no último domingo (1º), no jogo do time da casa contra o Flamengo, campeão brasileiro. 

Não foi boa a lembrança que guardou. No intervalo da partida, ele e seu amigo Ronaldo Souza, 35, foram expulsos das arquibancadas do setor gol norte por torcedores palmeirenses. Chamados de “flamenguistas infiltrados” e “mulambos”, levaram cusparadas e chutes, e precisaram se esconder dentro da lanchonete do estádio para não serem agredidos.

“Nunca tinha passado uma situação tão humilhante na minha vida. Graças a Deus tive uma história no futebol, passei por vários estádios. E sair de um estádio daquela forma, foi muito humilhante”, diz Lima.

Diego Lima (esq.) e Ronaldo Souza, em frente ao campo do Botafogo de Guaianases, com o morro da favela ao fundo
Diego Lima (esq.) e Ronaldo Souza, em frente ao campo do Botafogo de Guaianases, com o morro da favela ao fundo. Eles vestem a camisa da equipe e Lima, o casaco que usou no jogo do Palmeiras - João Gabriel/Folhapress

Apenas torcedores do Palmeiras foram autorizados a entrar no estádio, em medida tomada pela CBF após pedido do Ministério Público de São Paulo. Um relatório da Polícia Militar indicou haver risco de confrontos entre torcidas antes da partida.

Os dois amigos foram atacados por não estarem com roupas verdes. Os agressores disseram também que eles não estavam vibrando, o que era um indicativo de que seriam flamenguistas. O Palmeiras perdia o jogo por 2 a 0 até ali.

“No vídeo [que circula na internet], você vê os seguranças olhando. Se é torcida única, e você vê duas pessoas sendo ameaçadas, você tinha que subir rápido [e intervir]”, reclama Ronaldo. Ambos são contra a adoção da medida, que entendem como excludente.

Os dois reconhecem que não são torcedores fanáticos. Dizem amar o futebol. Ronaldo conta que já foi em outros estádios, mas nunca havia passado por algo semelhante.

Ele diz que, desde segunda, trabalha angustiado. Nunca se sentiu tão "reduzido" na vida como quando ficou encurralado na lanchonete do estádio, com torcedores olhando para ele com cara de ódio “por uma coisa que você nem entende”, como se ele fosse “um lixo”.

“Tinha um cara que tava com o filho do lado, cuspindo, xingando, chamando de mulambo. Um dia o filho dele pode hostilizar alguém e falar que ‘pai, você fazia isso’”, comenta.

Lima consegue traçar apenas um paralelo com o acontecimento vivido nas arquibancadas. Foi quando era jogador do Central de Caruaru e ouviu um torcedor do Lajeadense chamá-lo de “macaco”, em jogo pela série D em 2016.

Atualmente, a Fifa recomenda que o protocolo a ser seguido em casos de racismo seja paralisar a partida, conter a torcida e, se nada for resolvido, determinar ali o fim do jogo com pena de derrota para o clube cujo torcedor seja infrator.

Há três anos, o volante respondeu atirando uma garrafa de água em seu ofensor. Foi expulso.

Negros, Lima e Ronaldo foram expulsos por palmeirenses brancos. 

“Quando terminou o primeiro tempo, vi que tinha gente olhando para a gente, eu até falei ‘Diego, tem muita gente olhando, será que é alguma coisa?’”, conta Ronaldo, que acredita que a cor da sua pele teve influência no tratamento que recebeu. Já Lima vê mais ódio clubístico do que racismo no caso. 

Para Marcelo Carvalho, coordenador do Observatório Racial do Futebol, a ausência do termo "macaco" diminui as chances do que ele chama de racismo incidental, isto é, da ofensa individual proposital.

Ele ressalta, porém, que no recorte do vídeo, é claro o contraste entre eles, dois negros, em meio a pessoas brancas.

"É uma reflexão que cabe sobre o racismo estrutural. Duas pessoas negras nesse espaço, será que elas realmente pertencem a este espaço? Será que não foi este esse primeiro sinal que aquelas pessoas não eram dali?", questiona.

Ele ressalta ainda o uso da palavra "mulambo". "A associação que se faz é do flamenguista ser pobre, negro, favelado e presidiário. O termo traz isso, essas conotações pejorativas", diz, explicando que o observatório conduz uma campanha para que as torcidas abandonem expressões como estas.

De Itapebi, na Bahia, Lima passou por clubes como CSA, União Barbarense, jogou na Ucrânia e em Portugal, e encerrou a carreira em um Flamengo, o de Teresina. Hoje, dá treinos no campo do Botafogo de Guainases, homônimo do rival flamenguista no Rio, que fica na Zona Leste de São Paulo.

Ele ensina futebol para crianças carentes, de 5 a 17 anos, da zona leste da capital paulista, com o projeto Lima7. Também participa do Cambalhota do Bem, instituição que promove partidas para angariar fundos de assistência a famílias em necessidade.

Era desse segundo programa o casaco que ele estava vestindo no estádio, no domingo. Diz que contou para os torcedores ao seu redor, mostrou o símbolo, e de nada adiantou.

Em sua carreira, nunca pôde jogar no time de sua infância. Agora, tampouco pretende voltar à arena dele.

Torcedores do Palmeiras no Allianz Parque
Torcedores do Palmeiras no Allianz Parque - Amanda Perobelli/REUTERS

Em nota publicada em seu site o Palmeiras disse que não compactua ou aceita atos de intimidação e discriminação. "Se os responsáveis constarem do quadro de sócios Avanti do Palmeiras, serão sumariamente excluídos do programa. O respeito ao próximo é o mínimo que se espera em qualquer ambiente, ainda mais em uma praça esportiva", conclui o texto.

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