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Cinema

Indicações de 'Parasita' ao Oscar são formidáveis e também espantosas

Filme sul-coreano apareceu em seis categorias da premiação, que divulgou seus nomeados nesta terça

Após um ano mais que animador para o cinema como foi 2019, não havia mesmo muitas surpresas a esperar do Oscar.

Mas as seis indicações para um filme asiático, por mais formidáveis que sejam, não deixam de ser espantosas, até porque "Parasita" concorre a melhor filme, direção, roteiro original, montagem, filme internacional e design de produção.

É bem menos que “Coringa” (11), “O Irlandês”, “Era Uma Vez em... Hollywood” e “1917” (dez cada). Empata com “Jojo Rabbit” e “História de um Casamento” (seis cada), também indicados a melhor filme, mas não a melhor diretor.

Em poucas palavras, o sul-coreano Bong Joon-ho chega pela primeira vez ao Oscar, com a bola cheia: são, pessoalmente, quatro indicações (direção, filme estrangeiro, filme e roteiro original). “Parasita” é um de seus melhores trabalhos, mas perde para “Memórias de um Assassinato” (2003), seu segundo longa.

Outros nomes entram com força, indicados para melhor filme e direção: Sam Mendes (“1917”), Martin Scorsese (“O Irlandês”), Todd Phillips (“Coringa”), Quentin Tarantino (“Era Uma Vez em... Hollywood).

Desses, Phillips e Tarantino nunca ganharam como diretor. Aliás, Phillips nunca ganhou como coisa nenhuma, enquanto Tarantino já levou prêmios por roteiro duas vezes.

Martin Scorsese é candidato quase todo ano e, com uma única exceção (por “Os Infiltrados”, um filme menor, em 2007), a tradição é que seja passado para trás. Já Sam Mendes levou o prêmio de direção pelo hoje já felizmente esquecido “Beleza Americana” (em 2000). Depois disso, admita-se, se deu muito bem no cinema de ação, promovendo um renascimento da série "007", o que o qualifica ao voo de “1917”, filme de guerra, portanto ação.

Entre os indicados a melhor filme, reza a tradição que só têm chance os indicados também a melhor direção, ou seja, “Ford vs. Ferrari”, “Jojo Rabbit” e “História de um Casamento” são os outsiders da categoria.

Mas podem conseguir como consolação prêmios de melhor roteiro (“História de um Casamento”) e roteiro adaptado (“Jojo Rabbit”). Essa última categoria serve para introduzir o meloso “Adoráveis Mulheres” no jogo.

Se não for o caso de o montador ter enlouquecido, como entender a indicação de um filme em que a protagonista sai às pressas para visitar a irmã doente e chega lá uns 40 minutos depois, com sequências e sequências no meio que nada têm a ver com o problema?

Mas “Adoráveis Mulheres” pode dar a Hollywood a chance de lançar uma nova estrela, na pessoa de Saoirse Ronan, já indicada duas vezes a melhor atriz e uma a atriz coadjuvante.

Mas essa pode ser a chance da já consagrada Scarlett Johanson, que concorre a melhor atriz (“História de um Casamento”) e a coadjuvante (“Jojo Rabbit”). Ou pode ser a vez de Renée Zellweger, que já levou melhor coadjuvante (“Cold Mountain", em 2004). Cynthia Erivo nunca ganhou, nem foi indicada, pode ser a surpresa se ganhar numa categoria onde concorre, ainda, a notável Charlize Theron, que só venceu por “Monster - Desejo Assassino”, em 2004.

Entre os atores não será absurdo dizer que a coisa está mais interessante entre os coadjuvantes: ninguém menos que Tom Hanks (“Um Lindo Dia na Vizinhança"), Anthony Hopkins ("Dois Papas"), Al Pacino e Joe Pesci (“O Irlandês”) e Brad Pitt (“Era Uma Vez em... Hollywood”) rondam a estatueta que todos eles já ganharam ao menos uma vez —mas Pitt como produtor, pelo filme "12 Anos de Escravidão".

Entre os atores principais, ao  contrário, só Leonardo DiCaprio tem Oscar. Antonio Banderas, o latino, e Jonathan Pryce, o galês, estão indicados pela primeira vez.

Joaquin Phoenix seria o favorito por seu Coringa, mas depois de seu discurso ao menosprezar premiações, ao ganhar o Globo de Ouro e dizer que aquela competição visa apenas promover seus filmes, pode ser passado para trás. Por dizer a verdade, afinal. Nesse caso, crescem as chances dos demais, inclusive de Adam Driver (“História de um Casamento”), ator de primeira e estrela ascendente em Hollywood.

Entre as atrizes coadjuvantes, a indicação mais espantosa é a de Kathy Bates. É sabidamente uma ótima atriz, mas seu trabalho não é possivelmente nem a melhor interpretação do forte e renegado “O Caso Richard Jewell”, de Clint Eastwood.

Laura Dern (“História de um Casamento”), Scarlett Johanson, Florence Pugh (“Adoráveis Mulheres”) e Margot Robbie (“O Escândalo”) fecham a turma numa categoria em que os especialistas de Oscar andam apontando Laura Dern como favorita (ah, devia ter sido indicada é pelo “Twin Peaks” de 2017, feito por David Lynch, mas que nem passou nos cinemas).

Depois de um ano iluminado para o cinema brasileiro, tudo que conseguimos emplacar no Oscar foi “Democracia em Vertigem”, o mais recente nhe-nhe-nhém de Petra Costa. O que se chama ali de vertigem é, pelo menos, perigo. Mas, vá lá, serve para mostrar ao universo como tratamos a democracia aos pontapés.

Normalmente não conhecemos os indicados dessa categoria —que este ano tem quatro de seus cinco nomeados dirigidos por mulheres—, mas desta vez “American Factory” está na Netflix e mostra, secamente, como o imperialismo chinês começa a invadir os EUA. Ver o filme já dá saudades dos bons tempos do imperialismo americano...

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