Descrição de chapéu Financial Times series

'Bridgerton' lidera onda de dramas de época produzidos na esteira do MeToo

Nesses filmes e séries, homens até estão no controle nominalmente, mas são incompetentes na melhor das hipóteses

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John Gapper
Financial Times

Cavalgando por um parque de Londres em 1813, Daphne Bridgerton, heroína da série “Bridgerton”, da Netflix, se volta para o irmão, Anthony, e confessa suas dores.

A queixa de Daphne ecoa os problemas enfrentados por muitas das heroínas dos dramas de época, de Elizabeth Bennett, de “Orgulho e Preconceito” de Jane Austen —publicado naquele ano— à lady Mary Crawley, de “Downtown Abbey”.

“Você não faz ideia do que é ser uma mulher, de qual é a sensação de ter toda a sua vida reduzida a um único momento. Fui criada apenas para isso. É tudo que sou. Não tenho outro valor. Se eu não for capaz de encontrar um marido, nada valerei”, diz Daphne ao lorde Bridgerton. Ela logo organiza uma trama com um duque amigo de seu irmão –um homem bonito e arrogante, naturalmente–, e a intriga começa.

É uma narrativa de dinheiro e matrimônio, de honra e trapaça, de amor e estratégia, de aristocracia e novos ricos, com belas mansões, lindos vestidos e tiaras de diamantes usadas em arranjos que incluem penas de avestruz.

A família Bridgerton desfruta de um espetáculo de fogos de artifício nos jardins de Vauxhall, onde, como aponta a historiadora Hannah Greig em seu livro sobre a Londres da era georgiana, “The Beau Monde”, uma “prostituta podia se passar por herdeira, e um cafajeste, por homem respeitável”.

Em companhia das histórias policiais, dos dramas sobre escolas de segundo grau, dos filmes de ação e das sagas de fantasia, o drama de época é uma forma de arte persistente. Séries da BBC como as adaptações televisivas de “Guerra e Paz”, de Tolstói, de 1972, ditaram o tom do que viria a seguir.

As roupas, dos fraques e gravatas aos espartilhos e vestidos de baile, simbolizam um grau de repressão que, como escreveu a historiadora Joanna Scutts, “como um espartilho, está sempre ameaçando se desatar”.

“Bridgerton”, adaptado de romances históricos da escritora Julia Quinn, se desata imediatamente, quando lorde Bridgerton surge fazendo sexo com sua amante, apoiado a uma árvore conveniente.

Uma cena como essa não seria encontrada em Jane Austen, mas tem relevância histórica. “Só consigo conceber Londres como uma espécie de amante –dissoluta em termos de princípios, desregrada na prática, e extravagante no prazer”, escreveu Anne Ingram, viscondessa Irwin, ao seu pai, em Yorkshire, na década de 1730.

“The Great”, uma comédia histórica inventiva sobre Catarina a Grande, czarina da Rússia, criada por Tony McNamara, um dos roteiristas do filme “A Favorita”, indicado ao Oscar em 2018, se desata de maneira diferente.

A série, produzida pelo serviço de streaming americano Hulu e lançada no ano passado, toma liberdades consideráveis com os fatos (e é descrita como “uma história ocasionalmente verdadeira”), mas retrata o império russo em farsa. Os dramas de época se tornaram amplos o suficiente para acomodar o pós-modernismo, além do luxo.

Agora se tornou comum realizar experiências com o tom e a escolha de elenco dessas histórias, em vez de respeitar a tradição. Desde “As Patricinhas de Beverly Hills”, comédia de 1995 baseada em “Emma”, de Jane Austen, o romance foi dramatizado de muitas maneiras diferentes.

Mas a versão de 2020 de Autumn de Wilde, estrelada por Anya Taylor-Joy, trata o enredo quase como uma comédia. Enquanto isso, há atores negros interpretando aristocratas em “Bridgerton”, e Armando Iannucci escalou Dev Patel para o papel principal de “A Vida Extraordinária de David Copperfield”, sua ardilosa versão repaginada do romance clássico de Charles Dickens.

Continua a ser notável que Shonda Rhimes, nascida em Chicago e responsável por séries americanas como “Grey’s Anatomy”, tenha escolhido “Bridgerton” para ser a primeira produção de sua empresa, Shondaland, no seu contrato de US$ 100 milhões, cerca de R$ 546 milhões, com a Netflix.

O trabalho não só é um drama de época como ocupa um cenário inesperado –Grosvenor Square e o Palácio de Buckingham, no lugar de, por exemplo, os Estados Unidos da época da guerra civil, como aconteceu em “... E o Vento Levou”, produzido por David Selznick em 1939.

A explicação clássica para o sucesso dos dramas de época é que eles oferecem conforto psicológico e uma válvula de escape em períodos difíceis. O fato de que “Bridgerton”, lançada em meio à pandemia e a uma crise econômica, se tornou recentemente a série mais vista da plataforma sustenta isso. A estimativa é de que tenha sido vista por 63 milhões de domicílios em seus primeiros 28 dias em cartaz.

“A audiência deseja escapismo e o glamour do passado, e que tudo pareça bonito. Em 'Bridgerton', até as samambaias são esplêndidas”, diz Katherine Byrne, professora da Universidade de Ulster que estuda esse gênero de produção.

"Bridgerton" não é o primeiro bálsamo de época a agradar aos espectadores em períodos históricos conturbados. “Uma Janela para o Amor”, baseado em "Retorno a Howards' End", de E. M. Forster, foi produzido entre 1985 e 1986, quando Margaret Thatcher estava abalando as tradições britânicas.

“Downtown Abbey” ganhou popularidade em 2008, depois da crise financeira mundial, e seu roteirista, Julian Fellowes, refletiu que era “reconfortante ver um período na história britânica em que cada pessoa tinha uma posição certa na vida”.

O esplendor visual dos dramas passados na era regencial —o começo do século 19— e na era eduardiana –o começo do século 20– do Reino Unido é atraente, como “Bridgerton” demonstra. A combinação entre aristocracia rural e moda urbana na Inglaterra georgiana produziu um belo mundo esteticamente extravagante.

Mas ainda que aristocratas em roupas suntuosas pareçam ser o epítome da estabilidade social, isso é enganoso. A Inglaterra estava passando por mudanças consideráveis no final do século 18, com um dilúvio de riqueza gerada pela revolução industrial remodelando a sociedade.

Em 1700, como apontou Roy Porter em seu livro sobre a sociedade inglesa do século 18, o país “continuava a ser uma nação rústica de povoados e aldeias”, habitadas por pessoas de modos questionáveis. Como escreveu a duquesa de Northumberland em seu diário, em 1760, “voltei para casa; despejei uma grande pedra". "Morta de cansada... Ceia ruim. Miss Townshend bêbada.”

O apelo implícito dos dramas de época não é a estabilidade, mas seu oposto, um meio social fluido –ou, como no caso de “Downtown Abbey”, uma sociedade à beira da instabilidade–, no qual uma nova elite começa a emergir, por meio de propinas, trapaças e pela adoção de figurinos elegantes.

Na Inglaterra regencial, “havia transformação social, uma imensa aceleração da economia e diversas guerras, o que era útil para eliminar certos personagens”, diz Jerome de Groot, professor da Universidade de Manchester e autor de “Remaking History: The Past in Contemporary Historical Fictions”.

Em lugar de escapismo, o que temos é um espelho para o mundo atual de celebridades, desigualdade e moda urbana, no qual mulheres tramam não para casar suas filhas com duques, mas para obter lugar para elas em universidades de prestígio.

Eloise Bridgerton, irmã mais nova de Daphne e representante da primeira onda do feminismo na série, aprovaria essa ideia. “Ter um rosto bonito e um cabelo agradável não é uma realização. Você sabe o que é uma realização? Fazer uma universidade!”, ela exclama.

A czarina Catarina, interpretada por Elle Fanning, poderia dizer o mesmo em “The Great”. Sua consciência é despertada quando seu marido manda queimar a escola na qual ela queria ensinar meninas a apreciar Descartes e Diderot. “Desde que eu era criança, sentia que havia grandeza à minha espera, que eu estava aqui por um motivo, um propósito”, ela confessa à sua criada Marial. “Por que Ele a fez mulher, então?”, pergunta Marial. “Para fins de comédia, imagino”, a czarina responde.

A mídia da era regencial nada tinha de emancipada. Um quadro famoso que retrata os jardins de Vauxhall em 1784, por Thomas Rowland, mostra a duquesa de Devonshire e sua irmã, lady Duncannon, em meio a uma multidão de pessoas do “belo mundo”. Elas estão sendo espiadas por donos de jornais, com William Jackson, do The Morning Post, olhando por trás de uma árvore. Mas “Bridgerton” e “The Great” são dramas nos quais as mulheres têm os papéis centrais, e, no caso do primeiro, a história é contada por meio do boletim diário de fofocas de lady Whistledown.

O olhar feminino tem raízes no material original, tanto nos romances de Jane Austen sobre o tumulto emocional que existia sob a superfície da sociedade da era regencial, quanto em livros como “Feira das Vaidades”, de William Makepeace Thackeray, cuja heroína, Becky Sharp, faz do fato de ser uma mulher uma vantagem.

Mas mesmo a figura emancipada e letrada de Margaret Schlegel em “Retorno a Howard's End”, de Forster, por fim termina se tornando proprietária da casa que serve como título ao livro por meio do matrimônio.

Os dramas de hoje, escritos na esteira do movimento MeToo, levam essa liberação feminina um passo adiante. Como observa lady Whistledown, “só o olhar da rainha importa hoje”. Os homens estão nominalmente no controle, mas são na melhor das hipóteses incompetentes –Pedro 3º é um idiota libertino que oscila entre a amabilidade e a violência em "The Great", e lorde Bridgerton fracassa em sua busca de um marido adequado para Daphne em "Bridgerton". “O que percebo em ‘Bridgerton’ é o fracasso do patriarcado. Os homens não fazem muito bem o seu papel”, diz Byrne.

As questões raciais são tratadas de maneira menos direta em “Bridgerton”, a despeito da escalação de atores negros para papéis centrais, entre os quais o bonitão duque de Hastings, vivido por Regé-Jean Page. Os dramas de época costumam ser muito brancos.

A escalação de elencos mais diversos gera problemas de precisão histórica. A rainha Charlotte talvez tivesse ancestrais de raças diferentes —alguns historiadores afirmam que ela descendia de Afonso 3º, rei de Portugal, e de sua concubina de origem árabe Ouruana, mas isso nunca foi confirmado (em “Bridgerton”, ela é interpretada por Golda Rosheuvel, atriz de origens britânicas e guianesas).

Byrne afirma “meu pai comentou que não deveria haver todos aqueles aristocratas negros, mas, ao mesmo tempo, as pessoas da sociedade na era regencial não eram tão altas e tão limpas, e tampouco tinham todos os dentes". "Até que ponto qualquer representação é verdadeira?”

A questão mais profunda é determinar por que os dramas de época não fizeram mais para representar a escravidão e a vida dos negros no Reino Unido do século 18 e começo do século 19. Como escreve o historiador David Olusoga em “Black and British”, lançado há cinco anos, o comércio de escravos e a imigração do Caribe conduziram muitos negros a Londres, a maioria para trabalhar como criados –Francis Barber, o criado de Samuel Johnson, era jamaicano.

Alguns poucos, como Ignatius Sancho, que fez campanha pela abolição da escravidão, subiram na sociedade –embora Sancho tenha sofrido insultos raciais em uma visita aos jardins de Vauxhall.

Em “Bridgerton”, lady Danbury comenta “olhe para nossa rainha, olhe para nosso rei, éramos duas sociedades separadas, divididas pela cor, até que o rei se apaixonou por uma de nós”. Mas a trama da série em geral desconsidera as realidades econômicas da era regencial. “Embora a série tenha escalado atores negros, o colonialismo e a escravidão jamais são discutidos”, diz De Groot, o professor. “O comércio de escravos foi abolido em 1807, mas muito dinheiro continuou a ser extraído dele”.

Alguns dramas de época recentes se concentraram na escravidão, entre os quais “The Long Song”, uma série que a BBC exibiu em 2018, baseada em um romance de Andrea Levy que se passa na Jamaica em 1838, e “Belle”, filme de Amma Asante de 2013. Mas há uma tradição mais longa de retratar o império britânico na Índia, sobre o qual Forster escreveu em “Passagem para a Índia”, adaptado por David Lean em 1984.

Um romance inter-racial na Índia foi dramatizado em “Verão Vermelho”, de 1983, de Merchant Ivory, e em “The Jewel and the Crown”, série que a ITV exibiu em 1984, baseada no “Raj Quartet”, uma série de romances de Paul Scott.

Ou seja, os dramas de época ainda têm um bom caminho a percorrer. A boa notícia é que progrediram. “Jamais voltaremos a produzir dramas históricos estrelados apenas por brancos, agora. O efeito de ‘Bridgerton’ foi significativo, quer a série esteja escamoteando a questão da raça, quer não”, diz De Groot.

Essa forma de arte já se provou resiliente e flexível quanto a se adaptar à modernidade. E o espartilho pode vir a se afrouxar um pouco mais.

Tradução de Paulo Migliacci

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