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Calcinha falante é estrela de 'Rosie na Floresta', HQ que exige estômago

Mocinha durona e cão forçado a traficar drogas conduzem gibi alternativo recheado de piadas sexuais e violência

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Rosie na Floresta

  • Preço R$ 79,90 (136 págs.)
  • Classificação 18 anos
  • Autor Nathan Cowdry
  • Editora Veneta
  • Tradução Cris Siqueira

Quando o marginal é glamorizado —ou pior, gourmetizado— pode ficar difícil identificar o que de fato desafia os limites da convenção e o que só recicla angústias alheias para fazer sucesso. Daí, como uma calcinha falante e assassina, um cão obrigado a engolir cocaína e uma garota sempre seminua podem trazer de significativo para além de uma catarse adolescente?

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Capa de 'Rosie na Floresta', quadrinho de Nathan Cowdry publicado pela editora Veneta - Nathan Cowdry/Divulgação

"Rosie na Floresta" não responde a essa dúvida, mas pode dar algumas pistas nesse abismo. A primeira graphic novel publicada pelo britânico Nathan Cowdry confronta o leitor, do início ao fim, em cerca de 130 páginas, com um mal-estar em que o fofo e o repulsivo convivem numa história pouco comovente, até mesmo simplória —acima de tudo, bastante divertida.

Em linhas gerais, por meio do flashback do cãozinho Denton —encontrado amarrado e esfaqueado às margens de um rio amazônico por um casal de missionários que acabam de perder a virgindade— conhecemos a misteriosa e apática Rosie, uma jovem durona que ganha a vida traficando drogas.​

Além da fidelidade canina, Denton nutre uma intensa atração sexual e platônica por ela, ainda que a menina o obrigue a embarcar num avião com quilos de cocaína no estômago. O animal apaixonado acabará sendo vítima de outra figura, mais estranha e surrealista, o Zé Calcinha —uma estrela à parte, que tem pernas e braços, fala, monta um plano maquiavélico e ainda nega o Holocausto.

O nome original, "Crash Site" —ou zona de impacto— se refere à queda do avião com Denton, Rosie e a calcinha na floresta amazônica, após a dupla partir de Manaus, e que vai selar o destino dos protagonistas.

Já seria uma história estranha por si, mas Cowdry planta seu diabinho nos detalhes. Influenciado pelos mangás e pelos quadrinhos infantis, suas linhas são limpas, precisas, os olhos humanos tem cílios grossos e um brilho irreal, excessivo. As cores, em especial, retomam o estilo de pintura em celuloide das animações analógicas. Seus quadros são regulares, com algumas pequenas ousadias bem-vindas, que dão ritmo à narrativa.

Leitores das últimas HQs publicadas pela editora Veneta, que traz a obra ao Brasil, poderão se lembrar da geleia geral do brasileiro Gustavo Piqueira em "Domex" e ainda do australiano Simon Hanselmann —que assina um elogio na contracapa de "Rosie na Floresta" e tem publicados por aqui os impecáveis "Zona de Crise" e "Mau Comportamento". São referências distintas, mas que dão pistas para uma leitura dessa HQ.

Do primeiro, há o esforço de pesquisa e de investigação da linguagem que Piqueira, artista gráfico prolífico, faz ao reunir imagens intrusas. Destas, a de Henry Darger é a que mais parece representada aqui, com as pinturas de garotas vitorianas hermafroditas e diabólicas em painéis que perturbam pelos decalques distorcidos, em que reina a perversão onde havia originalmente pureza.

Já com Hanselmann há um diálogo forte não só com seu notável niilismo e com sua "comédia chapada" (e em última instância desoladora), mas com seu mundo que mescla realidade e desenho animado —vide os protagonistas, o casal Megg e Mogg (uma bruxa verde vestida a caráter e um gato preto), inspirados na série de livros para crianças "Meg and Mog".

O trabalho de Hanselmann, digamos, é superior por todo o envolvimento emocional que estabelece com sua arte simples e a continuidade das histórias —sejam com uma página ou ocupando dezenas. Mas Cowdry compartilha uma qualidade ao fazer um mundo habitado por animais falantes e objetos animados para nos pegar de surpresa e também para explorar um mundo de imagens impostas pela civilização dominadora (essa que Denton e Rosie representam, como fiéis espectadores do reality "Britain's Got Talent" e coisas do gênero).

Se nas aventuras de Tintim (outra saga sobre um jornalista aventureiro e seu cachorro, muitas vezes em países "subdesenvolvidos") as linhas bem definidas do mestre belga Hergé também produziam desenhos racistas, aqui, o autor britânico mantém a mesma clareza de forma sem enveredar pelo politicamente correto, mas pelo mau gosto repassado pelo colonialismo.

Aos impressionáveis, cautela. Há cenas em que Denton se masturba com uma revista em que Apu —o personagem indiano estereotipado dos "Simpsons"— é assediado por "garotas politizadas", até que o cãozinho ejacula seu "privilégio branco".

Ainda há os momentos em que Rose e algumas amigas vão se bronzear numa praia comum, descem a porrada num salva-vidas, e o animal fica excitado ao ver uma garota urinando atrás de uma pedra.

E enquanto não há qualquer pingo de erotismo pelo álbum (especialmente pelos desenhos infantilizados e sem volume), também há um ótimo senso de humor quando o autor censura vaginas ou usa clichês sensuais até chegar ao nonsense.

Em paralelo, Cowdry parece preocupado em fazer referências constantes às apropriações culturais e à banalização da morte e do sexo que os próprios quadrinhos alternativos souberam cultivar de forma autorreflexiva ou realista —vide Charles Burns ou Chester Brown.

Não é à toa que da abertura com missionários na Amazônia, num barco digno de "Fitzcarraldo", com direito ao contato com uma tribo indígena, a HQ salta para episódios de uma Guerra do Vietnã ora onírica, —na visão de Denton—, ora digital —no videogame jogado por Rose.

Ao fim, é difícil definir qual é de fato o sentido político desse "Tintim" contemporâneo e, ainda que não seja nenhum Joseph Conrad, Nathan Cowdry se apresenta como um iniciante que faz o que pode para levar o leitor ao seu coração das trevas particular e perversamente cômico.

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