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Democratas têm que repensar comunicação para enfrentar extrema direita

Para ex-ministro, estratégias de manipulação da opinião pública podem ser fatais à convivência civilizada

Juca Ferreira

Sociólogo, foi ministro da Cultura (2008-10 e 2015-16, nos governos Lula e Dilma Rousseff) e secretário da Cultura da Prefeitura de São Paulo (2013-14, na gestão Fernando Haddad)

[RESUMO] Autor argumenta que a comunicação se tornou incontornável para a sobrevivência da democracia em todo o mundo com a disseminação, pela extrema direita, de estratégias de manipulação do debate político e de estímulo ao medo e ao ódio.

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“Se levamos tolerância até àqueles que são intolerantes, se não estamos preparados para defender a sociedade tolerante contra o ataque dos intolerantes, então os tolerantes serão destruídos e, a tolerância, com eles. Devemos nos reservar o direito de suprimir a intolerância. Primeiro reagimos com argumentos. Eles talvez impeçam seus seguidores de seguirem argumentos racionais e os ensinem a responder com punhos cerrados ou mesmo armas. Neste momento, temos o direito, em nome da tolerância, de não tolerar os intolerantes.”

O livro de Karl Popper "A Sociedade Aberta e Seus Inimigos" é de 1945. Karl Popper (1902-1994) foi um grande filósofo liberal.

A comunicação, com suas técnicas e estratégias, acabou se tornando, neste início do século 21, uma questão central e incontornável para a sobrevivência da democracia em todo o mundo e decisiva nas disputas de projetos políticos em sociedades nacionais.

A extrema direita antidemocrática vem fraudando, com sucesso, eleições e plebiscitos em muitos lugares, inclusive em democracias sólidas com sociedades civis fortes, se utilizando de uma comunicação eficiente para manipular a opinião pública e os eleitores.

Essa comunicação incorporou mudanças radicais oriundas dos avanços tecnológicos e fala diretamente com a emoção dos cidadãos e cidadãs, excitando medos e preconceitos e inoculando o ódio entre os diferentes. Assim, enfraquece a coesão social, a possibilidade de convivência civilizada e, em alguns países, faz da diversidade humana um verdadeiro barril de pólvora. Além, o que é muito grave, de destruir a possibilidade de a sociedade evoluir e enfrentar seus problemas dentro da democracia.

Essa estratégia de comunicação da extrema direita se utiliza da gigantesca experiência e das técnicas de comunicação e marketing da venda de mercadorias, que deu ao capitalismo uma enorme capacidade de provocar desejos, criar necessidades e de controlar corações e mentes.

Essa comunicação “pavloviana”, com suas técnicas de vendas, já causa um estrago enorme ao produzir a ilusão do consumo como o caminho para a felicidade. Sua migração para a política é um perigo ainda maior para a vida em sociedade, pois pode vir a significar o fim da política e da própria democracia.

Esse tipo de comunicação é um instrumento poderoso para a dominação dos impulsos vitais e da consciência da sociedade e para a domesticação dos processos sociais.

Uma espécie de 1984, alguns anos depois.

A perversão do jogo democrático se dá por meio de um tipo inédito de manipulação da opinião pública, da perda de significado do voto, da morte da razão e da consciência política e da destruição do protagonismo popular.

Essas discussões em torno da comunicação, suas técnicas e suas estratégias precisam ser enfrentadas com a profundidade e a urgência necessárias. Não pode mais ser apenas um tema de especialistas. Afinal de contas, os valores, a visão de mundo, a sensibilidade e o comportamento das pessoas estão em jogo, e o uso perverso das técnicas de comunicação pode ser fatal para a democracia e para a qualidade da vida social. Compromete o futuro dessas sociedades e afeta até mesmo a condição humana no que ela tem de mais fundamental.

Os que defendem a democracia e a justiça social em várias partes do mundo terão que repensar a comunicação contemporânea, atualizar a linguagem e, inevitavelmente, investir na inovação para superar o desequilíbrio em relação à comunicação dos projetos políticos autoritários e antidemocráticos.

Não é mais possível tratar a política só como confronto de ideologias, projetos de sociedade e programas políticos.

É claro que, racionalmente, a disputa nas democracias entre os projetos políticos tem como centro os programas com suas propostas.

Porém, se, por meio da manipulação, a racionalidade deixa de existir na cena política, caminharemos para um cenário em que a disputa na sociedade se transforma em um enfrentamento de emoções, medos e ódios e, assim, estaremos decretando a morte da nação. Será o fim de qualquer traço de democracia e convivência civilizada entre os que pensam diferente.

A extrema direita tomou a dianteira política em muitas partes do mundo se utilizando, sem nenhum pudor, dessas técnicas manipulatórias. Se a sociedade democrática não for capaz de criar antídotos e mecanismos sistêmicos de autodefesa, caminharemos inexoravelmente para uma situação na qual a manipulação passará a definir as disputas políticas, anulando a razão e induzindo os eleitores a ignorarem as questões relevantes e substantivas da sociedade.

Na última disputa eleitoral do Brasil, a desigualdade de eficiência e eficácia dos métodos de comunicação das propostas em disputa era enorme.

A extrema direita e seu candidato impuseram ao processo eleitoral uma manipulação fraudulenta e, assim, foram arregimentando grandes parcelas da opinião pública e do eleitorado. Enquanto isso, todos os demais campos da política, desde a centro-direita tradicional até a esquerda, atônitas, demoraram a entender o que estava acontecendo.

A extrema direita global se preparou para tomar de assalto as democracias dentro dos rituais e procedimentos legais, se utilizando de vários instrumentos e técnicas.

No Brasil, o uso politico da Justiça, a chamada "lawfare", a manipulação da opinião pública pelos meios de comunicação, criminalizando a esquerda e o PT e tirando da disputa o ex-presidente Lula, criaram o cenário e as condições ideais para desqualificar a disputa eleitoral e permitir a vitória da extrema direita.

A figura irrelevante de Bolsonaro não permitiu ver de pronto que ele era apenas a ponta do iceberg de um projeto global e que existia uma eficiência estratégica convivendo com as caracteristicas caricaturais do discurso e da figura do candidato.

Quem não levou em consideração que a extrema direita se preparou e foi preparada e aparelhada para tomar o poder, assaltando as democracias, dentro das regras e, no caso do Brasil, nas franjas e brechas do nosso muito imperfeito sistema político não acreditava no que estava vendo quando o resultado eleitoral deu a vitória para Bolsonaro.

Não se trata de adotar as estratégias de comunicação da extrema direita que se utiliza, como método, das fraudes, das fake news, das mentiras e dos atos ardilosos e manipulatórios.

Nem se trata de criar tutelas para a democracia ou de cercear a liberdade de expressão, fundamental para a vida democrática. Pelo contrário.

Temos que radicalizar a opção pela democracia fazendo-a eficiente, legítima perante a sociedade e com capacidade institucional de enfrentamento das mazelas sociais, das desigualdades, das injustiças e preconceitos e no reconhecimento dos direitos individuais e coletivos; no enfrentamento do racismo, da violência social e da matança de povos indígenas e de jovens negros pobres que vivem nas favelas e bairros periféricos pelas polícias.

A comunicação da extrema direita manipula e se utiliza de demandas reais dos trabalhadores e da população em geral e, principalmente, das frustrações sociais, para produzir medo e ódio. Aproveita-se do desinteresse da grande mídia em dar visibilidade aos problemas cotidianos das maiorias. Explora a sensação de falta de segurança pública para afirmar a violência como linguagem.

A democracia tem que fortalecer sua legitimidade perante os cidadãos e cidadãs e desenvolver mecanismos de autodefesa e de enfrentamento dos que conspiram contra a vida democrática. Por exemplo, assumir que fake news não podem ser toleradas e não fazem parte da liberdade de expressão.

O futuro da humanidade mais uma vez está em jogo, e é preciso coragem e lucidez para enfrentar as ameaças que rondam a democracia.

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