Descrição de chapéu Coronavírus

Bolsas pelo mundo têm o pior dia em mais de 30 anos

Após bater R$ 5; dólar fecha a R$ 4,779 com intervenções do BC

São Paulo

Nesta quinta-feira (12), as Bolsas de Valores do mundo tiveram o pior pregão desde 19 de outubro de 1987, período conhecido como Segunda-Feira Negra, no qual o índice Dow Jones, da Bolsa de Nova York, desabou 22,61%.

Nesta sessão, Dow Jones caiu 10%. O S&P 500 recuou 9,5% e Nasdaq, 9,4%. Na Europa, Bolsas caíram mais de 12%, em um movimento que reflete o temor de investidores aos impactos econômicos do coronavírus.

A Bolsa de Valores brasileira também teve fortes quedas e escapou do terceiro circuit breaker do dia por pouco. Por volta das 13h50, o Ibovespa cedia 19,60% quando o Fed, banco central americano, anunciou aumento de liquidez no mercado financeiro.

A medida inverteu a aceleração da queda do Ibovespa, que reduziu perdas para 14,78% ao fim do pregão, a pior queda de 1998, ano marcado pela crise russa. Caso a marca de 20% de queda fosse atingida, um terceiro circuit breaker (paralisação das negociações) seria acionado, desta vez, por tempo indeterminado.

Operadores na Bolsa de Nova York
Fed intervém e Bolsas reduzem perdas - Xinhua/Michael Nagle

No início das negociações desta quinta, o mecanismo foi acionado duas vezes. A primeira foi logo na abertura do pregão, às 10h21, quando a Bolsa chegou a cair 11,65%. A parada foi de meia hora. A segunda foi às 11h12, quando o índice recuou 15,43%.

Com o tombo, o índice fechou cotado a 72.582 pontos, no menor patamar desde junho de 2018, antes da corrida eleitoral que elegeu Jair Bolsonaro presidente.

Dentre as maiores quedas do dia, estão Gol (-36,3%), Azul (-32,89%), Embraer (-26,44%) e CVC (-29%) visto que viagens estão sendo canceladas devido ao coronavírus e a alta do dólar aumenta os custos dessas companhias.

No ano, o Ibovespa acumula queda de 37,2%, o pior desempenho anual desde a crise financeira de 2008, quando acumulou desvalorização de 41,2%.

Segundo dados da Economatica, o valor de mercado de todas as 285 empresas listadas na B3 recua R$ 1,52 trilhão para R$ 3,03 trilhões em 2020. No final de 2019, as empresas valiam R$ 4,56 trilhões.

Nesta semana, o circuit breaker foi acionado quatro vezes, reflexo da piora da percepção dos danos que serão causados pelo coronavírus sobre a economia global, que muitos economistas comparam à crise de 2008.

“A semana inteira foi muito intensa, mas hoje vai entrar para a história. Vemos uma saída massiva de investidores de tudo o quanto é jeito. De grandes investidores vendendo ações de países emergentes a fundos que tem que vender. O estrangeiro está se desfazendo de ações sem critério, está vendendo Brasil”, afirma Thiago Salomão, analista da Rico Investimentos.

Até esta segunda (9), quando a Bolsa caiu 12%, estrangeiros sacaram R$ 48 bilhões do mercado de ações brasileiro em 2020, sem contar ofertas iniciais e subsequentes de ações (IPOs e follow-ons).

Como mencionado por Salomão, um dos grandes vendedores nestas fortes quedas são fundos de investimento que têm ações na carteira. Eles operam sob regras de "stop loss" (interrupção de perdas, na tradução livre). Este mecanismo obriga fundos a se desfazerem de ações quando índices acionários caem abaixo de certos níveis —geralmente, entre quedas de 7% a 10% do Ibovespa.

Um dos maiores compradores neste momento de forte queda do índice brasileiro tem sido o investidor pessoa física, que aumentou sua participação no mercado de renda variável em busca de rendimentos maiores do que a renda fixa tradicional.

“Nossa base está muito mais educada do que em outras quedas, a maioria das pessoas que tenho contato está querendo comprar”, diz Salomão em referência a educação financeira do brasileiro.

Nos Estados Unidos, a Bolsa de Nova York também acionou o cricuit breaker no início do pregão desta quinta, parando negociações por 15 minutos, quando o índice S&P 500 caiu mais de 7%.

Na Europa, índices acionários que reúnem as maiores empresas da região tiveram as piores perdas da história nesta quinta. O FTSEurofirst 300 caiu 11,53%, a enquanto o índice pan-europeu Stoxx 600 perdeu 11,48%.

Desde fevereiro, o Stoxx 600 perde quase um terço de seu valor de mercado. Em outra indicação dos distúrbios no mercado, o Índice de Volatilidade do Euro Stoxx, considerado uma medida de medo para os mercados, subiu para o nível mais alto desde a crise financeira de 2008.

O índice de volatilidade VIX, baseado no mercado americano, também volta aos níveis de 2008, com alta de 24%.

O novo gatilho para o aumento de aversão a risco é a decisão do presidente americano, Donald Trump, de restringir voos entre Europa e Estados Unidos sob o pretexto de limitar a disseminação da doença entre americanos.

A consequência mais imediata da medida anunciada na noite de quarta (11) é uma nova queda no preço do petróleo, visto que a demanda das companhias aéreas pelo combustível deve cair.

O petróleo foi o catalisador das perdas desta semana depois que a tentativa da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) de combinar uma redução da produção. A Rússia, que não integra o bloco, não fechou acordo e, em resposta, a Arábia Saudita afirmou que aumentaria a oferta do combustível e reduziria o preço.

A cotação do barril de petróleo do tipo Brent caiu 7,2% para US$ 33,22, menor patamar desde fevereiro de 2016.

Trump também anunciou empréstimos com juros reduzidos para pequenas e médias empresas afetadas e pediu que o Congresso americano aprove a isenção de impostos da folha de pagamento.

As medidas foram consideradas insuficientes pelo mercado. As quedas das Bolsas desaceleraram apenas com a noticia de que o Fed de Nova York vai injetar US$ 1,5 trilhão em operações de "repo", sigla para repurchase agreement (contrato de recompra, na tradução livre).

Tais operações se assemelham a operações compromissadas. Nela, o Fed compra títulos do tesouro americano de agentes do mercado por um período determinado, concedendo dinheiro para as instituições. Essa é uma maneira do regulador conceder liquidez ao mercado em momentos de stress financeiro.

O Fed ofereceu US$ 500 bilhões em operações de repo de três meses nesta quinta. Na sexta, serão mais de US$ 500 bilhões em repos de três meses e outros US$ 500 bilhões em operações de um mês.

“A intervenção do Fed não vai segurar o mercado, o que precisa ser feito são de medidas fiscais, como de que modo o governo vai ajudar trabalhadores que ganham por hora e quem está de licença durante a pandemia. O que o Trump anunciou é muito pouco, precisa de uma ação mais pesada”, afirma Adriano Cantreva, sócio da Portofino Investimentos.

A cotação do dólar também perdeu força com a medida do Fed. O Banco Central (BC) brasileiro também atuou, com quatro leilões de dólares à vista, que somaram US$ 1,782 bilhão. Com as vendas, o dólar reduziu alta e fechou a R$ 4,779, novo recorde nominal. Na abertura do mercado, a cotação da moeda ultrapassou os R$ 5 pela primeira vez na história.

Mas não apenas fatores externos afetam os indicadores brasileiros.

Na quarta (11), quando a equipe econômica do governo Bolsonaro revisou de 2,4% para 2,1% a sua projeção para o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) para 2020, o ministro Paulo Guedes (Economia) disse que o resultado pode ser ainda pior por causa da pandemia do coronavírus.

Para Guedes, no pior cenário, o PIB seria de 1%, ou seja, o crescimento da economia seria menor do que o resultado de 1,1% 2019. Seria o quarto ano seguido de baixo crescimento após a recessão.

O ministro, no entanto, considera que o quadro mais realista é de uma perda de 0,3 ponto percentual. Nesse caso, o PIB cresceria 1,8% neste ano.

"Primeiros estudos nossos: se for uma coisa suave, 0.1 [ponto percentual] de perda de PIB. Se for uma coisa mais grave, pode chegar a 0.3, 0.4 até 0.5 [p.p de corte]. Se, ao contrário, a pandemia tomar conta do Brasil e nós não fizermos as nossas reformas, pode chegar até 1% ", disse Guedes em reunião com congressistas na noite de quarta.

Também na quarta, o Congresso derrubou um veto do presidente Bolsonaro e ampliou o número de famílias atendidas pelo BPC (Benefício de Prestação Continuada), pago a quem está em situação de extrema pobreza.

A medida aumenta o gasto do governo em R$ 20 bilhões por ano e coloca em xeque a sustentabilidade o teto de gastos.

O teto é considerado essencial pelo mercado financeiro para deter a trajetória de endividamento do governo.

Nesta quinta, o risco-país brasileiro medido pelo CDS (Credit Defautl Swap) de cinco anos, medida acompanhada pelo mercado financeiro para avaliar a capacidade de um país honrar suas dívidas, saltou 42%, a maior alta diária da história do índice, que surgiu em 2001.

O CDS foi para 309 pontos, maior patamar desde setembro de 2018, período em que o país vivia a corrida eleitoral que elegeu Jair Bolsonaro presidente.

No exterior, o CDS do Chile subiu 6,8%, enquanto o da Turquia saltou 44% e o da Argentina, 55,6%.

O mercado de juros futuros também mostra aumento da percepção de risco do mercado brasileiro e aponta alta na Selic este ano, em vez de queda. O movimento neste mercado foi tão acentuado que também foi acionado o mecanismo de suspensão dos negócios durante o pregão.

“O mercado virou a mão quanto ao Brasil, especialmente com a aprovação do BPC ontem. Com o aumento de gastos do governo, piora a dívida do Brasil e aumenta o risco do país”, diz Cantreva, da Portofino Investimentos.

Ele aponta que o aumento de percepção de risco brasileiro aumenta a saída de investimentos do país, o que contribui para a alta do dólar. Caso a Selic, na mínima histórica de 4,25% ao ano no momento, seja reduzida ainda mais, a cotação poderia ficar acima dos R$ 5.

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