Diário de confinamento: 'Os domingos são como segundas, e as segundas como domingos'

Para mim, que faço parte da população confinada e privilegiada

Susana Bragatto
Barcelona

Dia #15 – Barcelona – Sábado, 28 de março. Cena: me pego cantando o hino antifascista “Bella Ciao, Ciao, Ciao...”

Era uma vez (se você nasceu ontem) um mundo em que uma tal de gripe vinda da China...

Eu não queria falar de trabalho num domingo, mas agora todos os domingos são como segundas, e todas as segundas como domingos. Pra mim, que sou parte do 1/3 da população mundial em confinamento em casa e uma privilegiada por diversos etcetera motivos.

Em toda a Espanha, até agora, foram contabilizados mais de 1,5 milhão de Ertes, os já famosos/famigerados/generalizados Expedientes de Regulação Temporária de Emprego, facilitados por uma legislação lançada no último dia 17. Nome bonito para demissão temporária em massa, renovável a cada mês, com o emprego garantido de volta por até seis meses.

Homem caminha com cachorro em rua vazia de Barcelona
Homem caminha com cachorro em rua vazia de Barcelona - Pau Barrena/AFP

Os Ertes já foram adotados pelas principais empresas automobilísticas, redes de fast-food tipo Burger King, Domino's e Starbucks, fast-fashion tipo H&M e Mango, companhias aéreas (a Iberia deu um Erte-strike em quase 14 mil trabalhadores), hotéis, cadeias de lojas etc. etc.

Eu aqui, preocupada com o futuro próximo de minhas contas, como a maioria dos cidadãos humanos do planetazul, vou me entretendo pra dissipar a angústia lazarenta que se instalou nos últimos dias em meu corazón, tipo barulho de geladeira véia whhheeeeeeee (que barulho faz uma geladeira velha?).

Por exemplo, roupas.

Lembro quando passei por uma época pessoal um tanto difícil e um querido amigo de Zaragoza, médico chefe de hospital psiquiátrico super ninja, me instruiu: passe o que passe, não deixe de tomar banho, alimentar-se e dormir.

Mentalmente eu acrescentei uma anotação: 'vestir umas roupinha massa'.

Não precisa ter haute couture no armário, não. Posso vestir pijama numa terça e resgatar uns brincos e batons do fundo do baú a qualquer outro dia. Estou aperfeiçoando um approach Dane-se-vamo-pirá com meu guarda-roupa. Por que não botar aquele vestido bizarro pra ficar em casa de bobes? Ou ressuscitar a saia de couro que pegou até mofo pra regiamente sentar o traseiro na cadeira do escritório e trabalhar?

Outro dia sentei no sofá pra ver tevê. "Aonde você vai?". "Ver tevê, uai!" (sorrio com meus lábios vermelhos pintados, os balangandãs das orelhas fazendo tlim tlim). A única peça de vestuário que deixei meio de lado é sapato. Eu boto vestido com meião velho, em nome do conforto.

(Agora mesmo, tô usando um pulôver quente com capuz de orelhas de gato que ganhei de um amigo, porque aqui em Barcelona tá frio paca e as orelhas de gato me acalentam a alma um pouco coronacansada de estar metida em casa há duas semanas.)

Outro item de cuidado pessoal: comida.

Segundo dados muitíssimo informais auferidos por esta que vos fala, amigos confinados têm saído pra comprar comida (e, portanto, saído) de uma a duas vezes por semana.

Ontem, meu companheiro de apartamento resolveu ir de manhã cedo ao supermercado para tentar encontrar alguns itens que pela tarde já foram em geral varridos da face da Tierra. Pegou uma fila de 20 minutos que dobrava quarteirão (até por causa da distância mínima de 1,5 metro). Dentro, a medida certa de clientes. Silêncio. Carrinhos abarrotados. Muralhas de plástico isolando as pessoas enluvadas e mascaradas que trabalham nos caixas. Encontrou de tudo, "inclusive papel higiênico", disse.

Depois das chamadas primeiras "compras de bunker" pré-confinamento, a venda de papel higiênico caiu 10% na última semana. Cerveja subiu 78%.

Estou aprimorando meus dotes de economia doméstica. Mais comedida nas compras, aproveitando melhor os alimentos. Receitas novas. Sempre que possível, prefiro recorrer aos poucos mercados de bairro abertos como forma de apoio ao comércio local. "Isso está indo de mal a pior", me conta um vendedor de frutas e verduras, lindamente enfileiradas no mercadão ao lado de casa, próximo ao fechamento do expediente. "Ninguém mais sai de casa, e tem dias em que as vendas nem sequer pagam meu transporte."

Penso: os ânimos necessitam ritos. E provavelmente por isso o espanhol vem resgatando nos últimos dias uma canção xhuli-pop dos anos 80, "Resistiré", do Dúo Dinámico, cantando de janelas e hospitais em todo o país: "Resistiré, para seguir viviendo / Soportaré los golpes y jamás me rendiré / Y aunque los sueños se me rompan en pedazos / Resistiré, resistiré"...

“Músicas para Quarentenas” podem ser escutadas aqui.


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Leia a parte 3 do diário de confinamento em Barcelona: 'A vida vista de cima'

Leia a parte 4 do diário de confinamento em Barcelona: 'Panelaço contra o rei'

Leia a parte 5 do diário de confinamento em Barcelona: 'O perigo mora em casa'

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