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Henrique Bredda

A regra é clara: sem risco, sem retorno

Transição é dolorida, mas ato de investir já mudou

Existe uma famosa frase atribuída ao cientista Albert Einstein sobre juros compostos, onde ele supostamente disse que “juros compostos são a maior força do universo”. Se ele realmente afirmou isso, não sei, mas concordo com a afirmação. E se Albert Einstein tivesse conhecido o CDI brasileiro, provavelmente diria que o nosso Certificado de Depósito Interbancário foi a oitava maravilha do mundo. Foi.

Por muitos anos, o brasileiro utilizou os instrumentos de renda fixa e aplicações bancárias mais básicas como uma forma de obtenção de retornos acima da inflação muito generosos. Nessas aplicações, a mais elementar das regras de mercado não era válida. Num mundo normal, se você não corre riscos, você não obtém retorno. Essa é a regra. Mas isso não foi verdade no Brasil. Por muito tempo, bastou você ter dinheiro para conseguir ainda mais dinheiro sem correr praticamente nenhum risco. Além de o Estado não conseguir se livrar desse endividamento caro que ele mesmo provocou, de quebra ainda provoca uma cruel concentração de renda.

Henrique Bredda - Sócio fundador e gestor da Alaska Asset Management, é formado em engenharia naval e oceânica pela USP
O engenheiro Henrique Bredda, sócio fundador e gestor da Alaska Asset Management - Divulgação

Num país onde as finanças públicas são descontroladas ou apresentam uma clara trajetória de deterioração, como era o caso brasileiro até recentemente, o Estado semiquebrado precisa oferecer juros cada vez mais exorbitantes para captar dinheiro dos investidores e tapar os rombos que a má gestão deixa. Se o Estado é devedor, gastão e irresponsável, é arriscado emprestar dinheiro para ele. Daí os juros altos.

Com a emenda constitucional do Teto dos Gastos Públicos, a reforma da Previdência, a nova TLP (Taxa de Longo Prazo) e a eliminação de subsídios como, por exemplo, o BNDES captar dinheiro a taxas altas dos investidores e repassar com taxas mais baixas para alguns privilegiados, o buraco nas contas públicas começa a reduzir, e a nova trajetória futura esperada para o endividamento público faz com que o país reconquiste credibilidade.

Com a abertura dos mercados, a diminuição de tarifas e o contínuo processo de desburocratização, o empreendedorismo cresce no país. Mais empreendedores geram mais soluções para a população, mais opções de produtos, serviços, mais competição. Com a competição, temos mais crescimento econômico (mais arrecadação) sem a típica pressão inflacionária pela falta de oferta. Com mais arrecadação, menos inflação e menores déficits no Orçamento, o Estado tem menos necessidade de captação de dinheiro via emissão de dívida pública e passamos, finalmente, a ter taxas de juros mais baixas de forma sustentável, sem populismo de curto prazo.

Sendo assim, a relação normal de risco x retorno começa a valer no Brasil. Você não quer correr nenhum risco? Tudo bem, então o seu retorno também será zero. O CDI (Certificado de Depósito Interbancário), depois de imposto e depois da inflação, passou a ser perto de zero.

O equivalente ao CDI no mundo desenvolvido é apenas um caixa praticamente parado. Assim como a taxa livre de risco nos países desenvolvidos não constrói riqueza, teremos que nos acostumar com a mesma lógica no Brasil. O CDI poderá até conseguir preservar o poder de compra do seu dinheiro aplicado, mas não deverá conseguir multiplicá-lo na mesma intensidade das últimas décadas. 

Com o novo cenário que se desenvolve, passamos a lidar com uma realidade inédita. Temos a oportunidade de construir no país um ambiente de investimentos produtivos (e não mera aplicações), alocando nosso tempo e dinheiro em atividades que estimulem o empreendedorismo, a criação de empresas, a inovação tecnológica. O dinheiro terá que trabalhar e gerar algo de útil para a sociedade se quiser se multiplicar.

Se você quiser multiplicar o seu capital, essa nova necessidade de correr riscos e de se envolver com ativos produtivos (empresas, imóveis, venture capital, startups, franquias etc.) exigirá uma nova mentalidade, uma reeducação. Apesar de ser uma transição dolorida, trata-se de uma enorme evolução.

Um Estado com contas mais saudáveis cria um ambiente mais confiável, estimula as pessoas a alargarem o seu horizonte de investimento e a investirem em ativos produtivos. Confiança e investimentos em ativos produtivos são ingredientes fundamentais para a criação de riqueza e desenvolvimento socioeconômico.

Henrique Bredda

Sócio fundador e gestor da Alaska Asset Management, é formado em engenharia naval e oceânica pela USP

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