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Gabriela Manssur

Combate à violência política de gênero precisa ter lado: o das mulheres

Campanha prevê conscientização e canal específico para denúncias

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Gabriela Manssur

Promotora de Justiça, é idealizadora do Instituto Justiça de Saia e do projeto Justiceiras

A violência política contra as mulheres sempre existiu, mas, muitas vezes, era velada. Havia o medo, fosse pela escassez de informação para caracterizar a violência política ou ausência de um canal específico para as denúncias. Ou, ainda, devido à falta de uma previsão legal de que determinadas situações fossem crimes.

Devemos lembrar ainda que as mulheres temiam se expor por inúmeros motivos, como vergonha, possibilidade de represália e exposição.

O ministro Wagner Rosário, da CGU (Controladoria-Geral da União), causa tumulto na CPI da Covid após chamar a senadora Simone Tebet (MDB-MS) de "descontrolada" - Reprodução/TV senado

Agora, temos um marco histórico. Na esteira da aprovação da Lei de Violência Política (lei nº 14.192), que estabelece regras para prevenir, reprimir e combater a violência política contra a mulher, estamos lançando a campanha Políticas de Saia, com o objetivo de combater a violência de gênero na política brasileira. A ação está dentro de um guarda-chuva maior, o projeto Justiceiras, liderado por mim e que já conta com mais de 8.000 voluntárias responsáveis por acolher vítimas de abuso e violência.

Com as redes sociais, o contexto de violência política ficou muito mais escancarado. São situações que se materializaram na internet, como a de Joice Hasselmann (PSL-SP), que, querendo ou não, foi uma vítima e estava lá como mulher e deputada federal. E não podemos deixar de citar o caso da Marielle Franco, um feminicídio político. Essa conjuntura afasta as mulheres do meio político, porque elas não querem sua intimidade e vida pessoal expostas.

Essa campanha vai garantir que o público feminino seja ouvido. Vamos disponibilizar o canal de denúncias do Justiceiras (@justiceirasoficial) e capacitar voluntárias justiceiras nessa missão. Também queremos, além de quantificar, qualificar esses dados, por meio de uma pesquisa online, com perguntas para eleitoras, candidatas, eleitas e aquelas no exercício do mandato. Será um formulário com perguntas de múltipla escolha para mensurar e apresentar um diagnóstico da mulher no cenário político.

A iniciativa estava sendo gestada há algum tempo. Não é de hoje que várias mulheres me procuram, por meio do Justiceiras. Muitas delas na condição de candidatas e algumas já eleitas, em pleno exercício do mandato. Essas mulheres, que geralmente ocupam um cargo de liderança, ou que sofrem intimidação dentro de sua própria hierarquia, não vão à delegacia. Elas querem ser ouvidas por uma autoridade de Justiça.

O Políticas de Saia nasceu de uma necessidade social, comprovada por mim. E não há momento mais propício do que agora, às vésperas de mais um ano eleitoral, quando o país se encontra polarizado e fragilizado. Há uma necessidade ainda maior de conscientização de todas nós para que possamos mostrar, independentemente do lado em que estejamos, a força da união. Eu defendo o direito das mulheres na política, não só da esquerda ou da direita. Não estamos do lado de ninguém —estamos a favor das mulheres. A nossa bandeira é pink.

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