Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Elzita teve saga de 45 anos em busca de filho alvo de sarcasmo de Bolsonaro

Presidente disse saber o que aconteceu com Fernando Santa Cruz, desaparecido durante a ditadura militar

Recife

Uma saga de 45 anos que envolve pistas falsas, visitas a quart√©is, cemit√©rios, manic√īmio judicial, s√ļplicas a presidentes e pedidos de ajuda a organiza√ß√Ķes internacionais. Ao seu lado, a companhia angustiante de uma m√£e em busca de um filho: o sil√™ncio oficial.

Até a morte, aos 105 anos, há pouco mais de um mês, Elzita Ramos de Oliveira Santa Cruz carregou como bandeira e razão de vida a pergunta sem resposta sobre o paradeiro do filho que repetiu enquanto tinha voz.

Morreu sem conseguir enterrar Fernando Santa Cruz, desaparecido em fevereiro de 1974, após ser preso em um sábado de Carnaval por órgãos de repressão da ditadura militar, numa esquina de Copacabana, no Rio de Janeiro.

Elzita Santa Cruz em frente à foto do filho Fernando, desaparecido durante a Ditadura Militar
Elzita Santa Cruz em frente à foto do filho Fernando, desaparecido durante a ditadura militar - Reprodução

No in√≠cio da semana passada, o caso voltou √† tona, quando o presidente Jair Bolsonaro (PSL) cutucou uma ferida que nunca sarou na fam√≠lia. De forma ir√īnica, disse que poderia contar ao presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Felipe Santa Cruz, filho de Fernando, como seu pai havia desaparecido nos tempos de repress√£o. 

Bolsonaro relatou, na contram√£o do que evidenciam documentos hist√≥ricos, que o militante pol√≠tico teria sido morto por integrantes da A√ß√£o Popular, grupo de esquerda contr√°rio ao regime militar.

Um dia depois, o presidente ainda chamou de "balela" os documentos da Comiss√£o Nacional da Verdade (CNV), o √ļnico e pequeno alento que o Estado brasileiro conseguiu oferecer a Elzita na tentativa de reconstruir minimamente as circunst√Ęncias do assassinato de Fernando.

Pernambucana de √Āgua Preta, interior do estado, m√£e de dez filhos, com 28 netos e 32 bisnetos, Elzita morreu sem ter em m√£os o atestado de √≥bito retificado no fim de julho pela Comiss√£o Especial sobre Mortos e Desaparecidos Pol√≠ticos, vinculada ao governo federal.

Na √ļltima quinta-feira (1¬ļ), o cart√≥rio liberou o documento para a fam√≠lia no qual aponta que Fernando foi v√≠tima de ‚Äúmorte n√£o natural, violenta, causada pelo estado brasileiro.‚ÄĚ

 

O sofrimento de Elzita, que serviu de adubo para sua conscientização política, começou em 1967, quando Fernando foi preso pela primeira vez, no Recife, após ter queimado uma bandeira dos EUA durante um protesto.

Foi levado a um juizado para menores e liberado em uma semana, após Elzita conseguir declaração de médicos do IML (Instituto de Medicina Legal) atestando que seu filho ainda iria completar 18.

Tr√™s anos depois, Marcelo Santa Cruz, o seu segundo filho, foi expulso da Faculdade de Direito do Recife. Por sua atua√ß√£o pol√≠tica, teve os direitos estudantis cassados e foi estudar em Lisboa, Portugal. No Brasil, Elzita, casada com o m√©dico sanitarista Lincoln de Santa Cruz Oliveira, fazia contas para ajudar o filho a se manter no exterior. 

Em 1971, logo ap√≥s o retorno de Marcelo ao Brasil, sentiu o bra√ßo mais forte da repress√£o. Rosalina Santa Cruz, a filha mais velha, hoje professora da PUC-SP, foi presa no Rio de Janeiro ao lado do marido, o engenheiro agr√īnomo Geraldo Leite. 

O epis√≥dio √© retratado no livro ‚ÄúOnde Est√° Meu Filho?‚ÄĚ, de Chico de Assis, Cristina Tavares, Gilvandro Filho, Gl√≥ria Brand√£o, Jodeval Duarte e Nagib Jorge Neto. Rosalina integrava o grupo de extrema esquerda VAR-Palmares, que participou da luta armada contra o regime militar.

Ap√≥s 55 dias sem nenhuma not√≠cia, Elzita recebeu a liga√ß√£o de um oficial do Ex√©rcito dizendo que passaria √†s 6h em um carro descaracterizado para lev√°-la at√© a filha. ‚ÄúVou sozinha. Estou disposta a correr todos os riscos‚ÄĚ, disse na ocasi√£o ao filho Marcelo. 

Pouco tempo depois, encontrou a filha cheia de curativos e manchas roxas pelo corpo. Ela estava na sede do 1¬ļ Ex√©rcito, no Rio de Janeiro. 

Diante dos agentes da repressão, perguntou a ela se eles haviam a torturado. A filha desconversou. Por causa das pancadas nos ouvidos, chutes e choques elétricos, teve um aborto na prisão.

Um oficial informou a Elzita que ela estava l√° para convenc√™-la a colaborar. Retrucou e disse que n√£o educou a filha para entregar ningu√©m. Na sa√≠da, recusou-se a assinar um termo para atestar que Rosalina estava bem fisicamente. 

A filha s√≥ foi solta um ano depois, em 1972. E o pesadelo de Elzita que a acompanharia at√© a morte chegou dois anos depois.

 

O pesadelo

Militante da A√ß√£o Popular Marxista-Leninista, Fernando foi visto pela √ļltima vez por seus familiares no 23 de fevereiro de 1974. Desapareceu junto com o amigo de inf√Ęncia Eduardo Collier Filho.

A partir da√≠, teve in√≠cio a busca que iria durar a vida inteira. Sem derramar l√°grimas p√ļblicas, desafiou generais, questionou torturadores e escreveu cartas para autoridades. 

Fazia peregrina√ß√Ķes no Congresso para entregar pessoalmente cartas a deputados. No mercado, no a√ßougue e nas filas de banco, falava abertamente que a ditadura militar havia sumido com seu filho.

A Armando Falc√£o, ent√£o ministro da Justi√ßa de Ernesto ‚ÄčGeisel (1974-1979), rebateu a informa√ß√£o recebida de que Fernando estava na clandestinidade.

‚ÄúQue clandestinidade seria esta, que transformaria um filho respeitoso, carinhoso e digno em um ser cruel e desumano, que desprezaria a dor de sua velha m√£e, a afli√ß√£o de sua jovem esposa e o carinho do seu filho muito amado?‚ÄĚ, questionou.

Antes, por interm√©dio de dom Paulo Evaristo Arns, havia estado pessoalmente, junto com mais 12 fam√≠lias de desaparecidos, com ent√£o ministro-chefe do Gabinete Civil Golbery do Couto e Silva. 

Quando come√ßou a falar do seu filho, foi interrompida de imediato. Golbery afirmou que, sobre aquele caso, tinha mais informa√ß√Ķes. A resposta que, num primeiro momento deu √Ęnimo e esperan√ßa, nunca veio.

Em outubro de 1974, enviou cartas a Ernesto Geisel e √† primeira-dama Lucy Geisel. "Por que, senhor presidente, se nega em um pa√≠s democrata o direito de defesa, o respeito √† vida de uma pessoa? Por qu√™?", escreveu. 

Foi recebida no terra√ßo da casa do conhecido general do Ex√©rcito Ant√īnio Bandeira, que comandou as tropas empregadas na Guerrilha do Araguaia. Voltou sem resposta. Escutou apenas que ele n√£o poderia fazer nada. 
 

Em 2012, no livro escrito pelo jornalista Marcelo Netto ‚ÄúMem√≥rias de uma Guerra Suja‚ÄĚ, o ex-delegado Cl√°udio Guerra disse que os corpos de Fernando, Collier e outros dez desaparecidos foram incinerados em fornos numa usina de a√ß√ļcar de Campos de Goytacazes (RJ).

Para familiares, Elzita reagiu como ainda quem guardava esperan√ßa de enterrar o filho. ‚ÄúVoc√™s v√£o acreditar na palavra de um torturador?‚ÄĚ, disse.

Por meio do ent√£o arcebispo do Recife e Olinda dom Helder C√Ęmara, com quem sempre se encontrava, fez chegar a Rosalynn Carter, ex-primeira dama dos EUA, casada com Jimmy Carter, uma correspond√™ncia em que pedia ajuda.

Marcelo Santa Cruz relembra que dom Helder dizia para Elzita: ‚ÄúA senhora tome cuidado. Eu sou como fogo. As pessoas quando chegam aqui saem todas queimadas‚ÄĚ, num alerta sobre a repress√£o. Ela respondia: ‚ÄúEu j√° estou no inferno faz muito tempo‚ÄĚ.

A cada pista nova, surgia uma esperan√ßa. Meses depois do desaparecimento, chegou a informa√ß√£o de que Eduardo Collier estaria na Fran√ßa. Logo em seguida, verificou-se que n√£o era verdade. 

Em seguida, Elzita foi atr√°s de uma pista que dava conta de que Fernando estaria no Hospital Psiqui√°trico do Juqueri, em Franco da Rocha, na regi√£o metropolitana de S√£o Paulo. 

Levou fotografias, distribuiu com os funcionários e voltou ao Recife sem encontrar o filho. Há 12 anos, esteve no IML (Instituto Médico-Legal) do Rio de Janeiro porque ficou sabendo que um homem muito parecido com Fernando foi enterrado como indigente. Olhou as fotografias e viu que não era seu filho.

Perdeu as contas de quantos quart√©is visitou no Recife, no Rio de Janeiro e em S√£o Paulo. Tamb√©m esteve em in√ļmeros cemit√©rios na tentativa de achar as ossadas do filho.

At√© morrer, Elzita mantinha o mesmo n√ļmero do telefone fixo, na esperan√ßa de que o filho desaparecido pudesse ligar para casa ou que qualquer pista pudesse chegar a ela. Em um dos quartos de sua casa, guardava fotos, documentos e roupas de Fernando.

No anivers√°rio de 102 anos, j√° bastante debilitada de sa√ļde em raz√£o da idade avan√ßada, conseguiu completar, estimulada pelos filhos, o poema de autor desconhecido que repetiu a vida inteira. 

‚ÄúHei de v√™-lo voltar, ela dizia, o meu doce consolo, o meu filhinho. Passam-se anos, e o v√©u do esquecimento baixando sobre as coisas tudo apaga. Menos da m√£e, no triste isolamento, a saudade que o cora√ß√£o esmaga." 

Quem foi Fernando Santa Cruz de Oliveira

  • Fernando desapareceu em fevereiro de 1974, ap√≥s ser preso por agentes do DOI-Codi, √≥rg√£o de repress√£o da ditadura militar, no Rio de Janeiro. Ele era pai do atual presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, na √©poca um beb√™ de dois anos.
  • Nascido no Recife, se juntou no fim dos anos 1960 √† A√ß√£o Popular Marxista Leninista, grupo dissidente da A√ß√£o Popular, da juventude cat√≥lica.
  • Nenhum documento escrito sobre ele pela pr√≥pria ditadura o vincula a qualquer ato violento ou da esquerda armada. Fernando n√£o era processado quando desapareceu, aos 26 anos. Ele usava seu nome e sobrenome reais e era funcion√°rio p√ļblico de uma empresa de √°gua e energia de S√£o Paulo.
  • No Carnaval de 1974, foi visitar seu amigo Collier, que morava no Rio. Desapareceu quando se dirigia ao encontro, em Copacabana.
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