Celebridades se atrapalham na cozinha em busca de audiência na TV

Novos programas têm apresentadores como Paris Hilton, Sandy e Rodrigo Hilbert

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Rafael Tonon
São Paulo e Porto

Vestindo um tubinho preto, luvas de renda, colar de pérolas e máscara com cristais Swarovski, Paris Hilton vai às compras em um mercado local para garantir os ingredientes do jantar.

Pede quatro filés mignon ao açougueiro, aproveita para comprar duas bolotas pequenas de trufas negras vindas da Itália e algumas folhas de ouro comestível para deixar o jantar mais "glamouroso, claro", como diz.

Suas convidadas naquela noite serão sua mãe e sua irmã, que, além de se sentarem para comer, chegaram um pouco antes da hora para ajudar a moça na cozinha.

Ao ver as folhas de ouro na bancada, a irmã pergunta: "Que gosto tem isso?". Hilton responde: "Dinheiro!".

O programa, que mostra as peripécias da famosa na cozinha, "Cooking with Paris", lançado em agosto passado pela Netflix, foca nas anedóticas e extravagantes práticas adotadas pela socialite na hora de cozinhar para convidadas famosas como Kim Kardashian ou a cantora Demi Lovato.

Paris Hilton apresenta programa 'Cooking with Paris', na Netflix - Divulgação

Claramente a patricinha acostumada às capas de revistas não tem muita intimidade com cortes (usa faca de manteiga para picar salsinha), panelas e, sejamos sinceros, preocupações com a higiene.

Durante a preparação, depois de algumas horas para escolher o look, usa uma blusa com plumas nas mangas, misturando com a mão manteiga com as trufas negras raladas. Ou decide que é melhor lavar a carne debaixo da torneira antes de grelhá-la.

"Eu adoro cozinhar, mas não sou uma chef treinada e nem pretendo ser", diz ela, logo na abertura do programa. "Quero mostrar que qualquer bitch também pode cozinhar."

O mote de Hilton, na verdade, é uma tendência recente (e crescente) nos novos programas gastronômicos, principalmente em plataformas de streaming e canais no YouTube.

Saem de cena os profissionais mais habilidosos e entram as celebridades que se atrapalham nas receitas, erram os pontos e protagonizam desastres comuns a qualquer cozinheiro amador.

De Selena Gomez a Sandy, de Amy Schumer a Adriane Galisteu, os programas contemporâneos aprofundam um movimento que já tinha começado em canais fechados, em que atores e celebridades aparecem não só em novelas e programas de auditório, mas colocando a mão na massa.

"A culinária na TV atingiu um ponto de saturação", analisa o crítico de TV da Folha Tony Goes. Para ele, os antigos programas de receitas surgidos nos anos 1960 e 1970 deram lugar a novos formatos, como o boom dos realities competitivos, por exemplo.

Apesar de ainda existirem programas que ensinam técnicas, ele acredita que o foco agora é no entretenimento em si. "As pessoas assistem não para aprender a fazer este ou aquele prato, mas para se divertir. É entretenimento em primeiro, segundo e terceiro lugares."

Em seu programa, Sandy recebe ajuda profissional de cozinheiros famosos (como Paola Carosella e Thiago Castanho) para cozinhar em sua casa, com a presença da família.

Derruba o ovo no chão, lasca o esmalte da unha com a faca e ensaia um "galopeeeeeeira" a plenos pulmões enquanto verte uma massa na assadeira.

"Tem sido uma experiência maravilhosa, divertidíssima", assume a cantora no teaser do programa. "Eu fico mesmo muito concentrada, e o pessoal aqui em casa fala que eu estou mandando bem", orgulha-se.

A gastronomia tem se tornado, nos últimos anos, uma forma para muitos famosos ampliarem suas imagens, associando-as a uma área diferente da que em que eles originalmente se destacaram.

Muitos também pegaram carona na visibilidade que a gastronomia ganhou na atual cultura pop para "sair da geladeira" e aproveitar a visibilidade que pode gerar até novas oportunidades comerciais.

"No mundo hiperconectado em que vivemos, quase qualquer exposição é válida", explica Goes. A participação em um programa sobre comida pode gerar mais engajamento nas redes sociais, e assim por diante.

O ator Stanley Tucci, conhecido por papéis em filmes como "O Diabo Veste Prada" e "Um Olhar do Paraíso" (para o qual foi indicado ao Oscar), virou um trending topic no Twitter quando estreou seu programa gastronômico pela CNN ("Stanley Tucci: Searching for Italy"), no qual percorre a Itália para comer e falar de sua paixão pela comida.

A repercussão foi tamanha que ele acaba de lançar um livro sobre o tema e virou figurinha assídua em programas de entrevistas na televisão norte-americana.

"A comida tem esse enorme poder engajador", disse, no programa do apresentador James Corden.

Em muitos novos formatos, aliás, a comida tornou-se apenas um pretexto, já que quase não se mostram mais ingredientes ou passos de receitas.

No novo programa da GNT, "Bem Juntinhos", o casal Fernanda Lima e Rodrigo Hilbert recebe artistas: ela os entrevista enquanto ele cozinha.

Durante os cerca de 30 minutos de duração, nenhuma tábua é construída e nem sequer uma dica de cozinha é partilhada: comida, mesmo, só em curtos takes secundários entre os papos com Dani Calabresa ou Gaby Amarantos.

Mesma fórmula segue o "Hessel’s Kitchen", programa culinário lançado no YouTube pela plataforma de conteúdo geek Omelete.

Ali, o apresentador e fundador do site, Marcelo Hessel, também cozinha enquanto conversa com seus convidados sobre assuntos como misticismo ou relacionamentos.

Para ele, a forma como as pessoas consomem conteúdo audiovisual mudou muito, à medida que as transmissões ao vivo e as comunidades como a Twitch se tornaram a nova rede social, gerando outras formas de interação.

"O tipo de vídeo professoral que eu sempre fiz como crítico de cinema tem dado lugar a bate-papos informais e a uma aproximação mesmo que coloca o streamer e o público num mesmo patamar, quase uma intimidade", opina.

Na pandemia, Hessel passou a cozinhar cada vez mais e postar seus preparos nas redes sociais, o que gerou um engajamento interessante com seus seguidores que o fez pensar que poderia ser bom para um novo formato de programa.

"É muito comum que as pessoas inclusive deem dicas de como melhorar o que eu estou preparando, então o programa nasceu menos de um lugar de autoridade e mais para testar se essa aproximação entre leigos, eu de um lado e o espectador de outro", afirma.

No fundo, ele diz, os ingredientes mais importantes são os convidados, que vão do psicanalista Christian Dunker, o ex-BBB João Pedrosa, à escritora Natália Timerman, que "toparam participar sem sequer saber o que eu ia cozinhar ou como".

"Eu cozinho com medidas no olho, cada carbonara que eu faço fica de um jeito. O programa não tem esse objetivo de ser um lugar de autoridade [na cozinha]", ressalta.

Como resume o crítico Tony Goes, os novos programas de comida querem entreter, e não ensinar. "Quem quiser aprender a cozinhar, que compre um livro ou faça um curso", conclui.

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