'Chef-ativista' José Andrés é tema de documentário em que aparece em todos os tipos de tragédia

Espanhol se tornou um humanista ao servir mais de 70 milhões de refeições pelo mundo

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Rafael Tonon
Porto

Nem é preciso um "batsinal" para que ele apareça. De terremotos a outros desastres ambientais de escala mundial, passando pela recente guerra da Ucrânia, basta a situação complicar que lá está o chef espanhol José Andrés mobilizando um exército para alimentar as pessoas necessitadas.

Já se tornou uma imagem disseminada na imprensa e redes sociais: ele vestindo colete utilitário, boné na cabeça e algumas marmitas nas mãos, com os mais devastadores cenários por trás. Furacão Maria, em Porto Rico, terremoto no Haiti, as inundações em Wilmington, na Carolina do Norte.

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Cena do documentário 'We Feed People', sobre o chef José Andrés - Divulgação

Andrés é chef aclamado nos EUA, onde vive desde 1993, tendo criado um pequeno império da cozinha espanhola com mais de 15 restaurantes. Mas foi seu trabalho na organização não-governamental World Central Kitchen (WCK), criada para distribuir alimento a pessoas vítimas de desastres naturais, que o tornou um ícone da gastronomia mundial.

Indicado até mesmo ao Nobel em 2019 por seu trabalho humanitário, que já serviu mais de 70 milhões de refeições pelo mundo, o espanhol inaugurou a era dos chefs-ativistas —aquela que sucede a dos chefs-celebridades, em voga até o final dos anos 2010.

Mais do que aparecer, agora os cozinheiros precisam ter uma causa.

No novo documentário "We Feed People", realizado pelo National Geographic e que acaba de chegar ao serviço de streaming Disney+, o celebrado diretor Ron Howard mostra como Andrés criou a instituição.

E de que forma aproveitou a fama conquistada entre programas de TV e capas de revista para catapultá-la mundialmente. "Ele soube se aproveitar da egomania dos chefs celebridades", aponta Carlow Sugarman, ex-repórter de gastronomia do Washington Post.

Nas primeiras cenas, o filme flagra Andrés entre as enchentes na Carolina do Norte traçando um plano para instalar sete cozinhas e alimentar os desabrigados.

Uma repórter pergunta seu nome. Ele reponde, lacônico: "José". Ela pergunta então o que ele faz ali, com mapas nas mãos e uma equipe em volta. A resposta do chef: "eu alimento pessoas e crio sistemas".

Andrés fundou a WCK em 2010 quando, de férias nas Ilhas Cayman, recebeu a notícia do terremoto que devastou o Haiti. "Eu me senti tão perto e tão longe. Precisava fazer alguma coisa. Fui para lá imediatamente e comecei a organizar grupos que pudessem me ajudar a alimentar as pessoas necessitadas", diz, no documentário.

Tentou mobilizar governos e instituições e se deu conta da burocracia que rege as ajudas humanitárias. Decidiu, então, criar seu próprio projeto para conseguir fundos que pudessem viabilizar a distribuição eficiente das refeições. "Eu sou bom em ver oportunidades onde as pessoas veem caos", afirma.

Com cozinheiros experimentados em cozinhas profissionais, ele criou um pequeno time que se especializou em logística de desastres: assim que chegam a um local, tratam de mobilizar voluntários e a população local para que as refeições seja feitas com urgência e entregues com rapidez. "Temos aprendido a executar verdadeiras estratégias de guerra", confessa.

Mas não foi a única lição que ele teve nesse tempo. Enquanto cozinhava um ensopado de feijões para as vítimas do Haiti, ele percebeu que as mulheres da comunidade o olharam com ceticismo sobre sua receita.

"Não entendi. Eu estava fazendo o melhor feijão do mundo, eu sou José Andrés", o chef lembra ter pensado.

As mulheres o ensinaram, então, sua forma de preparar o prato e Andrés afirma ter tido o mais importante aprendizado ali. "É preciso respeitar os costumes e a cultura. Nos certificamos que a nossa comida corresponda ao gosto das pessoas locais", diz.

O "chef José Andrés" aparece, no entanto, em entrevistas e nas muitas transmissões e posts que faz nas redes sociais para mostrar a todo tempo o que ele e seu time estão fazendo.

"Precisamos aproveitar nossa projeção de forma mais eficiente", comenta, em uma das cenas. A fama é para mobilizar e criar engajamento.

"Também é a única forma de sabermos se ele está bem. Nem sempre conseguimos contato, mas entramos no Twitter e vemos que ele está a salvo", diz uma de suas filhas, no filme.

De erupções de vulcões a incêndios, passando por todos os tipos de tragédias, Andrés se mobiliza muito rápido para poder chegar a campo e colocar sua estrutura para funcionar. "Estava no primeiro voo que aterrissou em Porto Rico depois da passagem do Maria", relata, orgulhoso.

Agora, ele se esforça para alimentar os ucranianos vítimas da invasão da Rússia ao país, que o documentário não teve tempo de mostrar. "Mais do que alimento, a comida pode ser um agente de mudança", acredita. "Esse é o meu chamado."

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