Descrição de chapéu Copa Libertadores

De Simeone a Jesus, metamorfose tática marca carreira de Filipe Luís

Finalista da Libertadores, lateral esquerdo chegou a ser atacante no Figueirense

São Paulo

Quem faz a análise fria das estatísticas de Filipe Luís pelo Flamengo pode pensar que o lateral esquerdo de 34 anos pouco contribui ofensivamente para o time que tem o melhor ataque da Copa Libertadores (22 gols) e do Campeonato Brasileiro (73 gols).

Afinal, em 18 jogos desde que chegou ao clube carioca, que enfrenta neste sábado (23) o River Plate (ARG) na final do torneio continental, em Lima, o catarinense ainda não marcou gols ou deu assistências, justamente os dois medidores mais diretos de participação ofensiva.

Os números não surpreendem quem acompanha a carreira do jogador, que por nove anos treinou sob o comando de Diego Simeone no Atlético de Madrid (ESP), onde o próprio Filipe Luís jogou sempre com "a ideia de ir para trás, não para frente", conforme declarou em entrevista ao jornal espanhol El Mundo na última quarta-feira (20).

Filipe Luís protege a bola de Diego Tardelli contra o Grêmio, na semifinal da Libertadores
Filipe Luís protege a bola de Diego Tardelli contra o Grêmio, na semifinal da Libertadores - Nelson Almeida/AFP

A passagem pela Europa marcou uma metamorfose no futebol do lateral, que no início de carreira chegou até a ser utilizado como atacante no Figueirense.

"O Filipe sempre foi um jogador muito técnico, muito concentrado no que ele fazia. Eu usei o Filipe como meia, como segundo volante e como atacante inclusive, jogando pelo lado direito, olha só", lembra Dorival Júnior, à Folha, que comandou o atleta no clube catarinense.

Revelado pelo Figueirense em 2003, Filipe Luís ganhou mais oportunidades no ano seguinte, depois que Triguinho, titular da posição, foi vendido ao São Caetano. Da base, despontou outro atleta que jogava pelo lado esquerdo, André Santos, que jogou no Corinthians e chegou à seleção brasileira.

Com ambos, Dorival promovia trocas no setor, aproveitando uma das características que Filipe, na sua visão, tem de melhor: a construção do jogo por dentro.

"Eu soltava ele como um segundo meia de organização, chegando na área. Quando precisava, ele usava a finta e tinha muito isso, de partir para cima da marcação, de livrar sempre um marcador e criar uma situação de dois contra um", diz o treinador, que também carrega a lembrança de um jogador questionador e muito interessado na parte tática.

Do Figueirense, o lateral brasileiro partiu para o Ajax, da Holanda, mas a concorrência do compatriota Maxwell e a dificuldade de adaptação à cultura holandesa e ao clube resultaram na saída do jogador, emprestado ao time B do Real Madrid (ESP).

Uma temporada na segunda divisão espanhola foi suficiente para que chamasse atenção do Deportivo La Coruña (ESP) e ganhasse a chance de atuar na elite do país. Ainda com características ofensivas, lembrando o atleta que surgira no Figueirense anos antes, Filipe Luís foi incorporando experiência até ganhar a grande oportunidade de sua carreira, em 2010, no Atlético de Madrid.

"Simeone o influenciou muito na hora de ensinar sobretudo a defender. E não só o Simeone, mas também [Diego] Godín, que sempre esteve perto dele dizendo se era a hora de sair ou a hora de fechar. Mas o principal de tudo é a mentalidade do Filipe, que é ganhadora", diz Juanfran, lateral direito do São Paulo e ex-companheiro do brasileiro no Atlético, à Folha.

O espanhol sofreu processo bastante semelhante ao de Filipe quando chegou ao clube. Meia ofensivo de origem, Juanfran baixou de posição no campo até se converter no lateral direito de confiança de Simeone no Atlético.

De acordo com o são-paulino, sua característica lembra mais a de Rafinha, colega de Filipe no Flamengo, atacando os espaços no ataque e chegando mais à linha de fundo, enquanto Filipe Luís constrói o jogo pelo meio, carregando a bola e participando da troca de passes.

"Você vê que quando o Rafinha ataca, Filipe está como terceiro defensor, às vezes pelo meio. Isso é bom para parar os contra-ataques e para que a equipe não fique com os dois laterais no ataque. Se você vai com os dois à frente, fica sem defensores", explica o espanhol.

Acostumado a Simeone e ao futebol reativo do Atlético de Madrid, Filipe Luís tem experimentado com Jorge Jesus uma transformação profunda na forma de jogar –não sua, mas da equipe.

Segundo o próprio jogador na entrevista ao diário El Mundo, o futebol proposto pelo técnico português "é mais divertido", mas que "seria estúpido discutir o modelo do Cholo".

De Simeone a Jesus, passando por José Mourinho, com quem trabalhou no Chelsea (ING) na temporada 2014/2015, Filipe Luís vai agregando, com a mesma curiosidade de quem já questionava os treinadores no início de carreira, conhecimentos táticos para o próximo passo de sua trajetória no futebol: o comando técnico.

"Descobrir outro futebol na minha idade é fenomenal para que eu possa anotar no meu caderno. Aprendi do Cholo, de Mourinho, agora de Jorge Jesus. Os melhores professores para ser um técnico mais completo. Não sei se serei capaz [de treinar], não sei se conheço tanto sobre futebol como creio. Mas se fui capaz de entender a cabeça do Simeone, já estou em vantagem."

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