Descrição de chapéu Copa Libertadores

Ameaças e agressões marcaram Fla na final da Libertadores de 81

Time apanhou da polícia antes do jogo e atuou sob vigia de cães no Chile

São Paulo

"Ele ficou o tempo todo falando que iria me matar e ficava me ameaçando quando tinha escanteio ou lance de área."

Era com esse tipo de recado que o chileno Mario Soto tentava intimidar o ex-zagueiro Mozer durante o segundo jogo da final da Libertadores de 1981, entre Cobreloa (CHI) e Flamengo, no Chile.

​Então com 21 anos e um dos mais jovens do elenco, Mozer disse que já no primeiro confronto, realizado no Maracanã, o Cobreloa deixou claro que o jogo violento era parte do seu repertório para tentar conquistar o título. No Rio, as principais vítimas das entradas mais duras foram Zico e Adílio. 

Após vencer por 2 a 1 em casa, o time carioca dependia de um empate para arrebatar a conquista em terras chilenas. Com um gol no segundo tempo marcado por Merello, porém, o rubro-negro acabou derrotado por 1 a 0, o que levou a decisão do torneio para um terceiro duelo.

Zico arrisca chute de perna esquerda no primeiro jogo da final da Libertadores, no Maracanã
Zico arrisca chute de perna esquerda no primeiro jogo da final da Libertadores, no Maracanã - Arquivo Jornal do Sports

 "A segunda partida foi o caos. Logo na entrada do campo, passamos por um corredor de policiais com metralhadora. Ali já levamos uns tapas e umas bicudas por baixo. No jogo, tinha pastor alemão nas laterais do campo. Na hora de cobrar lateral ou bater escanteio, você ficava preocupado era em não levar uma mordida", afirma Mozer à Folha.

Em 1981, o Chile vivia um momento político conturbado. O país era comandado por uma junta militar presidida pelo general Augusto Pinochet, que assumira o poder com o bombardeio ao palácio de La Moneda, em 11 de setembro de 1973.

O meia flamenguista Lico lembra que, em função da tensão social provocada pela ditadura, a segunda partida ganhou a dimensão de questão nacional para os chilenos.

"O povo vivia um momento de revolta, e isso poderia ocasionar uma tragédia, já que todos os torcedores queriam a vitória a qualquer custo. Vencer o Flamengo era uma questão de honra para eles. E a polícia não se importava com nada do que acontecia em campo" diz.

Lico também foi vítima da violência chilena. Agredido pelo zagueiro Mario Soto, ele precisou levar pontos na orelha e teve sérios problemas na vista. Não voltou para o segundo tempo e foi direto para o hospital em Santiago. O estrago foi tão grande que o jogador acabou fora do terceiro duelo, que definiu o título em favor do Flamengo, em Montevidéu.

"Cheguei a ficar com medo de perder a vista direita. Vi que era grave pois tive que sair do jogo. No dia seguinte, ao olhar no espelho sem o curativo, meu olho estava completamente fechado. Um horror", relembra.

Outro alvo da fúria adversária foi o meia Adílio. No primeiro tempo, depois de passar por Soto em arrancada pela direita, o flamenguista levou uma pancada na testa.

"Ele [Soto] jogou com uma pedra na mão para machucar a gente. Tive de ser atendido e levei quatro pontos. Atuei na etapa final com um curativo na cabeça", conta.

A passividade da arbitragem foi outro obstáculo para os jogadores do Flamengo. ​​Diante do clima de tensão que cercou aquelas três partidas, os atletas rubro-negros chegaram a combinar uma estratégia caso o campo fosse invadido pela torcida ou acontecesse uma briga generalizada.

"Lembro dessa conversa no vestiário. O esquema era juntar todo mundo no meio de campo, ficar um de costas para o outro e não deixar ninguém apanhar sozinho", diz Adílio.

Técnico do último Brasileiro conquistado pelo clube, em 2009, Andrade lembra que os rubro-negros também sabiam se impor diante de rivais violentos. "Quando o adversário começava a bater muito lá na frente, a gente também sabia chegar atrás. Tinha que ser na base do dente por dente, olho por olho", declara ele, expulso em Montevidéu por revidar a violência dos chilenos.

Apesar de atuar no ataque e ser um homem de criação, o ex-meia Tita era outro que respondia com virilidade às entradas impostas pelos adversários. "Pela minha personalidade e caráter, eu enfiava a porrada nos caras também. Eles sabiam com quem se metiam. O Lico, o Adílio e o Zico não revidavam. Eu, se via que o cara estava com maldade, batia também."

Três décadas depois, Tita e Soto se reencontraram durante a realização de um projeto social no México. Na conversa, segundo o brasileiro, o chileno pediu desculpas por sua atuação violenta e, no final, explicou como conseguia machucar os flamenguistas sem que a arbitragem percebesse.

"Naquela época, quando tinha dividida, eu ia na bola, mas também dava um soco na cara do adversário", contou Soto ao ex-flamenguista.

Mario Soto acabaria pagando o preço de suas atuações violentas na partida decisiva realizada no Uruguai. Já no final do duelo, em que o Flamengo venceu por 2 a 0, o reserva Anselmo entrou no lugar de Nunes e acertou um soco que quebrou dois dentes do defensor rival.

Mozer lembra que, mesmo com o rosto ensanguentado, o chileno ainda ficou provocando os atletas brasileiros após a partida. "Perdi dois dentes, mas quebrei quatro jogadores de vocês", falava ainda no gramado.

Anselmo diz não se arrepender do soco, mas reconhece que aquela agressão atrapalhou o decorrer da sua carreira. "Fiquei com fama de jogador violento. Muitas vezes as transferências não aconteciam por conta dessa fama. Foi muito ruim."

Ele deixou o clube da Gávea em 1982 e defendeu, entre outros clubes, Botafogo-SP, Ceará e Sport, até se transferir para o futebol português no final da década de 1980.

Aos 61 anos e morando em Portugal há 27, ele trabalha na contabilidade de uma rede de escolas. O futebol faz parte do passado, já que uma lesão no joelho o impede de jogar.

Citado como responsável pelo jogo ríspido praticado pelo time chileno em 1981, Mario Soto, 69, tratou os duelos violentos como parte de um futebol de outros tempos. "Tudo o que acontece no campo, fica no campo", diz por telefone à Folha.

Soto falou que já se encontrou em diversas oportunidades com jogadores daquele Flamengo, mas que nunca discutiram nada sobre a violência dos jogos, "só coisas positivas".

O ex-zagueiro, que jogou a Copa do Mundo de 1982 pelo Chile, nega a utilização da pedra e diz que tanto ele como seus companheiros não planejaram a guerra que a final da Libertadores de 1981 acabaria se tornando.

"Jogamos com o que permite o regulamento. Muitas coisas, quando passa o tempo, você pensa que poderia não ter feito. Mas era o momento. Hoje em dia, com o VAR, se você me perguntar se eu gosto, eu digo que sim, me encanta! Para nós seria muito positivo que houvesse o VAR, mas não era assim", afirma.

De inimigo declarado do Flamengo após a decisão continental, Soto parece, 38 anos depois, se render ao time de Jorge Jesus. Ao ser questionado sobre a final deste sábado (23), em Lima, ele não hesita em mostrar a preferência pelo time carioca diante do River Plate: "Serei o torcedor número 1 do Flamengo".

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