Descrição de chapéu
Folha, 100 Cartas para o futuro

Querido pai, mal posso acreditar que chegamos juntos até aqui

Só lamento muito ter sido sem a mamãe

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Cláudia Collucci
Cláudia Collucci

Mestre em história da ciência pela PUC-SP e pós-graduada em gestão de saúde pela FGV. Está na Folha desde 1990 e, hoje, escreve sobre saúde.

Este texto faz parte da série Cartas para o Futuro, em que colunistas, repórteres e editores da Folha imaginam os cenários das suas respectivas áreas de atuação em 2031.

Querido pai, mal posso acreditar que chegamos juntos até aqui. Você, com 100 anos e eu, com os meus 63. Nós, idosos, somamos agora quase 41 milhões no país e já somos um grupo maior do que os jovens até 14 anos (37 milhões).

Se por um lado essa mudança da pirâmide etária tem levado à criação de mais políticas públicas voltadas ao envelhecimento, com ambientes amigáveis aos idosos e serviços de saúde mais adequados aos cuidados que necessitamos, por outro, vimos aumentar o fosso das desigualdades, com muitos de nós incapacitados, em total desamparo.

Observo a maneira como você envelheceu e tento extrair dela lições que me ajudem a encarar os próximos anos com a mesma qualidade de vida e autonomia que você chegou ao seu centenário.
Você sempre evitou doces, nunca fumou, manteve uma dieta equilibrada e nunca deixou de estar ativo fisicamente e no convívio com a natureza.

É uma pena que as políticas públicas de promoção à saúde e de prevenção às doenças continuem sem prioridade no país. O Brasil atinge hoje a marca de 40% da população obesa, quase perto dos Estados Unidos, com 50%. Se formos somar as pessoas com sobrepeso, estamos iguais a eles, em cerca de 70%!

Ilustração mostra duas pessoas se abraçando
Querido pai, mal posso acreditar que chegamos juntos até aqui. Você, com 100 anos e eu, com os meus 63 - Catarina Pignato

Não é de hoje que a ciência busca um tratamento para a obesidade que seja seguro, eficaz e mantenha os quilos perdidos no longo prazo. Mas, infelizmente, a bala de prata ainda não foi encontrada. Ganho de peso é multifatorial. Mudança de estilo de vida ainda é o principal remédio.

Uma das implicações cruéis da obesidade é a diabetes. Nessa última década, a prevalência dobrou no Brasil, atingindo 15% da população. O impacto da hipertensão também é grande: afeta 48% dos brasileiros!

Lembra quando você teve o primeiro infarto aos 80 anos e o segundo logo depois, e o cardiologista disse que o seu coração era uma bomba-relógio?

Graças à vida saudável, à adesão ao tratamento clínico e ao marcapasso, você superou todos os prognósticos. Inclusive em relação à insuficiência cardíaca.

Quem diria que a sua última entrada no pronto-socorro, há dez anos, foi devido à queda de um abacateiro de cinco metros? O plantonista ficou incrédulo pelo fato de você não ter sofrido nenhuma fratura. Que susto!

Vimos aumentar o fosso das desigualdades, com muitos de nós incapacitados, em total desamparo

Cláudia Collucci

Jornalista da Folha

Só lamento muito termos chegado até aqui sem a mamãe. Só há pouco tempo os tratamentos imunobiológicos estão sendo usados largamente no tipo de câncer de fígado que a levou tão rapidamente. E com ótimas taxas de sobrevida.

Mas, infelizmente, muitos pacientes oncológicos seguem sem acesso ao diagnóstico precoce e aos tratamentos mais modernos. Não é à toa que os nossos índices de sobrevivência continuam muito abaixo dos observados em países desenvolvidos.

Mudando de assunto, você se acostumou com o reloginho que eu te dei para monitorar a sua pressão arterial e o seu marcapasso? É incrível como esses aparelhinhos que antes só contavam passos, batimentos cardíacos e calorias se transformaram num verdadeiro banco de dados da nossa saúde e que, a distância, o nosso médico de família pode nos orientar!

Ah! Você ouviu falar da impressão 3D de órgãos? Imaginou que um dia conseguiríamos “imprimir” uma orelha ou mesmo um rim? Sim, meu velho, você viveu para ver isso.

Em vez de usar tinta, como as impressoras comuns, a bioimpressão 3D usa biotintas. Elas contém células, proteínas e elementos biológicos capazes de reproduzir um tecido. Não é demais?

Por hoje, é isso, pai. A gente continua a conversa depois tomando um vinho.

Com amor,
a tua “fiota” Cláudia.

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.