Covid-19 deixa cenários do mundo mais imprevisíveis

Mas pandemia não altera a ascensão da China em desafio aos Estados Unidos

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Igor Gielow

Repórter especial em São Paulo, foi editor, secretário de Redação e diretor da Sucursal de Brasília

Este texto faz parte da série Cartas para o Futuro, em que colunistas, repórteres e editores da Folha imaginam os cenários das suas respectivas áreas de atuação em 2031.

Do ponto de vista geopolítico, qual será o mundo em que viveremos, se tivermos sorte, daqui a dez anos? As forças motrizes das relações entre países são profundas e de lenta construção.

Ao mesmo tempo, a pandemia da Covid-19 se interpôs à dinâmica do planeta de forma tão violenta que virou elemento inescapável para qualquer futurologia.


A peste não altera o principal eixo sobre o qual revolve grande política: a ascensão da China em desafio aos Estados Unidos, a potência dominante do mundo.

O que o Sars-CoV-2 ou suas mutações garantem é um grau de imprevisibilidade a temperar cenários, que podem se dividir entre tenebrosos e prudentemente otimistas.

No primeiro caso, o mundo assiste a uma deterioração acentuada da ordem atual devido ao fracasso dos EUA em combater a pandemia.

Ela segue castigando o país e boa parte do mundo até 2024, quando chega a imunidade natural de rebanho.

Vacinação eficaz em algumas nações, a Europa à frente, gera ilhas de desigualdade e o aumento de uma xenofobia associada ao medo do vírus.

O enfraquecimento americano leva a um questionamento pela opção liberal feita em 2020, atiçando um desafio de cepa trumpista.

Autoritarismos e populismos retomam a marcha interrompida na virada da década em países europeus e periféricos, como o Brasil.

A China reforça sua aliança com a Rússia, tornando o regime de Vladimir Putin um braço militar vassalo de seu poder econômico.

Com os EUA machucados, Xi Jinping começa a arriscar, derrotando os americanos em um engajamento limitado no mar do Sul da China.

Desafiado por europeus do leste, Putin engole a Belarus e devolve um governo pró-Moscou a Kiev. O risco de uma guerra com a Otan é diário.

Assim, 2031 amanhece com as estruturas do pós-guerra disfuncionais e o Ocidente em desarranjo.
Temendo a fraqueza americana, a Índia resolve acertar as contas com o Paquistão, aliado da China. O tabu nuclear é rompido e milhões morrem.
ilustração de globo terrestre sendo arremessado por estilingue
Pandemia da Covid-19 transformou o tabuleiro geopolítico - Catarina Pignato


No Oriente Médio, o desengajamento americano leva Israel e seus novos parceiros, incluindo a Arábia Saudita, às vias de fato com o Irã.

A crise energética é aliviada em locais como a Europa pela ascensão de fontes alternativas. A revolução verde virou realidade.

Uma visão mais benigna começa pela esperança de um controle rápido da pandemia em todo o planeta, ou ao menos nas nações centrais.

Neste caso, é possível antever um equilíbrio entre americanos e chineses, com a emergência de uma União Europeia renovada após quase ser implodida por nacionalismos.

Aqui, não há conflito aberto entre Pequim e Washington, e sim uma rivalidade geopolítica que obrigará países a fazer escolhas claras, apesar de toda a retórica inclusiva da presidente Kamala Harris.

A economia mundial seguirá interligada, apesar da inadiável divisão tecnológica do mundo entre China e EUA, adiando um tira-teima apocalíptico.

A Índia segue em modo de potência emergente e Rússia, ainda com Putin, caminha para um perigoso isolamento. O Oriente Médio mantém sua rotina de tensão, com o eventual xeque ao Irã.

Ao fim, é provável que a história desta década transite em algum ponto entre esses cenários. Isso se não formos atingidos por algum outro bólido exógeno no caminho.

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